Assassinato no Expresso do Oriente | Crítica

Quando a nova versão de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express, 2017) foi anunciada com Kenneth Branagh na direção e no papel principal a noticia gerou uma burburinho se era realmente necessário uma nova adaptação do livro de Agatha Christie. Na medida que o elenco foi sendo anunciado com grandes nomes, o estúdio responsável conseguiu deixar o público mais calmo em meio a tantas incertezas, mas o filme acabou meio ficando de lado e esquecido no meio de tantas noticias de produções de super-heróis.

Até que meio que de surpresa, o elenco foi revelado na capa de uma grande revista americana e as atenções ficaram focadas no longa, nos personagens e no famoso quem é quem é no longa e sim Assassinato no Expresso do Oriente é uma boa adaptação de uma história conhecida, elegante e essa versão acaba sendo ao mesmo clássica honrando o livro mas com uma roupagem moderna. O filme se destaca por seu visual super caprichado e uma excelente direção.

Foto: Fox Film do Brasil

A versão de 2017 talvez acabe acertando em focar mais na relação entre os personagens do que efetivamente no arco de “Quem matou?” afinal com a história baseada também no livro lançado no começo do século passado, a única dúvida era se o longa poderia sofrer com uma peça solta ou alguma novidade para dar uma inovada na trama. Assassinato no Expresso do Oriente é um filme onde todos tem sua chance de brilhar (ou estar na primeira-classe). Mas não se engane, Kenneth Branagh é a locomotiva que move o filme. Como o carismático detetive Hercule Poirot, o ator consegue mostrar uma atuação precisa, eficiente e bastante interessante (assim como a personalidade de seu personagem). Depois do choque do tamanho do bigode e um início um pouco mais arrastado mas completamente compreensível em termos de apresentação e concepção de personagem, Assassinato no Expresso do Oriente, embarca numa jornada e o filme na falta de uma analogia melhor, parte numa viagem: somos apresentados aos personagens que estão no trem e fazem parte do mistério de uma maneira calma até que o filme ganha uma velocidade e depois estabelece seu ritmo.

Como falamos um dos destaques do filme é a direção que também tem a mão de Branagh e isso se dá por dois motivos: o primeiro pela a escalação dos atores. Todos estão muito bem e dentro do esperado para seus papéis claro que alguns com um destaque maior dentro da trama e outros como pouco tempo de tela. Mas até mesmo o polêmico Johnny Deep tem seu momento e acaba criando um personagem bastante desagradável e sua arrogância e petulância fica muito bem caraterizada nos diálogos principalmente com o próprio Poirot.

Num filme com Penelope Cruz, Willem DafoeJudi Dench precisamos destacar a dupla de novos atores Daisy Ridley e Josh Gad. Ridley como Mary Debenham continua com a sua atuação meiga e inocente mas aqui claramente consegue esconder todas as nuances que sua personagem apresenta em tela e dividindo muitas cenas com Branagh consegue mostrar toda sua versatilidade e claro um papel diferente do que vimos em Star Wars: O Despertar da Força. Gad sai de seus papeis cômicos para entregar um personagem um pouco perturbado e bastante importante para o desenvolvimento da trama, o ator está confortável e mesmo com um ar bem característico faz um ótimo Hector MacQueen. E 2017 acaba sendo marcado por ser o retorno aguardado de Michelle Pffeifer, primeiro no suspense mãe! e agora com o papel da Sra. Hubbard. A atriz comprova novamente que não existem papeis pequenos para quando se tem talento e literalmente ilumina o ambiente e cria uma personagem, misteriosa, cativante e bastante interessante.

O segundo motivo que faz Assassinato no Expresso do Oriente um bom filme é claro sua edição, o filme tem uma mesclagem de cenas bastante lentas com outras muito ágeis, o que acaba sendo também um dos pontos fracos da produção. Bastante focado nos diálogos, o roteiro acaba ficando um pouco mais denso e esticado do que poderia ser. O fato da produção ter optado pelo fato de o espectador não acompanhar a investigação com os olhos de Poirot e sim como um passageiro do trem pode deixar aqueles fãs de mistérios um pouco mais com um pé atrás.

Foto: Fox Film Do Brasil

No filme a câmera se fosse com estivesse pairando os personagens, os observando e magistralmente acerta em se posicionar nas cenas do assassinato em cima da cena, como se o espectador tivesse a visão do assassino em vez da do detetive ou dos outros passageiros. Os cortes e as tomadas bruscas ajudam a passar o sentimento de impotência que acompanhamos com o detetive e claro todos os personagens. No filme, a câmera consegue entrar e praticamente pegar na mão do expectador e transportar para dentro da trama o que deixa ele ainda mais interessante devido a super preocupação com os detalhes tanto da criação do trem, quando dos aposentos e outras locações.

Com efeitos especiais muito bem trabalhados que te fazem sentir estar dentro do trem junto com os personagens, e com uma fotografia bem feita e que a cada frame você fica impressionado com os detalhes a abordagem dessa nova versão acerta e trabalhar a história junto com os personagens, afinal como diz um dos passageiros “nada mais interessante do que um bando de pessoas estranhas juntas indo de um lugar para outro outro” e isso que a produção consegue se destacar.

A ambientação e o acerto visual aliados com um ótimo elenco faz de Assassinato no Expresso do Oriente um filme com um ar sofisticado, teatral e uma aura do cinema antigo que consegue criar um clima de mistério maior que o mistério em si, sobre o próprio ser humano e suas ações. No final por mais que tenha um elenco inflado e alguns até mesmo um pouco esquecíveis a produção acerta em contar uma boa história e nos dias de hoje isso já basta para garantir uma boa viagem (de trem claro) para o espectador.

Nota do Crítico:

Assassinato no Expresso do Oriente estreia em 30 de novembro.

Miguel Morales

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