Hereditário | Crítica

Hereditário (Hereditary, 2018) não é um filme fácil, nem de digerir e muito menos de se apreciar e deixamos claro que de maneira nenhuma dizemos que ele é ruim, pelo contrário é um dos grandes acertos do ano. O filme pega e trabalha bem o gênero de terror e tem um trama complexa que é apresentada uma forma sufocante e angustiante.

Em Hereditário, é como se você estivesse tentando acordar, dentro de um pesadelo, onde as coisas às vezes não fazem sentido nenhum, num primeiro momento, até chegar uma parte que você percebe a real intenção da história e consegue perceber a situação como um todo e então assimilar aquilo que foi assistido.

Foto: Diamond Films/a24

O longa dirigido por Ari Aster é uma daquelas produções que vem que com um hype gigante alimentado depois de sua estreia no Festival de Sundance no começo do ano. E esse burburinho foi completamente criado com por uma razão, afinal, mesmo com um ritmo lento, Hereditário faz aqui uma das histórias mais bem construídas e impactantes do ano. Toni Colette brilha num dos papéis mais difíceis de sua carreira onde a atriz literalmente rouba todas as atenções para si e faz uma personagem complexa, multi-facetada e cheia de nuances que desafiam o espectador a tentar acompanhar a história na mesma velocidade que sua trama é apresentada.

Com um início um pouco devagar mas que serve para apresentar os personagens, Hereditário é um daqueles filmes de terror que não abusa do famoso recurso do jump scare, mas que acerta ao criar uma atmosfera quase claustrofóbica para inserir quem assiste dentro do ambiente do filme. Com a trama quase se passando exclusivamente dentro da casa dos personagens Hereditário brinca com tomadas bem fechadas ao focar na família que sofre com o luto e perdas de entes (queridos?).

Na trama, vemos Annie Graham (Colette) lidando com o enterro de sua mãe, uma mulher nada fácil de se lidar (palavras da própria personagem) e como isso afetou a rotina da casa onde ela mora com seu marido Steve (Gabriel Byrne) e seus filhos, a deslocada Charlie (a talentosa Milly Shapiro) e o adolescente revoltado Peter (Alex Wolff). 

Hereditário apresenta seus personagens de uma forma super seca onde não temos muitas informações sobre eles e história acaba ganhando sua forma lá para frente e mesmo com inúmeras pistas apresentadas ao longo de suas 2 horas o filme mostra sua verdadeira cara nos seus momentos finais. Nos seus últimos 20 minutos o longa faz cenas gráficas, impactantes e bastante grotescas mas que concluem a trama de uma forma que deixará o espectador assombrado com a quantidade de informações apresentadas e que precisam de um tempo para ser assimiladas e digeridas assim como foi no polêmico mãe! (2017) no ano passado.

Alex Wolf ainda nos entrega um tipo de personagem que acaba meio que vendo as coisas do lado de fora como se Peter servisse como um olhar do espectador dentro do filme. A evolução do adolescente dentro da trama onde ele vai ganhando um papel menos de vítima e mais pró-ativa com a ameaça que roda a casa chega a ser bastante interessante em termos de desenvolvimento de roteiro e claro da boa atuação do jovem ator. Ele, Colette e Ann Dowd como uma colega do grupo de apoio de Annie estão realmente de tirar o fôlego. 

Foto: Diamond Filmes/A24

Infelizmente, o filme acabar por segurar muito de sua história, onde o roteiro de Ari Aster vai apenas jogando suas informações como não quer nada, onde diálogos parecem ser apenas diálogos, ou objetos mostrados em cenas parecem ser uma escolha criativa e que estão focados apenas por uma questão estética. Mas aqui vemos que nada está ao acaso em cena e lá para os momentos finais, Hereditário acabam sendo um verdadeiro show de verborragia e de viradas, uma atrás da outra, tanto de personagens quando da história e faz do filme um daqueles longas que acaba precisando ser visto várias e várias vezes, pois quanto mais você pensa nele mais você acaba pensando nele.

Se você espera um longa que tenha sustos o tempo tempo e coisas correndo e pulando a todo momento em tela, talvez Hereditário não seja para você, o filme é muito mais uma construção psicológica de personagens e desenvolvimento de trama , com uma história cheia de mitologias e rituais secretos do que qualquer outra coisa, mas que no final acaba fazendo dele e uma experiência de suspense bastante impactante.

Hereditário completa a lista do renascimento do terror moderno nesses últimos anos com corra! (2017) e Um Lugar Silencioso (2018) e se mostra um filme ousado e audacioso ao misturar diversos tons de suspense (temos espíritos, temos possessões e casas mal-assombradas) com uma história bem amarrada e construída mesmo que um uns altos e baixos em sua execução.

No final, o filme se afirma não como uma mudança no gênero mas sim a oportunidade de vermos uma produção bem autoral e com uma atriz principal entregando um dos melhores papeis de sua carreira. Hereditário é um filme difícil mas ao mesmo tempo intenso e perturbador por todos os motivos certos.

Nota do Crítico:

Hereditário chega nos cinemas em 21 de junho.

Miguel Morales

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