Iluminadas | Crítica: Série entrega investigação sobrenatural misturada com movimento #MeToo

A forma como o movimento #MeToo trouxe para Hollywood um olhar sobre a cultura do assédio é um muito interessante de se acompanhar e de ver como as produções foram criadas, aprovadas e tudo mais, depois dos eventos dos últimos anos.

E com a série Iluminadas (Shining Girls no original), a Apple nos apresenta uma produção super caprichada esteticamente, liderada uma por uma atriz fenomenal e no seu ápice (muito mais que em The Handmaid’s Tale ao meu ver) para contar essa história que mescla um pouco do movimento que sacudiu Hollywood com uma investigação criminal que se apoia em um mistério incrivelmente bem trabalhado e apresentado aqui nos primeiros episódios.

Iluminadas
Elisabeth Moss em cena de Iluminadas
Foto: AppleTv+

Baseado no livro de mesmo nome da autora Lauren Beukes, Iluminadas entrega uma produção audiovisual que aos poucos vai por contar sua história de uma maneira bastante instigante, mesmo que um pouco complexa e misteriosa demais num primeiro momento, mas que realmente faz isso de uma forma sensacional em termos de desenvolvimento de narrativa e de construção de personagens.

O que sabemos logo de cara, e o que é essencial para, você caro leitor, saber sobre a atração? Coisa simples, vamos lá. Em Iluminadas, a trama acompanha a jovem Kirby (Elizabeth Moss, sensacional numa escalação perfeita) uma vítima de um evento traumático que mudou sua vida. As coisas, claro, não vão bem para a jovem logo depois, onde ela precisa lidar com os acontecimentos praticamente sozinha, sem muita ajuda da mãe (Amy Brenneman) ou de amigos. E Kirby mantém um diário onde ela anota seu dia-a-dia. E aí que Iluminadas começa a ganhar ares um pouco mais interessantes do que aparenta logo num primeiro olhar e ser apenas uma série sobre alguém que morreu.

O que a série nos apresenta é que a vida de Kirby muda, aos poucos, em frente dos seus olhos. São pequenas coisas, seja a posição de uma caneca que ela deixou no porão da redação do jornal que ela trabalha, o seu corte de cabelo, se ela tem um gato ou um cachorro, ou efetivamente, o local onde sua mesa está localizada no trabalho. São coisas simples, até que a jovem começa a notar e reparar que coisas maiores mudaram, como o fato que de um dia para o outro ela tem um marido e vive em um apartamento bonito. Será que Kirby sofre com alucinações por conta do seu ataque e vê coisas onde eles não existem? Ou será que tudo isso é real?

Elisabeth Moss e Wagner Moura em cena de Iluminadas
Foto: AppleTV+

Iluminadas caminha nessa linha tênue na medida que a série nos introduz para a figura atormentada da nossa protagonista. O seriado ganha mais camadas na medida que descobrimos efetivamente o que aconteceu com Kirby, e dos detalhes do evento traumático que ela passou voltam à tona, quando uma nova vítima aparece com as mesmas características do seu caso. Na medida que ela começa a procurar pistas sobre o homem que a atacou e a deixou para morrer, ela se vê no meio de uma investigação ao lado do jornalista Dan Velazquez (Wagner Moura, muito bem aqui) onde eles precisam encontrar outras vítimas do tal serial killer. A única questão é que Kirby precisa convencer Dan, e a si mesma em um determinado momento, que esses casos foram cometidos pela mesma pessoa só que em diferentes anos e épocas.

A dupla então começa a investigar diversos casos arquivados há anos na medida que o serial killer ataca novamente no início dos anos 90, onde a trama se passa. Ao mesmo tempo que Kirby e Dan precisam lidar com seus passados turbulentos e sombrios – ela com as consequências de ter sobrevivido ao ataque, e ele com seus problemas relacionados à bebida e de ter perdido sua esposa – o espectador é apresentado também para a figura do serial killer misterioso, um excelente Jamie Bell, e seu modus operandis e como ele vai atrás de suas vítimas, interpretadas aqui por Karen Rodriguez e Phillipa Soo.

Assim, Iluminadas, coloca a visão de Kirby e do serial killer lado a lado, onde a atração mostra como o assassino, e sua mente macabra funciona, onde seu foco está em novas vítimas ao longo de diversos momentos do tempo, ao mesmo tempo que vemos Kirby por tentar desvendar tudo isso.

Jamie Bell em cena de Iluminadas
Foto: AppleTV+

Iluminadas apresenta um leque de perguntas na medida que mostra suas respostas ao longo dos episódios, mesmo que sempre nos entregue também novas e inquietantes perguntas: Como ele viaja no tempo? Por que ele ataca essas mulheres? Elas estão conectadas de alguma? Qual o motivo que a realidade de Kirby é alterada? Por que ela conseguiu sobreviver? Assim, o que temos para nós espectadores é tentar reunir todas as peças desse quebra-cabeça junto com os personagens. O lado positivo é como espectadores temos uma ligeira vantagem sobre algumas coisas, mas também uma desvantagem que temos é que vários personagens escondem informações e que não são apresentadas para nós logo de cara. 

As atuações do trio principal são realmente o chamariz de Iluminadas, onde o elenco por si só já vale o play. Tanto Moss, quanto Moura e Bell estão excelentes em duas próprias maneiras, entregam personagens realmente profundos e com nuances que são trabalhadas por eles de uma forma incrivelmente magnética de se assistir. A forma como Moss atua, e muda suas expressões, cada vez que a realidade de Kirby é alterada é apenas fantástica. Moura faz um personagem mega interessante que navega por questões de integridade jornalística e ética corporativa e que por acaso fala português. Já Bell tem uma presença assustadora que pelo olhar te deixa arrepiado em diversos momentos. E assim, uma vez dentro da história, e familiarizados com esses personagens, é difícil você querer desviar o olhar e atenção do que Iluminadas tem para oferecer.

Vi os primeiros episódios de uma vez, mas acho que o modelo semanal de lançamento para Iluminadas é excelente para esse tipo de projeto, onde a história leva um tempo para introduzir os personagens, suas dualidades, e nos convencer em saber em quem podemos confiar, afinal, nem todos os personagens são confiáveis, assim por dizer. O seriado apresenta sua trama que faz uma tão bacana e cheia de pequenas reviravoltas e ganchos que nos fazem questionar tudo aquilo que já vimos até então.

O mistério é tão intrigante, os personagens tão bem criados e interpretados que a sensação que fica é que ao assistir Iluminadas você precisa assistir tudo para saber o que vai acontecer. Uma próxima obsessão na AppleTV+, sem dúvidas, e que consolida ainda mais a plataforma como a nova casa para boas histórias.  

Iluminadas chega na AppleTV+ com episódios semanais em 29 de abril.

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