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I May Destroy You | Crítica 1ª Temporada: Michaela Coel se firma como uma das vozes mais marcantes de sua geração

Lena Dunham afirmou na série Girls – que estreou na mesma HBO lá em 2012 -, que ela seria a voz de sua geração, ou pelo menos uma voz, de uma geração. E do alto de seus privilégios Dunham esqueceu que num mundo globalizado temos muitas outras vozes, algumas bem mais vocais, que também andam por aí… e afirmar representar todas as gerações, e todas as pessoas, pode soar um pouco presunçoso. E agora, quase 10 anos depois, que Girls fez sua estreia na HBO, é a vez da talentosa Michaela Coel mostrar que o mundo mudou e muito.

I May Destroy You (2020)
I May Destroy You | Crítica
Foto: HBO

Com I May Destroy You, Coel vem e desconstrói tudo que já vimos sobre uma série sobre pessoas que vivem suas vidas numa cidade cosmopolita e que querem fazer acontecer. Coel conta uma história extremamente pesada, intensa, e ao mesmo tempo viciante sobre uma parte da população que sofre com situações que são inimagináveis para quem está de fora vendo tudo isso. E em I May Destroy You temos a construção de um quebra cabeça de uma noite angustiante e bastante problemática para a nossa jovem protagonista, a escritora Arabella (Coel).

A série navega sem medo de ousar nos conflitos de relacionamentos modernos, nas amizades, e naquilo não dito, pelas próprias vozes que foram uma vez caladas, mas que com o advento do movimento #MeToo ganharam força e vocalizam que não está tudo bem, e que é ok, às vezes, não estar tudo bem, só precisamos saber usar nossas vozes para falar: “Olha, aqui não tá nada bem, e preciso de ajuda”.

E ao longo de sua incrível primeira temporada, I May Destroy You faz isso de uma forma avassaladoramente chocante e extremamente realista. E não só para a nossa protagonista Arabella, que após uma noite de festa com os amigos precisa retornar para casa, e escrever algum tipo de rascunho e pré-versão de seu livro para seus editores, mas sim para todos os outros personagem que a cercam. A geração millennial multi-tarefas, heavy user de redes sociais, e do depois eu faço que vai dar certo é muito bem representada aqui, mas em I May Destroy You temos um porém, Arabella volta para a cabeça sem memórias do que aconteceu na noite anterior, um machucado na cabeça, e flashes perturbadores que passam em sua mente e levantam a questão: será que ela foi violentada?

Assim, Arabella e o espectador dão as mãos e juntos vão juntos atrás do coelho branco através do buraco para descobrir o que diabos aconteceu. E o texto de Coel te faz sentir o mesmo tipo de angústia e desespero que a personagem, mas nunca nos faz estar no lugar dela, e sim como um melhor amigo ali presente que vive a dor da personagem junto com ela e não em seu lugar.

I May Destroy You | Crítica
Foto: HBO

Para isso temos os colegas da personagem, a atriz/modelo/alguma coisa Terry (Weruche Opia) e o melhor amigo viciado em aplicativos de encontro para celular Kwame (Paapa Essiedu) que também vivem, a cidade, o sexo, de uma forma intensa em seus 30 anos e sofrem com encontros péssimos, abusos de todos os tipos, e claro racismo. I May Destroy You une todos esses personagens para contarem suas histórias, onde, às vezes, algumas delas são assustadoras, outras são engraçadas, mas todas são apresentadas com um profundo toque de realidade incrível e de impressionar.

Sai de muitos episódios com um nó na garganta gigante pensando no que eu faria no lugar deles se algumas das situações acontecessem comigo. Os destaques ficam com 1×01 – Eyes Eyes Eyes Eyes, 1×02 – Someone Is Lying, 1×04 – That Was Fun, 1×09 – Social Media Is a Great Way to Connect e 1×12 – Ego Death.

I May Destroy You fala das sutilezas de se ir atrás, e de buscar um relacionamento, mesmo que seja causal, sobre pequenas agressões, e as grandes também, e o controle que temos sobre nossos corpos e como nos apresentamos e somos vistos pelo mundo, e claro, sobre consentimento e permissões.

Com uma forte estética visual que nos faz mergulhar de cabeça na história desse grupo de jovens, I May Destroy You faz uma série importantíssima para as gerações atuais, e para as futuras também, sobre como conseguimos fazer nossas vozes serem ouvidas, e sobre experiências que ao mesmo tempo são universais, mas que outras, às vezes, só podem ser notadas se você tiver local de fala.

No final, isso talvez pode ser a diferença entre você, se conectar mais ou menos com a série, ou não. Aqui, um alerta de gatilho ao assistir a série sempre é bem-vindo, afinal, I May Destroy You pode, talvez, te destruir emocionalmente no meio do caminho.

I May Destroy You disponível na HBO GO.

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