Por dentro dos bastidores de O Bosque Selvagem com o animador brasileiro Thiago Calçado
Entre os artistas, artesãos e técnicos que passaram 231 semanas realizando, com suas próprias mãos, os 2.804 planos que deram vida para O Bosque Selvagem, está o animador de stop-motion brasileiro Thiago Calçado.
O mineiro formado pela FAAP trabalhou em sucessos como Kubo e as Cordas Mágicas (2016), Ilha dos Cachorros (2018) e Pinóquio (2022), de Guillermo del Toro, e aqui aqui no novo projeto da Laika, ele trabalhou diretamente em sequências complexas de quadrúpedes no filme.
Em entrevista, confira abaixo, o profissional destaca a evolução técnica e narrativa do estúdio em relação a projetos anteriores. “Em dez anos, a gente amadureceu demais tecnicamente. O storytelling da Laika está melhor e este é, sem dúvida, o melhor filme deles”, avalia Thiago, ressaltando o privilégio de colaborar com o diretor Travis Knight mais uma vez.
No bate-papo, ele detalha e revela os bastidores de O Bosque Selvagem, o processo de trabalhar com stop-motion, o quadro a quadro e a sinergia entre o trabalho dos animadores e o elenco de dublagem nacional. (leia nossa entrevista com Giulia Benite e Pedro Burgarelli aqui).

Para começar a quebrar o gelo, se você pudessem levar um objeto da nossa vida cotidiana para sobreviver no perigoso Bosque Selvagem, qual seria?
- Thiago Calçado: Já eu sou mais pacífico, acho que tentaria correr ou levaria algo para me guiar, porque não conseguiria nem enfrentar os coiotes.
Como foi para você ver o resultado final do filme e conferir como a dublagem brasileira se encaixou no projeto após anos de trabalho?
- Thiago Calçado: Na verdade, eu não tinha visto ainda na versão original. Mas foi uma surpresa muito agradável, porque, primeiro, ver na minha língua é muito mais confortante para os meus ouvidos. E a dublagem ficou maravilhosa. É muito louco porque, quando você vai animar um personagem, você escuta a voz e você atua. E eles fazem a atuação da voz em cima de uma atuação que já existe. Eu acho que, em alguns momentos, a dublagem fica até mais “dentro” do que a própria voz original. Os regionalismos que acabam sendo colocados… você já vê a atuação e cria em cima dela, sendo uma outra maneira de se pensar a cena. Foi um estranhamento, mas um estranhamento muito positivo.

Você trabalhou com o diretor Travis Knight em Kubo e as Cordas Mágicas em 2016 e, agora, dez anos depois, em O Bosque Selvagem. Olhando de lá para cá, o que você sente que amadureceu no seu trabalho e na estrutura da LAIKA?
- Thiago Calçado: Em dez anos eu amadureci demais tecnicamente né? De tanto praticar. Eu já tenho uma biblioteca de ações na minha cabeça, por exemplo, se o personagem vai pular… eu já fiz isso umas dez vezes, então sei como funciona. E quanto mais o tempo passa, mais humilde você vai ficando, entendendo que você é apenas uma parte de um todo. Porque por muitas vezes eu queria fazer do meu jeito e hoje eu aprendi trabalhando com vários diferentes diretores que o filme é do diretor, tá na cabeça dele ali e aí o meu trabalho é entrar dentro da cabeça dele e puxar pra cena, sabe?
E eu acho que consegui estreitar esse caminho ao longo dos anos trabalhando com diferentes diretores. E o que evoluiu,acho que evoluiu tudo na LAIKA lá, acho que o, o storytelling deles está melhor, esse filme é, acho que o melhor deles, apesar do Kubo ter um, um espaço no meu coração que eu acho linda a história.
Você cuidou especificamente de algum personagem ou módulo de animação em O Bosque Selvagem?
- Thiago Calçado: Em alguns filmes a gente pega, cada animador fica com uma sequência. Eu estava vindo do Pinóquio, onde eu animei a Morte, que é o personagem de quatro patas. E aí quando eu cheguei lá e tinha os cavalos, eu falei: “Pô, deixa eu animar os cavalos porque eu queria continuar nesse processo de entender a mecânica, anatomia de quadrúpedes, né?” Que eu tinha gostado de animar a Morte lá. E aí eu pedi para animar os cavalos, eles deram uma sequência uma sequência importante.
É, para explorar mais e eu gostei de fazer. Foi isso, pedi para fazer os cavalos e consegui. E aí eu fiz também algumas cenas da Alexandra no cavalo e tal, na guerra e tal. É, e é muito legal trabalhar com o Travis porque ele é animador, né? Então, desses outros diretores [que trabalhei], ele é o único que é animador. E aí ele, ele é muito específico no que ele pede, então é legal de trabalhar porque você vai bem preciso pra cena.
O Bosque Selvagem chega nos cinemas nacionais em 29 de outubro.

