100 Dias | Crítica: Daddy issues e bons efeitos especiais
O que mais chamou atenção em 100 Dias foi, definitivamente, o desafio logístico de filmar as cenas dentro do barco que levou Amyr Klink a fazer uma travessia pelo oceano Atlântico, em pleno anos 80 e sem nenhuma ajuda tecnológica.
É nisso que o filme tem sua força e é aqui que o diretor Carlos Saldanha e ator Filipe Bragança acertam aqui nesse longa nacional que realmente tem seus momentos. Mesmo que narrativamente sofra altos e baixos, iguais às ferozes marés que o personagem enfrenta ao longo dos dias nesse barco.
Não é que o filme seja ruim. A história é curiosa, interessante, intrigante, e Bragança realmente está muito bem. O ator abraça esse papel de protagonista, de leadman, que já havia mostrado em outros projetos, mas aqui entrega uma atuação mais madura do que em seus últimos trabalhos.

Mesmo 100 Dias soa muito mais como um filme de “autoajuda” do que qualquer outra coisa. Principalmente quando vemos o roteiro tentar conectar o espírito aventureiro de Klink com os problemas com o pai (aqui interpretado por Felipe Camargo) e uma fraca história de amadurecimento.
Narrativamente, 100 Dias soa como um filme simples, sem muito brilho ou emoção. Mas, do ponto de vista técnico, é uma verdadeira experiência para se ver, assistir e aproveitar na telona. Para uma produção nacional, os efeitos aqui, seja do mar, das ondas, do barco, e até mesmo de conseguirmos acompanhar a evolução do corpo de Klink ao longo desses dias em alto mar, são bastantes impressionantes. Ver Bragança como o navegador ao longo da jornada, os desafios e os obstáculos dá a chance para o ator entregar um show de um homem só. Afinal, em 100 Dias é Klink, o mar, o sol e, às vezes, a presença de uma baleia ou outra.
Enquanto Saldanha se desdobra para posicionar a câmera no minúsculo espaço do barco, Bragança coloca o máximo que pode nesse personagem, enquanto o roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares tenta fazer paralelos entre a vida do navegador nos momentos pré-viagem e os acontecimentos na embarcação durante a travessia. Algumas cenas dão certo, como o desafio de adaptar a comida para o peso que o barco suportava; outras, nem tanto, como o fato de que Klink recusou ajuda com uma nova rota e ficou preso numa corrente por dias.
A ideia de “juntos venceremos” que o texto imprime pode soar um pouco piegas, mas 100 Dias compensa no carisma da atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu (vista em Emily em Paris, da Netflix), que aqui interpreta a mãe de Klink; de João Vitor Silva como Tymur, o irmão do personagem; e ainda de Martha Nowill como uma cozinheira que ajuda Klink na empreitada pré-viagem. Todos estão bem, mas navegam apenas para existir em função do protagonista.
No meio da vastidão do oceano e da solitude da viagem, 100 Dias mostra uma visão mais positiva, diluída e açucarada dessa jornada, que é comandada e guiada pela atuação de Bragança, que se destaca mais uma vez. Seja como o focado Klink ou como o cantor Sidney Magal, com 100 Dias o ator se reafirma como um dos melhores dessa safra atual de talentos.
100 Dias chega em 29 de outubro nos cinemas.

