Além da Morte | Crítica

Claramente pegando carona nessa onda de filmes sobrenaturais com elementos de terror que começou a invadir o cinema novamente, Além da Morte (Flatliners, 2017) erra onde The OA (Netflix) acertou. O filme não tem um bom roteiro e falha ao desenvolver seus personagens mesmo com bons e conhecidos atores envolvidos na produção. Com um visual e efeitos especiais bacanas o filme é um pouco incômodo e chega até digamos a te matar…. De tédio em algumas partes, simplesmente pelo fato de não rolar nenhuma conexão com nenhum dos personagens principais.

A trama é até que é moderadamente interessante: residentes de um hospital de ponta nos EUA tentam no maior complexo de Deus e no auge da suas arrogâncias de geração Y fazer uma nova e importante descoberta médica ao se submeterem a experiências de quase-morte para estudarem o comportamento do cérebro logo após o momento da morte. Sendo cobaias para o próprio experimento, depois que eles retornam para à vida, os jovens começam a ser assombrados por figuras do passado e se questionarem sobre a realidade da vida que eles levam.

Foto: Sony Pictures

Além da Morte é uma produção que não sabe o que quer: o começo é uma mistura de série médica como Grey’s Anatomy (ABC) com uma temporada qualquer de Malhação (Globo) onde os residentes disputam quem é o melhor, os melhores casos e serve muito bem para mostrar de forma bem superficial a personalidade de cada um. Como falamos, diferente de The OA que apresenta seus personagens de forma mais espaçada, aqui no filme tudo é apressado. Mesmo que a primeira seja uma série de TV e tenha mais tempo para desenvolver seus personagens no filme parece que pegamos um trem em toda velocidade e ficamos apenas tendo rápidas informações sobre cada um deles para depois já irmos para a vida do outro personagem num Ping-Pong absurdo.

Podendo ser bem mais simples, o roteiro também falha ao não criar cenas coesas e que dão continuidade a trama, parecendo um belo colchão de retalhos. E como falamos a falta de um foco faz o filme e quem assiste sofrer, afinal ele introduz um elemento de terror e sobrenatural mas não avança e nem recua da história deixando sempre aquele sentimento de vai ou não vai. Um dos grandes problemas também da produção é a medida que as coisas vão acontecendo você não se importa como aquilo pode afetar os personagens.

E sinceramente nem o roteiro parece ligar muito para isso, sem muitos spoilers, mas em uma determinada cena um dos médicos leva uma facada na mão para logo depois em outra cena aparecer com ela enfaixada como se nada tivesse acontecido e ele bate papo normalmente com os colegas sem nem rolar, um “Oi amigão, o que houve ai?“. O mesmo acontece quando uma das médicas joga o carro no meio de um café e nada acontece, não tem nenhuma consequência nem “Oi amiga tudo bem? Sim, esmurrei o carro na parede”. Um monte de cenas picadas, claro muito bem feitas vamos defender aqui, mas jogadas uma sobre a outra.

A atriz Ellen Page como a residente Courtney, meio q ue lidera o grupo tanto no filme quanto em atuações e tem um dos arcos dramáticos um pouco mais desenvolvidos mesmo que o roteiro explique bem explicadinho algumas coisa sobre a personagem que deixam o sentimento de amadorismo envolvido muito grande. O personagem de Diego Luna, Ray não tem muito destaque e francamente nem precisa estar realmente no filme mas o ator entrega uma boa atuação com um sotaque carregado. Nina Dobrev, como a residente Marlo continua no piloto automático de suas personagens bobinhas, inocentes mas que acaba dando certo aqui mas quando chega sua vez de nas cenas mais dramáticas a atriz não consegue entregar no mesmo nível de Kiersey Clemens como Sophia. A personagem é um dos destaques e tem a maior transformação e desenvolvimento dentre os cinco, mesmo com a sua história sendo bastante adolescente e o ator James Norton como Jamie fica realmente bem dentro do esperado afinal metade do tempo ele está cantando alguém ou andando sem camisa no seu barco-casa.

O filme então começa a apelar para sua parte mais de terror na medida que os personagens acabam sofrendo com as consequências do retorno pós-morte mesmo não se desenvolvendo de uma forma muito boa para nenhum deles, o filme acerta em colocar uma boa trilha sonora para acompanhar os jovens médicos lidando com seu problemas mesmo que não acabam por gerar nenhum questionamento sobre o que é real e o que não é. E o filme nem se preocupa em responder algumas questões como se realmente eles abriram a porta para alguém do “outro lado” sair ou se é só coisa da mente deles deixando para quem for assistir decidir.

Além da Morte tem um bom conceito, atores competentes mas falha em não assumir para si mesmo que não é um filme para ser levado a sério. Com poucas partes interessantes e com mistérios que não te fazem pensar e nem se importar ao longo de suas quase duas horas, a produção deve passar em branco daqui a alguns dias. Nem os pulinhos na cadeira em algumas partes vão te fazer acordar na cadeira.

Nota do Crítico:

Além da Morte estreia em 19 de outubro no Brasil.

Miguel Morales

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