Festival do Rio | Ink | Crítica: No frenético novo filme de Danny Boyle, o lema é “Finja até conseguir!”
É curioso notar que a história contada em Ink (2026) foi originalmente desenvolvida em uma produção teatral e aqui adaptada pelo próprio James Graham em roteiro para os cinemas. E fica nítido ao assistir o filme que diretor Danny Boyle usa diversos artifícios, quase como se fosse uma coisa meio de fumaças e espelhos (muito vistos no mundinho do teatro), para abafar a simplicidade que o longa acaba por ter.
Mas Ink é um filme muito bom. Poderia ser melhor? Claro. Já que realmente dá para dizer que Ink é um verdadeiro filme do diretor: tem uma edição ágil, tem o uso de músicas pop e tem bons atores em bons papéis. Mas parece que falta alguma coisa. O tchan Ink tem, o que falta é uma substância, uma profundidade, uma coisa que por exemplo Succession consegiu fazer.
Ink não é Succession, mas é quase como um filme que mostra um pouco como chegamos num mundo visto na série da HBO.

E talvez essa falta de profundidade seja exatamente um reflexo do tipo de história que é apresentado aqui em Ink; já que o tema central do filme acaba por ser: finja até conseguir. Ink conta a história da criação do tabloide The Sun e como a equipe da redação conseguiu que o jornal fosse o mais vendido no Reino Unido ao optar por matérias mais sensacionalistas e sem muito valor jornalístico numa época em que o jornal impresso era lei e a TV ainda engatinhava na casa das pessoas.
Alinhado a essa premissa curiosa e interessante, Ink ainda conta sua história focando em personagens moralmente duvidosos: aqui Rupert Murdoch (um ótimo Guy Pearce) e Larry Lamb (um ainda melhor Jack O’Connell).
As montagens e as edições frenéticas deixam essa história da ascensão dessa redação muito bacana de se ver. Afinal, é um filme com uma premissa da Wikipédia, com datas, locais, pessoas e histórias, mas que funciona de uma certa forma. E Boyle consegue caprichar em toda a ambientação e em cenas rápidas para fazer o espectador se importar com esses personagens, o que eles têm a dizer e fazer, e com a repercussão de tudo isso não só nos meios de comunicação britânicos, mas também mundiais.
E isso, de certa forma, nos trouxe para os dias atuais: a era das notícias click-bait, os cortes nas redes sociais, a verdade moldada para agradar a certas visões políticas. A era da polarização de opiniões, da proliferação de desinformações, da pós-verdade. Ink é o início de um momento atual que vivemos e no qual é preciso um grande discernimento para saber o que é fato, o que é dado e o que é opinião simples e burra.
Claro, o filme coloca esses personagens nesse tipo de lupa, mas também não acusa ninguém abertamente. É quase como se tivéssemos essa história contada de uma forma mais bem-humorada, mais diluída, mais amigável. Curiosamente feita para depois passar na Netflix, onde não chega a ser um documentário, mas sim uma versão mais descolada de uma verdade incômoda.

Ink voa nos anos que quer cobrir: da ideia de trazer Lamb, do processo de recrutamento dos funcionários vindos de outros jornais, da chegada da jornalista Jules Davies (uma ótima Claire Foy), até mesmo às reuniões de brainstorming para o tipo de conteúdo que eles queriam colocar no jornal e sobre o que seria uma história do The Sun.
E claro, toda a picaretagem da escolha do design e layout do jornal, que se assemelharia inicialmente a outro jornal rival. Boyle empeteca, maquia e passa um verniz para deixar não só esses personagens, como essa história, palatáveis, interessantes e, digamos, mais sexies. E isso faz com que valha a pena para o espectador ir a uma sessão nos cinemas ver quase 2 horas das montagens em zigue-zague que o filme apresenta, aliadas a uma dançante e cativante trilha sonora cheia de músicas como Somethings Gonna Happen, da banda Sprints, que aparece inclusive no trailer do longa.
Tem alguma coisa muito interessante em Ink e que faz valer cada minuto dele. Mas, ao mesmo tempo, você sai com a sensação de que faltou alguma coisa e com a vontade de pesquisar no Google essa história e esses nomes porque sabe que não deve ter sido tão glamoroso assim. Talvez, de certa forma o tipo de mensagem que Ink quer passar seja essa mesmo: de não queríamos saber o que realmente aconteceu e sim a versão descoladinha e cool.
Longa visto no Festival do Rio em Outubro.
Distribuição: Netflix. Sem previsão de estreia nos cinemas nacionais.

