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Festival do Rio | Prima Facie | Crítica: Cynthia Erivo até está boa, mas longa peca em outras frentes.

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Adaptação da famosa peça de Suzie Miller, a versão para os cinemas de Prima Facie se sustenta pelo talento e pela voracidade que a atriz indicada ao Oscar Cynthia Erivo entrega para obra que peca na abordagem desse tema importante e na execução dele em diversas outras frentes.

Foto: Cortesia do Festival do Rio
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Erivo é o fator propulsor que faz todas as engrenagens de Prima Facie rodarem. Afinal, a trama, e a história, que deu certo no teatro (teve até versão nacional com atriz global) é um exercício e um estudo de personagem interessantíssimo, mas que não é transmitido para o cinema de uma forma que esteja à altura do que poderia ser e do impacto narrativo que esse tipo de história precisa ter. Embora a peça original dependa do recurso imaginativo para dar vida aos monólogos, o cinema pedia maior confiança na força das imagens.

E acho que muitos dos problemas que Prima Facie tem vêm da direção simples que a diretora Susanna White imprime aqui. Parece que estamos vendo um grande episódio de uma série de TV (tipo um Law & Order da vida), numa época onde séries de TV têm orçamentos milionários e aspectos mais cinematográficos. Aqui, infelizmente, White não consegue capturar o nível de intensidade que esse tipo de história e essa trama precisam ter. É tudo muito simples de assistir e tenta por demais lembrar o espectador que essa história foi contada primeiro em outra forma.

Nem mesmo o início estiloso, com uma edição moderninha e uma música pop que mostra que a advogada Tessa (Erivo) é realmente diferente do mar dos outros advogados de togas pretas e perucas brancas, serve para fazer o longa se destacar. Afinal, tanto a direção de White quanto o roteiro de Miller exageram demais na representação da vida de Tessa, e de como ela é diferente dos seus colegas de bancada por conta do seu passado mais humilde. É quase como se Prima Facie fosse uma grande comédia romântica onde vemos a personagem ser implacável com seus colegas adversários nos casos que pega (muitos deles de crimes sexuais), ter problemas com a mãe controladora (Noma Dumezweni também muito bem) e com o irmão mais novo (Toheeb Jimoh pós-sucesso em Ted Lasso), e ainda começar a conhecer melhor Julian (Daniel Ings), um colega de trabalho.

O problema é que falta sutileza a Prima Facie para fazer a transição dos bons momentos que a protagonista vive para os horrores que ela passa depois que ela mesma é vítima de um crime sexual. Por mais que Prima Facie mostre a dura realidade que mulheres passam ao enfrentarem essas situações absurdamente tensas, parece que o filme não sabe muito bem como transportar tudo isso, e as consequências, para a telona.

Parece que tudo fica a cargo do trauma que a protagonista passa e que é escancarado em tela. É um tipo de filme que vai a fundo nisso e meio que se alimenta dessa tragédia para ter o que contar. Claro, o sentimento de impunidade, de raiva e de ultraje é sentido aqui, e talvez essa seja a ideia e a mensagem dessa história: a de ser um conto de alerta de que nenhuma mulher está livre de viver uma situação parecida. E o filme até mostra diversos outros casos enquanto Tessa, que antes estava do lado de trás da bancada defendendo vítimas, se coloca agora no banco dos réus.

Mas tanto a edição quanto a narrativa que é apresentada aqui apenas fazem com que o espectador seja obrigado a ver os paralelos que a história quer mostrar, as dinâmicas que mudaram de lado, de uma forma que é pobremente didática. Claro, chega a ser repulsivo ver o que o advogado do acusado apresenta para a corte e as manobras jurídicas que ele faz para tentar vencer o caso.  Mesmo sendo um paralelo com que a própria Tessa fazia, pelo menos, a advogada está do lado da vítima em alguns dos casos. 

Não ajuda muito o fato de que a personagem de Erivo narra boa parte da história e vemos suas indagações servirem de guia para o que acontece com a personagem, sendo que a atuação da atriz já é o bastante. Talvez Prima Facie peque nas tecnicalidades, mas, se formos pensar, é justamente isso que faz o caso de Tessa ser tão difícil de ser provado, discutido e debatido durante o julgamento.

Erivo tem um monólogo final extremamente devastador em que o espectador fica colado na cadeira vendo a atuação da atriz, que é realmente boa, mas que apenas destoa um pouco de tudo o mais que foi apresentado até o final. No final, o veredito Prima Facie é não.

Nota:

Filme Visto no Festival do Rio em Outtubro de 2026.

Distribuição no Brasil: Synapse Distribution. Sem previsão de estreia.

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