Estranha Forma de Vida | Crítica: Quando fica bom, acaba

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A única coisa realmente “estranha” de Estranha Forma de Vida (Strange Way of Life, 2023) fica mesmo com a duração. Afinal, o curta de Pedro Almodóvar que estreou no Festival de Cannes no começo do ano com tanto hype e expectativa realmente empolga, mas quando fica bom, mas bom mesmo, acaba, deixando um gostinho amargo.

Com pouco mais de 30 minutos, Estranha Forma de Vida apresenta uma história interessante e intrigante sobre dois cowboys cujo passado se choca com o presente, onde uma vista inesperada tem segundas, terceiras e diversas intenções envolvidas que vão realmente mudar a vida deles mais uma vez.

Ao querer contar essa trama faroeste, no melhor estilo dos filmes clássicos da velha Hollywood, o diretor nos joga para um mundo extremamente convidativo que nos oferece um olhar atrás da cortina para esse universo de matadores de aluguel, uma cidadezinha do interior, e claro dois amantes de longa data que revisitam o passado. 

Ethan Hawke e Pedro Pascal em cena de Estranha Forma de Vida.
Foto: O2Play/MUBI. All Rights Reserved.

É na complexidade desses personagens que Almodóvar conta essa história. É nas relações não vividas, na esperança que vida seria outra, e nos caminhos não percorridos que são explorados e discutidos que a história fisga o espectador quando Silva (Pedro Pascal) retorna para visitar o xerife Jake (Ethan Hawke) depois de anos sem se verem.

O que se desenrola depois desse encontro que Almodóvar consegue retratar de uma forma extremamente poética em tela é um sentimento latente de tensão, seja sexual, seja de suspense, sobre o que vai acontecer em seguida. A chegada de Silva depois de anos faz com que essa relação traga antigos sentimentos reprimidos há anos, mas que afloram depois de uma noite cheia de vinho, discussões acaloradas, e também uma noite memorável, se é que vocês me entendem. =) 

É interessante ver que Almodóvar explora a sexualidade desses dois personagens, que exalam testosterona, de uma forma diferente do esperado e que apenas induz o que aconteceu e basicamente não mostra cenas mais tórridas entre eles. E isso mostra uma maturidade gigante que não reduz Estranha Forma de Vida em uma fetichização barata e sim com alguma coisa que realmente valha a pena ser contada.

O máximo que temos, é a tão comentada, pós sessão em Cannes que inundou as redes sociais, a parte traseira de Pascal. E isso apenas dá um charme extremamente único para Estranha Forma de Vida. Em vez de apelar para o gráfico e explícito, Almodóvar aproveita a curta duração para seduzir no sugestivo e na imaginação, e com dois atores veteranos nesses papéis, o trabalho de atuação tanto de Pascal quanto de Hawke é fundamental para fazer isso acontecer.

E basicamente fica claro que Estranha Forma de Vida só funciona, em sua proposta de ser um curta, por conta deles. E eles estão muito bem. Os olhares, a forma como as palavras são trocadas e que parecem ferir mais do que as as armas que ambos carregam nas cinturas, são ditas e declamadas por esses dois atores na medida que o texto (também de Almodóvar) circula rapidamente em nos apresentar esses personagens, a trama que eles vivem, os problemas seja do passado como os presente e como decisões tomadas há anos vão influenciar nos minutos finais desse curta cercados de ação faroeste com tiroteio, discussões, e imprevisibilidade 

Como falamos, é uma pena que Estranha Forma de Vida seja tão curto, afinal, a construção de mundo aqui criada é riquíssima, dos figurinos incríveis, até a ambientação faroeste dos cenários e das locações no deserto. Do real motivo para qual Silva retornou, para a forma na qual ambos esses personagens lidam com essa não relação que eles decidiram não ter quando jovens, Estranha Forma de Vida costura essa história que encaminha para um trágico final, não só mais trágico quando o final em aberto chega, nos deixa com questões para nós mesmos resolveremos, e um sentimento de “quero mais” gritante. 

O bate-papo no final do diretor com uma jornalista que completa os outros 30 minutos que a exibição de Estranha Forma de Vida tem nos cinemas, meio que acaba com toda a magia vista antes e serve como um banho de água fria para o espectador que se vê retirado do mundo faroeste que se viu imerso nos outros 30 minutos iniciais. Um desperdício.

No final, fica claro que Estranha Forma de Vida acaba por ser mais uma boa ideia, que mesmo belissimamente executada, acaba tão rápido como começou. 

Nota:

Onde assistir Estranha Forma de Vida?

Estranha Forma de Vida está em cartaz nos cinemas nacionais e chega, em breve, na MUBI.

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