O Estranho que Nós Amamos | Crítica

Utilizando um cuidado tremendo nos detalhes, uma preocupação sem tamanho na caracterização dos personagens principalmente no elenco feminino, Sofia Coppola mostra um amadurecimento fantástico em O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017). Aliado também ao poderoso elenco, a diretora que ganhou o prêmio no Festival de Cannes desse ano mostra que para contarmos boas histórias elas não precisam ser inéditas, e sim terem um cuidado especial em como as coisas vão ser representadas em tela.

O filme é uma releitura de uma produção lançada em 1971 com o mesmo nome e que foi adaptada do livro de Thomas Cullinan. Lá na década de 70, ele foi lançado por um diretor homem e a principio com a história mais focada no personagem do soldado, interpretado pelo ator Clint Eastwood e que deixava o restante dos personagens um pouco de lado. Em 2017, Coppola que também assina o roteiro junto com a direção, coloca as mulheres no centro da trama e em cada uma delas vemos diferentes personalidades , com diferentes jeitos de pensar e agir o que agrega no final o desenvolver do longa.

Foto: Universal Pictures

Assim, começamos a falar de um dos maiores pontos positivos do filme: a diretora se preocupa em apresentar seus personagens de uma forma natural e consegue também focar nos detalhes ao extremo. Desde do figurino até a ambientação podemos ver e perceber isso durante várias cenas, seja numa fita presa ao portão, uma barra de um vestido raspando no chão a medida que alguma personagem anda, ou como uma roupa o da época representa o ato de pensar e agir em diversos momentos. São pequenas coisas, pequenos detalhes que ajudam e muito a contar uma trama cheia de nuances, que se apoia no clima antigo e nas ótimas atuações de suas atrizes para contar uma história forte, envolvente e completamente viciante.

Em plena Guerra Civil americana, conhecemos o cabo da união John McBurney (Colin Farrell) que fica ferido em combate nas terras do Estado da Virginia. Ele é encontrado pela jovem Amy (Oona Laurence) que acaba se solidarizando com o soldado machucado na perna e o leva para sua escola só para mulheres comandado pela linha dura Martha Farnsworth (Nicole Kidman). A medida que essa nova variável muda a equação do dia-a-dia do internato tanto as funcionárias quanto as alunas tem que lidar com o interesse repentino com o rapaz. Então, elas decidem esperar ele melhorar para entrega-lo ao exército confederado e isso acaba gerando diversos sentimentos conflitantes entre elas e o soldado e claro entre elas mesmas. Assim, a chegada e a permanência dele muda a vida delas e claro a dele.

Uma das coisas mais interessantes de O Estranho que Nós Amamos fica nos momentos que o personagem de Farrell interage com as moradoras da casa, o ator que consegue mostrar um ar misterioso mas galanteador ao esconder suas intenções ao longo do filme mesmo quando ganha uma posição mais ativa na trama. Na medida que as mulheres se revezam para tentar descobrir mais sobre a novidade que as tira do completo tédio, o soldado também faz a ponte e começa a coletar informações sobre elas. Temos então trocas e interações fantásticas que utilizam os costumes e tradições da época para dizer as coisas mesmo quando os personagens não falam nada em voz alta e estão lá parados ouvindo alguma coisa atrás da porta ou sentado à mesa na hora do jantar.

Nicole Kidman está imponente, a atriz consegue passar um sentimento de propriedade impressionante e realmente é também um dos destaques e o grande chamariz do filme em termos de atuação. Com um sorriso magnético e enigmático ela consegue impôr sua personagem todas às vezes que aparece em cena. A sutilezas dos momentos dela com Farrell são as mais interessantes de se assistir, naquele famoso baile de palavras onde tudo dito tem um outro significado, um pouco mais oculto mas também ali bem presente. As jogadas corporais são sensacionais e nada é exposto demais ou entregue de cara. Talvez a única cena onde vemos alguma coisa sendo falada direta e reta é quando a Srta Martha, uma calma e mas com um olhar fulminante Kidman,  comenta “Não há nada mais assustador do que uma mulher assustada com uma arma”.

Foto: Universal Pictures

E convenhamos também que o elenco como um todo foi muito bem escalado, desde de Kirsten Dunst como a professora sonhadora e inocente Edwina até as crianças. As personagens de Amy (um verdadeiro achado Oona Laurence), Jane (Angourie Rice) e Marie (Addison Riecke) mesmo jovens acabam por ter opiniões bem interessantes sobre como as coisas funcionam e conseguem ter seus momentos, a atriz Elle Fanning (Alicia) começa a desabrochar na atuação e entrega um papel bem comedido mesmo ele sendo importante para o desenrolar da trama. Mas quando ela precisa realmente partir para os momentos dramáticos você acaba perdendo o foco nela e mudando seu olhar e atenção para a atuação das atrizes mais experientes.

O Estranho que Nós Amamos falha talvez em não em dar um certo desenvolvimento as tramas que poderiam servir para dar um rebuscada no roteiro ou ajudar a construir a história mais profundamente e de forma menos subjetiva. A sensação que passa é que alguns personagens acabam ficando muito ao acaso, “estou aqui na casa, sou assim e ponto”.  Se passando quase todo dentro do ambiente onde a escola funciona o longa não chega a ser um filme complexo mas muito do que acontece é preciso estar com olhos atentos para apreciar o que as cenas e a diretora querem te dizer. Tudo está lá para ajudar a contar a trama, seja uma manga baixa no vestido, um brochê posicionado ou até mesmo uma frase solta no filme como “Você gosta de torta de maça?”

Com um proposta interessante e um visual excelente O Estranho que Nós Amamos é uma grande mostra que um drama pode ser tenso e contemplativo ao mesmo tempo e claro cria uma ótima dinâmica em usar ótimos atores em pequenos papéis e conseguir tirar o melhor proveito deles. Coppola faz aqui um filme um pouco diferente do que se esperava mas que nos faz o gostar dele por conseguir imprimir seu ritmo e técnica de forma louvável superando aquilo que já vimos em Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013) e Encontros e Desencontros (2003). Definitivamente um Cannes bem merecido para uma produção que ainda deve ser lembrada em outras premiações.

Nota do Crítico:

O Estranho que Nós Amamos  estreia em 10 de agosto de 2017

  • PEPPER

    pena q vc n gostou da elle fanning 🙁

    • Realmente ela ficou um pouco apagada e foi engolida por outras atrizes! =(