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O Beco do Pesadelo | Crítica: Elenco grandioso faz um American Horror Story com assinatura de Guillermo Del Toro

Um circo nos confins dos EUA. Um grupo de pessoas com segundas e terceiras intenções em tudo que fazem, uma estética mais sombria e grandes nomes no elenco. Poderia ser muito bem uma temporada da série do produtor Ryan Murphy, mas o que temos aqui em O Beco do Pesadelo (Nightmare Alley, 2021) até chega a ser tudo isso, só com a assinatura do premiado diretor Guillermo Del Toro.

Vindo de um Oscar com o magnífico A Forma da Água lá em 2017, Del Toro parecia ter um tipo de carta branca no estúdio Searchlight. E esse novo filme tinha tudo para ser um grande filme. E é. Em partes. 

O que temos aqui é uma nova versão do filme de suspense dos anos 40 com o mesmo título, mas traduzido para cá na época como O Beco das Almas Perdidas, onde Del Toro  em entrevistas comentou ter dado uma atualizada na trama e colocado certas coisas que não puderam estar na presente no filme baseado no livro de mesmo nome. Assim, Del Toro entrega uma obra que foge um pouco dos seres sobrenaturais que sempre pipocavam em seus outros filmes, e foca nos verdadeiros monstros que são os grandes antagonistas de suas produções: o ser humano. Del Toro usa esse clima mais sombrio, um pouco noir, e que faz uma grande homenagem para o cinema clássico de Hollywood para contar a história desse homem com uma grande lábia e um bom papo que consegue aplicar pequenos golpes para tentar se dar bem na vida. Mas o que acontece quando o feitiço vira contra o próprio feiticeiro? É isso que Del Toro conta em O Beco do Pesadelo.

Bradley Cooper e Willem Dafoe em cena de O Beco do Pesadelo
Foto: 20th Century Studios

E para isso, o diretor mostra que não é preciso de faunos, ou criaturas aquáticas, que sofrem nas mãos de vilões humanos… aqui em O Beco do Pesadelo o que temos é homem vs homem na medida que ganância, ambição, instinto de sobrevivência, e uma dose de crueldade são o foco da trama no início do século XX nos EUA, bem na época da Grande Depressão. Del Toro então nos deixa espiar atrás da cortina (sem o mágico de Oz envolvido!) e nos apresenta para esse convidativo e obscuro mundo do entretenimento antigo.

Sinto que O Beco do Pesadelo poderia ter até uma minissérie, afinal, esse conto de terror cotidiano de Del Toro quebra sua narrativa em algumas partes na medida que o nosso protagonista Carlisle (Bradley Cooper, aqui incrível) parte rumo à uma nova vida com um circo, e depois, já quando ele alcança uma certa fama com seus truques e números, deixa o local e busca de expandir seus golpes. Essa tal parte 1 é cercada de nomes conhecidos, onde cada um tem seu propósito nessa feira de aberrações assim por dizer, e onde o filme, bebe mais da fonte do seriado de Murphy.

As interações entre os diversos personagens que compõem essa trupe é de total importância para o desenvolvimento da trama, onde as trocas entre esses atores são muito muito interessantes. É o caso da “vidente” de Toni Collette que trabalha com Pete (David Strathairn), ou a garota do pára-raio, a inocente Molly (Rooney Mara), ou até mesmo o desprezível Sr. Hoatley (Willem Dafoe, sempre dando o seu melhor) com seu homem-fera, um rapaz qualquer que se submete ao trabalho em troca de uma garrafa de bebida. 

No meio disso, temos o nosso protagonista sempre tramando alguma coisa, na medida que seus segredos estão bem guardados atrás do seu belo sorriso, e sua boa aparência. O Beco do Pesadelo encerra sua “fase circense” para partir para a cidade grande, onde os golpes são mais refinados e as consequências mais perigosas, na medida que Carlisle conhece a sedutora e misteriosa Dr. Lilith Ritter (Cate Blanchett, divinamente bem escalada) e vê seus golpes serem revelados por ela. Assim, a dupla fecha um acordo enquanto a tal psiquiatra usa e abusa de sua influência com a alta sociedade e que serve para o longa apresentar novos personagens e outros nomes conhecidos como Richard Jenkins e Mary Steenburgen

Cate Blanchett e Bradley Cooper em cena de O Beco do Pesadelo
Foto: 20th Century Studios

Assim, o longa brinca com esse jogo de cores e sombras, e mostra todas as artimanhas (um número sobrenatural ah lá A Colina Escarlate é plano da vez) que esse malandro, e agora sua comparsa, fazem para se manter no topo onde o tamanho dos golpes e a complexidade deles também aumentam na medida que a trama se desenvolve e se complica. O Beco do Pesadelo é marcado por intensas atuações de seu elenco, um elenco que dá uma certa grandiosidade para o projeto, onde junto com o olhar afiado de Del Toro na parte estética, consegue camuflar algumas das imperfeições que tanto o roteiro quanto a história se apresentam.

Em seu conto americano de terror, Del Toro mostra os bastidores dos primeiros eventos que serviam para entreter as pessoas, antes da TV, do streaming e mostra que o show deve continuar, por mais impiedoso e implacável que seja. Tudo isso, toda a intensão de Del Toro para contar essa história, fica claro nos intensos e incríveis minutos finais de O Beco do Pesadelo que entrega um trabalho acertado e preciso graças aos nomes de todos os envolvidos.

Avaliação: 3.5 de 5.

O Beco do Pesadelo chega em 27 de janeiro nos cinemas nacionais.

Filme visto no Festival do Rio 2021.