Por dentro dos segredos da dublagem de O Bosque Selvagem com Giulia Benite e Pedro Burgarelli
Preparados para uma jornada até O Bosque Selvagem? O misterioso Bosque Selvagem, um lugar que não aparece em nenhum mapa e de onde dizem que ninguém volta, promete levar o espectador numa jornada para lá de emocionante quando o novo filme da Laika chegar nos cinemas.
Por trás da magia, dos perigos e das criaturas encantadas que marcam o novo trabalho da equipe de Coraline, existe um minucioso processo de criação que envolveu anos de dedicação da equipe de animação (leia nosso bate-papo com o animador Thiago Calçado aqui) e um trabalho vocal intenso dos dubladores nacionais.
E esse trabalho exigiu suar a camisa…. literalmente. A atriz Giulia Benite, que empresta sua voz à corajosa Prue, revela que o processo de dublagem trouxe uma carga física intensa, especialmente nas cenas de ação e gritaria. “Todas as vezes que eu saía das diárias, eu saía muito cansada. As pessoas não têm noção, mas exige muita técnica manter a emoção e a energia da ação apenas com a voz”, conta a atriz, que dividiu o processo de dublagem, mesmo a distância, com o colega de elenco Pedro Burgarelli (o Curtis).
Para ele, que já trabalhou em outros projetos de dublagem, o desafio maior esteve em traduzir sutilmente as camadas de transformação de seu personagem. “No início ele está cheio de medos e hesitações, mas com o passar dos perigos do bosque ele ganha confiança. É um processo automático de ver a cena e encaixar a entonação certa”, explica em entrevista para o site.
Confira os melhores momentos do nosso papo:

Para começar a quebrar o gelo, se vocês pudessem levar um objeto da nossa vida cotidiana para sobreviver no perigoso Bosque Selvagem, qual seria?
- Giulia Benite: Eu pensei num avião, mas… ou numa arma, alguma espada, para conseguir me defender de alguma forma. Mas como não tenho nada disso por lá, acho que levaria uma bicicleta!
- Pedro Burgarelli: Eu acho que eu levaria um carro, para conseguir fugir mais rápido das situações de perigo.
Giulia, você vem de um ano estrondoso com Minha Irmã e Eu [é o filme brasileiro mais visto do ano, com quase 6 milhões de espectadores] e agora estreia na dublagem. Como foi usar a sua bagagem de atuação em live-action para usar aqui apenas com a voz?
- Giulia Benite: O dublador tem que ser ator também. Toda a minha bagagem de atuação eu usei para fazer a dublagem. É claro que foi um desafio gigante, porque tem aquela insegurança, mas eu gosto de me desafiar e uso essa insegurança como combustível. Eu uso essa insegurança para dar um combustível para mim, sabe? Mas eu sinto que é isso que eu falei, que eu uso tudo o que eu, enfim, já fiz até hoje, usei nesse, nessa, nesse processo de dublagem. E é muito legal você estar ali dentro de um estúdio, tendo que transmitir tudo o que você quer falar ali só pela voz e assistindo o desenho sem ver muito ao mesmo tempo. É muito, muito legal, um processo muito diferente de tudo o que eu já fiz, mas muito legal.
Pedro, você já é craque na dublagem, né? Fez A Pequena Sereia, fez Pinóquio, e agora tá no O Bosque Selvagem. Me fala um pouquinho do Curtis e como foi construir a evolução vocal do Curtis ao longo dessa aventura?
- Pedro Burgarelli: O arco do Curtis é muito interessante. No início ele é mais inseguro, fala pausado e hesita; no final, ele já está mais confiante e age com coragem. Eu acabo fazendo isso de forma meio automática ao ver a cena, mas a voz original já ajuda muito a entender essa mudança de tom para a nossa versão em português.
Teve alguma cena em específico da Prue e do Curtis, sei lá, uma gritaria ou um momento emocionante, ou alguma revelação da história que vocês terminaram a sessão cansados, mas muito satisfeitos pelo trabalho? Teve algum momento marcante assim do processo de dublagem que vocês lembram?
- Giulia Benite: Eu acho que toda vez que eu saía de uma diária — eu tive três diárias de dublagem —, todos os dias em que eu terminava eu saía muito cansada, porque eu acho que as pessoas nem têm tanta noção, mas é um trabalho que cansa muito. Mas, com certeza, essas cenas de ação, elas cansavam muito. Você tem que ter muita técnica para conseguir fazer e continuar a ação, assim, sabe? Eu terminava as minhas cenas de gritaria, tipo, “sim!”. Mas é uma experiência muito legal, mas assim, com certeza, as vezes que eu mais saía cansada eram todos os finais de diária,porque é um trabalho muito cansativo.
- Pedro Burgarelli: Demanda muita atenção, você precisa prestar atenção no que tá sendo falado. Aí você assiste a cena uma vez, aí já tem que decorar o texto, porque eu não consigo fazer lendo, olhando para baixo, tem que ler,decorar mais ou menos o que vai falar, olhar pra frente para falar certinho com a boca. Então, você tem que estar prestando atenção para encaixar, sincronizar, igual que parece que deu certo. Aí você sincroniza, coloca a entonação, a sua própria interpretação, e ainda nesse negócio que é novo ainda, que você não deu tempo de você absorver, de você se preparar, ou não. E a cena de gritaria também, se você gritar se esgoelando, você não sai com voz para fazer a próxima fala, então você tem que também saber gritar, senão fica rouco e não dá certo.
Quanto tempo levou para dublar… vocês chegaram a gravar separados? Ou teve algum momento que vocês gravaram juntos?
- Giulia Benite: Eu nem escutava a dublagem dele, nem ele a minha. A gente só escutava… foram três dias para mim.
- Pedro Burgarelli: Dois dias para mim.
- Giulia Benite: Eu escutava no meu fone assim a versão original, e aí era até uma basezinha que eu tinha, né, da emoção que ela passou ali para o personagem e tudo, e a gente gravou em estados diferentes. Eu aqui em São Paulo.
- Pedro Burgarelli: […]
- Giulia Benite: É muito legal, né, porque você vê os personagens interagindo tanto, e a gente…
Se até a gente que trabalha com isso, e sabe, acha que todo mundo tá no mesmo estúdio, né, e não tá, é cada um no seu quadrado, basicamente.
- Giulia Benite: Dá essa impressão, né?
- Pedro Burgarelli: E uma coisa boa é saber inglês também, né? Que você tá interagindo com a pessoa com a voz original, né? E também saber a tradução do que você está falando, porque você consegue encaixar melhor também aquela entonação.
O Bosque Selvagem chega nos cinemas nacionais em 29 de outubro.

