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Cara de Barro | Crítica: Vilão B do Batman está pronto para seu close-up!

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É curioso notar a quantidade de vezes que o texto de Mike Flanagan para Cara de Barro (Clayface, 2026) faz referências e piadas com rosto ao longo do filme. Principalmente no começo dele, antes de toda a doideira rolar. É um trabalho interessante, sutil e que deixa tudo que cerca esse projeto de trazer esse vilão da categoria B da galeria de vilões de Gotham e do Universo do Batman ainda muito melhor.

Em resumo, já dá para dizer logo de cara, que sim, Cara de Barro é muito bom. É um acerto necessário tanto para a DC que cambaleou um pouco no início do ano, para administração atual da divisão e para a Warner depois de tudo que rolou com a fusão com a Paramount. Ao colocar um ator de Hollywood da DC no centro dessa história de vaidade, cobiça e aparências, o rumo que a direção de Peter Safran e James Gunn toma mostra que existe sim espaço para histórias autorais baseadas em grandes personagens dos quadrinhos do selo. Mesmo que Cara de Barro seja o coadjuvante do coadjuvante e ganhou uma certa popularidade por conta da representação mais caricata na série animada Harley Quinn. Esse tipo de abordagem funcionou de certa forma com Lanternas, nem tanto com Supergirl. Mas enquanto Gunn e cia. não podem ainda, efetivamente, brincar com esses personagens de Gotham e nem com o principal deles, o herói mascarado, a ideia é ir comer pelas beiradas.

E sim, Matt Hagen (um ótimo Tom Rhys Harries) está pronto para seu close-up, no melhor estilo de Norma Desmond, como vimos no clássico do cinema Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), dirigido por Billy Wilder.

Foto: PARISA TAGHIZADEH/WARNER BROS. PICTURES
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O roteiro de Mike Flanagan (co-escrito com Hossein Amini) coloca esse ator bambam de Hollywood numa história de vingança e obsessão muito interessante de se assistir. O começo apresenta Hagen no seu melhor, vivendo os frutos do seu trabalho em que ele é o ator do momento do cinema. Entrevistas, tapetes vermelhos, modelos, festas. E, claro, o ápice: uma indicação ao Oscar pelo seu último trabalho.

E assim como Norma viu, Hollywood é uma indústria implacável e, por conta de um deslize, Hagen cruza o caminho de um mafioso, numa Gotham onde existem vários, e tem a cara rasgada e cortada. Numa cena bem chocante de ver e extremanente pesada e que fica claro que a vida de glamour e badalação acabou.

A direção que James Watkins (após a versão americana de Não Fale O Mal) apresenta é ágil, brutal e bastante imersiva para contar essa queda do topo para o protagonista. A edição é pá, pum, serve para introduzir o personagem, seus dilemas, universo e não perde tempo em avançar a história a toque de caixa. É bacana estar nessa cidade com esses personagens, mas também seja mais bacana para quem acompanhe e curta esse tipo de história. Para o fã de filmes de heróis genéricos, a ação do longa se concentra mais para a metade. Mas não deixa de empolgar.

E, por conta dessa ambientação convidativa, sinto que o grande momento, ou grandes momentos de Cara de Barro, se dão quando Hagen conhece a doutora Caitlyn Corr (uma excelente Naomi Ackie) e o trabalho experimental com nanotecnologia que ela realiza e o soro que ela desenvolve. Os momentos em que Corr usa o ator em desgraça como paciente experimental e as coisas parecem que vão dar certo até que não dão são muito bem feitos. E isso tudo se dá por conta do trabalho de Ackie e Harries, que acertam as cenas “paciente e médico” e como essa relação pode evoluir para alguma coisa a mais.

As semelhanças com A Substância são inevitáveis, mas Cara de Barro trabalha melhor as mudanças físicas e corporais que Hagen começa a passar depois que injeta uma superdose. O sentimento de tensão que Watkins coloca nas cenas, mais o trabalho impecável de Harries em cena, e ainda todos os efeitos visuais e práticos utilizados aqui fazem com que Cara de Barro se destaque antes como um filme de body horror e depois como uma adaptação de um quadrinho, de uma história e de um personagem de super-herói.

É colocar essa história no mundo real, sem muito espaço para fantasia, e trazer uma abordagem visceral, impactante e realmente chocante para esse personagem que começa a ter a cara derretida, os olhos colados e se morfar em alguma coisa mais assustadora. Sim, a tática de deixar a figura do vilão só para ser apresentada no final de Cara de Barro é genial. Afinal, temos tempo para conhecer a figura humana e não a do monstro, na qual Cara de Barro apela para a construção desse ser e não para o gore apenas por ter.

Cara de Barro usa Harries e todos os atributos físicos dele ser um homem bonito para dar o sentimento de que essa figura realmente perdeu tudo. Todas as cenas em que ele vê sua aparência desfragmentar-se em público são muito boas. Seja num avião com uma tesourinha (talvez uma das cenas mais angustiantes do filme), num tapete vermelho após uma vingança, ou até mesmo na frente da doutora Corr e do detetive Borrelli (Max Minghella, muito bom também), ou ainda contra todos os personagens de quem ele mesmo tenta se vingar ao longo do filme.

Sim, Cara de Barro é um body horror, mas também entrega um filme que tem um certo humor, com um quê policial e de máfia, principalmente quando o ator vai atrás de um dos chefões da cidade, aqui interpretado por Eddie Marsan. Tem um quê de A Mosca, com Coringa, com Juntos. E, ao misturar tudo isso e colocar no mesmo molde, Cara de Barro apenas intensifica seu ritmo e aumenta as consequências das repercussões das ações de Hagen e o plano de vingança que ele monta. Se vai dar certo, e quem vai estar envolvido ou aparecer para salvar o dia, é uma coisa para se assistir e ver tudo se desenrolar.

Enquanto Hagen luta para manter as partes do seu corpo inteiras e terminar o filme junto, nós, os espectadores, ficamos de cara no chão com os acontecimentos finais do longa e a forma como tudo termina. É um trabalho impecável de Harries, do time de efeitos especiais e visuais, de iluminação, som e tudo mais.

Um trabalho primoroso não só de uma adaptação de uma história de um personagem basicamente desconhecido, como também de uma construção de personagem brilhante. No final, Cara de Barro é um verdadeiro acerto e que faz isso de uma forma tão boa, tão interessante, que é quase como se tivéssemos vendo outro filme, com outra cara.

Nota:

Cara de Barro chega nos cinemas com sessões de pré-estreias pagas em 21 de outubro.

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