Brinquedo Assassino | Crítica

Talvez Brinquedo Assassino (Child’s Play, 2019) seja o famoso caso que não podemos julgar um livro pela capa… aqui no caso, um filme pelo visual de seu protagonista. Brinquedo Assassino sofreu duras críticas logo quando foi anunciado, onde muitas pessoas on-line criticaram a necessidade de um reboot para o personagem nos cinemas, mas as coisas ficaram mais calmas quando tivemos o primeiros nomes envolvidos no elenco… até que, logo depois, as primeiras imagens saíram, e o pessoal, de novo, não ficou muito satisfeito com o que o filme apresentou, e principalmente, com o visual do novo Chucky.

E convenhamos a repaginada de um dos nomes mais conhecidos do terror lembra pouco a versão clássica, mas talvez, seja para melhor, afinal, a versão de 2019 de Chucky entrega um filme que conversa muito bem com os tempos atuais, e faz um longa assustadoramente divertido para a proposta que ele apresenta. 

Brinquedo Assassino faz, talvez, o maior, melhor e mais sinistro episódio Black Mirror do ano, onde temos um olhar satírico e afiado, igual a lâmina do boneco, sobre o poder e a influência da tecnologia na vida das pessoas.

Mark Hamill in Child's Play (2019)
Brinquedo Assassino – Crítica | Foto: Imagem Filmes

Com direção de Lars Klevberg, a produção se apoia no gênero slasher para contar a história de Andy (Gabriel Bateman, bem para um ator iniciante) , qualquer semelhança com o Andy da franquia Toy Story deixa o filme ainda melhor, um garoto tímido que ganha de presente um Buddi (voz de Mark Hamill, perfeitamente arrepiante), um boneco que serve como assistente pessoal digital criado por uma mega-corporação.

E assim, de uma outra para outra, o garoto ganha um novo melhor amigo, onde o longa consegue, além de abraçar esse mundo super tecnológico e moderno, falar sobre questões mais complexas como amizades, amadurecimento, e ainda de comportamentos violentos que o próprio ser humano apresenta. Aqui, temos Buddi como uma figura dotada de uma inteligência artificial que se adapta e evolui, apenas ao recriar e reproduzir padrões vistos, seja por humanos, ou por filmes, por exemplo. E tudo isso, deixa Brinquedo Assassino incluir uma camada a mais para sua história, por mais que o filme apele para algumas questões apenas pela conveniência do roteiro e da trama.

Aliado à isso, o texto do longa, escrito por  Tyler Burton Smith em seu primeiro crédito na função, se garante em dar um tom completamente ácido e irônico para ambientar o espectador nessa jornada quase surreal e inacreditável que o filme se propõe. E isso é sentido no filme, onde muito, se dá pela dupla de atores principais do elenco adulto, Aubrey Plaza e Brian Tyree Henry.

Plaza, conhecida mais por seu papel na comédia Parks And Recreation, consegue abraçar o lado excêntrico que o filme quer passar sem soar caricato, onde o trabalho de corporal, principal o facial, da atriz é um dos grandes destaques, ainda mais que sua personagem, Karen, a mãe de Andy, mesmo com bons momentos, e ótimas frases ao longo do filme, não tenha tanto destaque assim. Já Tyree Henry, também parece estar confortável no papel do detetive meio desacreditado e amigão da galera, num vibe meio Hooper da série Stranger Things, onde o humor sempre é cercado na aparições do personagem, que ganha mais tempo em tela, na medida que Buddi começa a atacar e realizar suas matanças pelo bairro.

Brinquedo Assassino acerta ainda em fazer um filme bem intimista, onde boa parte dos acontecimentos se passam, ou apartamento de Andy, onde Buddi acaba por utilizar a conectividade dos produtos que a empresa que o criou possui, ou na mega loja, onde o embate final com o boneco endiabrado acontece. Assim, no meio do caminho, o filme nos entrega alguns jump scare bem divertidos, dos mais sem vergonha, até alguns mais violentos, onde a produção, abraça o lado gore lá para os momentos finais, de uma forma bastante incrível.

Aubrey Plaza, Brian Tyree Henry, and Gabriel Bateman in Child's Play (2019)
Brinquedo Assassino – Crítica | Foto: Imagem Filmes

O roteiro de Brinquedo Assassino ainda ganha mais pontos quando começa a brincar com a trama do próprio filme, e faz seus personagens olharem a situação de fora do filme, onde o filme dá uma piscadela marota para o espectador. O texto ainda consegue brincar com outros filmes do gênero do terror, dentro de sua própria história, numa metalinguagem gigante.

Num ano onde as grandes produções reinam, um filme menor e com um budget de 10 milhões de dólares, faz uma grata surpresa. A união de um bom e afiado roteiro, junto com um elenco bem escolhido fizeram aqui, a grande diferença para a produção dar certo, contrariando boa parte das expectativas.

No final, Brinquedo Assassino te apresenta o novo melhor amigo dos estúdios, o terror de baixo orçamento com a promessa de um bom retorno em bilheteria. E isso garante um longa que se apoia numa premissa interessante, cheia de viradas na trama, e em um humor provocante. Aqui, Buddi ao te convidar para brincar, entrega um filme que entra na lista de melhores do gênero em 2019. Vamos brincar?

Nota do Crítico:

Brinquedo Assassino chega em 22 de agosto nos cinemas nacionais.

Miguel Morales

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