“Eu não sou especial, sou apenas alguém tentando ser uma pessoa melhor”, uma reflexão sobre Special

Special é uma nova série da Netflix, baseada no livro I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves do Ryan O’Connell, que não apenas participa da produção da série como ainda interpreta o protagonista, que é afinal uma versão dele. Essa série me fez chorar desde que vi o trailer, não que seja uma série dramática, na verdade é uma comédia bem leve e divertida, mas já durante o trailer eu vi todas as minhas inseguranças e traumas como homem gay e deficiente sendo jogados na minha cara.

Assistir essa série foi realmente uma experiência de catarse. Nunca fui uma pessoa habituada a lidar com meus sentimentos negativos, sempre tive o mau hábito de enterrá-los e torcer para que nunca voltassem a me assombrar, o que obviamente nunca funcionou. De uns tempos para cá, em grande parte por causa do meu marido, comecei a lidar com esses sentimentos negativos, passei a encará-los e enfrentá-los e em alguns casos desenterrá-los e exorcizá-los.

Primeiro, ser gay e estar de alguma forma fora dos padrões de beleza (ser muito alto, muito baixo, muito gordo, muito magro, etc.) já é difícil, mas ser gay e deficiente, especialmente se é uma deficiência visível, é como estar no extremo oposto do padrão de beleza. Ninguém chega em você nos bares ou baladas e quando você chega em alguém a pessoa se mostra desconfortável, nos sites e aplicativos de encontro ou você coloca no perfil que é deficiente e ninguém entra em contato ou você não coloca e as pessoas puxam papo mas somem quando você conta que é. A frase do Ryan para o fisioterapeuta “eu amo que você acha que eu tenho autoestima suficiente para estar no Grindr” é um reflexo perfeito disso.

O relacionamento do Ryan com a mãe é outro ponto tenso da série, eu vi muito da minha própria mãe na Karen e em muitas cenas eu quis dar uns cascudos no Ryan pelo modo como ele a tratava. Ela é superprotetora e sufocante? Sim, e muito. Mas se o Ryan realmente quisesse ser mais independente ele teria cortado o cordão umbilical mais cedo, enquanto a situação era conveniente ele continuou sob as asas da mãe e quando se tornou mais conveniente morar sozinho ele pulou fora e a deixou sozinha, sem nenhum apoio. Minha relação com minha mãe teve seus altos e baixos, mas hoje conseguimos equilibrar mais ou menos bem essa relação entre proteção e independência, espero que a série tenha novas temporadas para que Ryan e Karen consigam também esse equilíbrio.

A Kim é uma personagem maravilhosa, mas gostaria de falar de outra personagem que acho muito importante também, a Olivia. Ela é uma caricatura viva, praticamente uma vilã de filme infantil, mas foi a pessoa que deu um merecido tapa na cara do Ryan, fazendo-o perceber como ele próprio é extremamente preconceituoso com outros deficientes e como ele não se aceita como deficiente. A cena do “encontro às surdas” me deixou com muita raiva do Ryan e por isso vibrei quando a Olívia falou as verdades que ele precisava e merecia ouvir. O capacitismo internalizado é algo contra o qual eu tenho lutado há bastante tempo e que ainda estou longe de vencer, apesar de não ter tido uma Olívia na minha vida, foi quase um déjà vu ver o momento em que o Ryan se toca que ele não lida bem com a deficiência dos outros e que isso é um reflexo de ele não lidar bem com a própria deficiência.

Eu realmente espero que a série tenha uma nova temporada. Quero ver o Ryan e a Karen se acertarem, quero ver a Karen seguir a vida e se acertar com o Phil ou arrumar outro namorado, quero ver qual é a do Carey e o porquê de ele dar trela para o Ryan se tem um namorado, quero ver mais desenvolvimento da Kim e quem sabe também da Olivia. E que muitas outras séries com gays e deficientes venham por aí.

*texto reflexivo do amigo Renato Farias (@renatorecife), homem gay, nerd e deficiente que pediu um lugar de fala

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