Festival do Rio | A Bola Preta | Crítica: Uma ópera lindamente bem executada
A experiência de assistir A Bola Preta (La Bola Negra, 2026) no Festival do Rio apenas comprovou que todo o hype que o filme tem tido desde que estreou no começo do ano em Cannes é real. A Bola Preta é, de fato, uma experiência sensorial das mais interessantes e deslumbrantes do ano, sem dúvidas. A dupla de diretores Javier Ambrossi e Javier Calvo (chamados e conhecidos como Los Javis) consegue não só fazer com que caiamos de cabeça nessa história que atravessa gerações, como também apresenta esses personagens de uma forma que nos deixa engajados com suas histórias, conflitos e como essas três tramas vão se conectar de alguma forma.

Em três linhas do tempo distintas e distantes uma da outra, A Bola Preta mostra diversas vivências de personagens queer ao longo dos anos, em momentos diferentes, e mais, em recortes políticos e sociais específicos. Mas sem deixar de mostrar que, independentemente da época, o preconceito e o isolamento impõem desafios constantes à sobrevivência desses homens.
E os Javis apresentam as narrativas sempre como se fossem uma grande tragédia grega, aqui no caso uma tragédia latina, espanhola, um melodrama de respeito, cheio de exageros, com uma trilha sonora que aumenta, e cresce, e tempos em tempos, à medida que as tramas são apresentadas e os conflitos se adensam.
Estamos em 1932 e acompanhamos o jovem Carlos (Milo Quifes, ótimo), que vem de uma família rica e tem um pai controlador, tentar se adequar às normas sociais para entrar no seleto clube de elite. Mas o falatório na cidade sobre ele, sua sexualidade e suas companhias é um obstáculo à medida que ele chega à votação para saber o resultado do seu pedido: uma bola branca representa os votos positivos, e uma bola preta, os negativos. Ele é recusado, mas planeja voltar e pedir uma nova audiência.
Paralelamente, mas agora em 1937 na linha do tempo dos eventos, conhecemos também o soldado Sebastián (Guitarricadelafuente, de longe o melhor do elenco), que também precisa se privar para tentar sobreviver aos anos duros da guerra. Mas as coisas mudam quando ele precisa ficar de olho e tentar coletar informações sobre um prisioneiro (Miguel Bernardeau, vindo do sucesso de Elite) que foi capturado e está gravemente ferido. É a relação central do filme e que se encaminha, como diversas outras, a acabar em tragédia.
E em 2017, nos tempos modernos, de apps de relacionamento, o jovem historiador e dramaturgo Alberto (Carlos González) também vive seus dilemas e conflitos enquanto tenta se conciliar com a mãe (a atriz espanhola Lola Dueñas) e vê a relação deles piorar ainda mais quando uma morte na família revela alguns segredos sobre um parente, o que o leva a uma jornada de descobrimentos.

E todos esses personagens se conectam através das páginas perdidas de uma obra do autor espanhol Federico García Lorca, onde descobrimos o que une esses homens a ele. E tudo em A Bola Preta gira em torno de Lorca. Até mesmo as participações das hollywoodianas Glenn Close, como uma estudiosa da obra do autor, numa participação breve e arriscando um espanhol, e também de Penélope Cruz, uma dançarina que serve para animar as tropas no meio da guerra civil espanhola que serve de pano de fundo para boa parte da trama de 1937.
Penélope Cruz está divina e magnética aqui (no seu terceiro filme de destaque no ano junto com O Convite e Bunker), tem cenas ótimas, onde canta e dança. Inclusive, a música é um fator muito importante para A Bola Preta. Não só nas cenas logo do começo do filme, onde temos momentos mais ritmados, dançantes e musicais, mas também lá no final do filme, com uma belíssima cena nas montanhas de neve com uma música original de Guitarricadelafuente, músico espanhol que faz sua estreia nos cinemas.
Enquanto a trama em zig-zag nos leva pelos anos, e se estende um pouco mais do que deveria (o longa tem mais de 2 horas e meia de duração), vamos descobrindo mais sobre esses personagens, seus relacionamentos e como suas histórias se conectam com a obra de Lorca. A Bola Preta leva seu tempo para contar tudo isso, mas impressiona por conta do tom mais teatral e bastante poético.
A direção de Los Javis se revela por vezes mais ágil e inspirada do que o próprio roteiro que coloca alguns momentos mais pirados e de doideiras visuais que, particularmente, acho que não combinou com a proposta. Mesmo que fique claro que A Bola Preta acaba por ser uma homenagem à história espanhola e aos conflitos político-sociais do país, é também para diversos homens que precisaram se manter escondidos de quem eram, e que de certa forma receberam ao longo de suas vidas diversas bolas pretas para se manterem vivos.
No final, A Bola Preta é a bola branca para figuras que podem ter suas histórias contadas e não esquecidas e apagadas. É uma obra espetacular que mostra que o caminho percorrido por diversas gerações para chegarmos aqui foi dolorido, servindo para valorizarmos onde estamos e lembrar que ainda temos muito para caminharmos.
Filme visto no Festival do Rio em Outubro.
A Bola Preta chega nos cinemas nacionais pela Paris Filmes em janeiro de 2027.

