Cavalo Selvagem Nove | Crítica: Não tem para ninguém que não seja John Malkovich no Oscar!
Já se passaram mais de 3 anos desde que o diretor Martin McDonagh lançou Os Banshees de Inisherin e foi indicado em diversas categorias no Oscar, como Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro; e já se passaram mais de 30 anos desde a última indicação ao Oscar de John Malkovich (1994 por Na Linha de Fogo).
E agora, com Cavalo Selvagem Nove (Wild Horse Nine, 2026), parece que ambos vão voltar a estar ativamente nas discussões para a próxima temporada de premiações que se aproxima. E se levar mais três anos para o próximo filme de McDonagh depois de Cavalo Selvagem Nove, a espera vai valer a pena. E o mesmo dá para dizer de Malkovich, que aqui entrega não só uma das melhores atuações do ano, como também da carreira.

Cavalo Selvagem Nove é McDonagh no seu melhor. Tanto em roteiro quanto na direção. E o diretor/roteirista se supera com um texto afiado, verborrágico e que é elevado pelo trabalho de Malkovich e também de Sam Rockwell (que levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante ao trabalhar com o próprio McDonagh em Três Anúncios para Um Crime) e que aqui faz uma parceria sensacional com o colega veterano.
Em Cavalo Selvagem Nove a dupla encarna aquele tipo de dinâmica policial bonzinho e policial malvado que tem dado muito certo, quando feito da maneira correta. Já que aqui, o novo longa do diretor é uma aventura deliciosa que acompanha dois agentes da CIA em missão na Ilha de Páscoa. E, talvez, só isso seja o suficiente e tudo o que você precisa saber de Cavalo Selvagem Nove. Vá sem saber muito que a experiência será bastante recompensadora.
Afinal, McDonagh garante, com uma dose de humor típica de seus projetos, algumas boas reviravoltas para a história desses dois personagens enquanto eles andam pela ilha conversando, se hospedam num hotel e visitam as grandes estátuas (“as cabeças gigantes”, diz Chris) que são os pontos turísticos do local. E, no pano de fundo do filme, é 1973 e o clima não está dos melhores na região e na América Latina: a situação política no Chile que tinha acabado de eleger um presidente parecia estável, mas o país vê forças opositoras se movimentarem por baixo dos panos, a região é observada (e manipulada, claro) de perto pelo governo americano.

O mais interessante de Cavalo Selvagem Nove é que as coisas parecem estar bem e positivas, até não estarem, e o sentimento de paranoia que permeia os personagens de Rockwell e Malkovich é latente e transmitido ao longo do filme.
Afinal, Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell) estão lá para alguma coisa, e o roteiro de McDonagh brilhantemente esconde o real propósito de tudo e brinca com as situações malucas em que Lee os coloca e com todos os nonsenses que ele diz (chamar alguns países da Europa de “países gays” por conta dos queijos ou acusar o chefe de usar drogas injetáveis) e nos quais não sabemos se devemos confiar ou não. E aqui, Malkovich brilha nessas nuances.
Ele e Rockwell estão ótimos juntos, e também separados, sim, mas Cavalo Selvagem Nove tem uma gama de personagens coadjuvantes que ajudam a povoar essa história e deixar tudo ainda muito mais divertido de se assistir. Desde MJ (Steve Buscemi), o chefão da CIA que desembarca também na ilha para arrumar a casa quando a situação escalona, passando por Margie (Parker Posey, pós-The White Lotus) como a esposa de Lee que vive no telefone com ele, até mesmo a dupla de amigas chilenas Monica e Alice (aqui as atrizes Mariana di Girolamo e Ailín Salas) que casualmente cruza o caminho de Chris e Lee durante quase a viagem toda.
Enquanto Cavalo Selvagem Nove arranca risadas pelas situações mais surtadas em que esses personagens se metem, a trama vai para um lado mais dramático e mais melancólico na medida em que descobrimos mais sobre as razões e as motivações, principalmente de Chris, com seus bilhetes enigmáticos nos bolsos das roupas, de agir do jeito que tem agido.
E todas essas peças do quebra-cabeça que o roteiro de McDonagh apresenta, ao mesmo tempo, deixam o filme cada vez mais maluco e a história contada aqui de uma forma cada vez mais imprevisível. Eu, particularmente, me vi colado na cadeira da minha sessão sem saber o que esperar e apreensivo com tudo que poderia e iria acontecer com esses personagens.
No final, Cavalo Selvagem Nove entrega uma surtada, divertida e maravilhosa história sobre dois personagens que estão na hora certa e no lugar certo para fazerem as coisas acontecerem. Uma das experiências nos cinemas mais hilárias e, de certa forma, tocantes do ano.
Cavalo Selvagem Nove chega nos cinemas nacionais em 05 de novembro.

