Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte | Crítica: Uma nova e mais palatável doideira de Jane Schoenbrun
Eu sou do time que detestou Eu Vi O Brilho da TV! Achei um filme confuso, pretensioso e que desperdiçou uma premissa muito legal e uma oportunidade muito legal de fazer um terror diferente do habitual por se apoiar demais em conceitos. Mas isso eram águas passadas e eu estava extremamente empolgado para ver Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, 2026).
Primeiro por conta do elenco envolvido, aqui Gillian Anderson e Hannah Einbinder, e em segundo pela premissa também chamativa sobre ser um filme sobre um reboot de uma franquia de terror que soava muito mais interessante, do que o filme anterior de Jane Schoenbrun que retornaria na direção e que era uma das poucas coisas que tinham se salvado no filme anterior.

E, definitivamente, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte entrega uma “doideira” bem mais palatável do que a obra anterior de Schoenbrun e que funciona muito mais por conta da dinâmica entre Einbinder e Anderson que estão ótimas do que qualquer outra coisa.O longa é muito bem filmado, os enquadramentos são bem escolhidos, com sequências visuais de tirar o fôlego, e traz boas ideias. O problema é que muitas dessas ideias são abandonadas pelo caminho, fazendo o filme parecer uma obra de um cinema experimental de um estudante de audiovisual.
Claro, Schoenbrun mostra uma evolução no seu trabalho na direção, sem dúvidas, e Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte tem um certo rebuscamento visual, muito interessante e extremamente bonito de ser ver na telona. Mas também o roteiro nas mãos de Schoenbrun parece que nunca vai ser algo que vai agradar geral, ou ter um grande apelo comercial. Afinal, parece que estamos vendo um grande compilado de ideias, conceitos, metáforas e alegorias jogados em tela e que realmente apenas ofuscam o que Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte poderia entregar.
Parece que, mais uma vez, faltou alguém nos bastidores perguntando: “Olha, e se ajustássemos isso aqui?” já que em certos momentos, a experiência se torna cansativa, pois a narrativa nunca se compromete com o que é real, o que é delírio ou qual é, de fato, a mensagem que Schoenbrun deseja passar.
Daria para descrever Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte como a representação perfeita do que acontece quando cinéfilos usam “um negocinho”. Na trama, a diretora novata Kris (Einbinder, emulando a dinâmica que a consagrou em Hacks) recebe a oportunidade de comandar o reboot da franquia fictícia de slasher Acampamento Miasma. Tudo o que ela mais quer é convencer a final girl original, Billy (Anderson, esbanjando carisma), a participar, trocar figurinhas, debater o projeto e sua experiência de anos atrás. E claro, quem sabe revelar por que decidiu se afastar os holofotes logo depois do sucesso do primeiro filme.
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte começa lá em cima, onde Schoenbrun apresenta os anos áureos de Acampamento Miasma com o lançamento do filme original, as sequências, os problemas nos bastidores, mais sequências lançadas diretamente em VHS até, anos depois, o anúncio do reboot. E é o momento que o filme já mostra para que veio e te joga para o sedutor universo criado por Schoenbrun e que é apresentado nos momentos iniciais.
Tem um ar de nostalgia, de revisionismo, muito bacana, afinal, é uma série de filmes que não existem, mas Schoenbrun apresenta Acampamento Miasma de forma tão sedutora e envolvente que parece que Acampamento Miasma realmente existiu no mundo real junto com Halloween, Pânico, O Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13.

E de certa forma Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte não deixa de ser realmente uma grande homenagem para os filmes de gênero e para a importância deles como porta de entrada para o mundinho cinéfilo. As cenas de Kris discutindo com a empresária (Sarah Sherman) sobre os acordos com o estúdio, as decisões, se ela teria decisão sobre o corte final também se destacam no começo, muito boas e marcam os momentos iniciais do longa. E claro, vem de carona do que a própria Hacks falava nas temporadas finais e o que tem sido a moda em algumas das produções mais recentes sobre Hollywood como Magnum e O Estúdio.
Einbinder está bem porque realmente manifesta o que fazia em Hacks, mas também é nítida a diferença entre as duas personagens. Irritantes, sim, mas, a atriz é competente o bastante para fazer de Kris ser uma personagem que sim, duvida de si, mas uma muito mais confiante que Ava de qualquer forma. Schoenbrun conduz, com um certo humor, esse início muito bem e entrega um sentimento de curiosidade intrigante para vermos o que vai acontecer quando a diretora em ascensão parte para encontrar a atriz reclusa que Billy se tornou.
E até a metade do filme, ou pelo menos, enquanto acompanhamos Kris e Billy interagindo na cabana isolada onde a veterana se hospeda (e que serviu de locação mórbida para o primeiro filme), a narrativa sustenta uma interessante ambiguidade. O roteiro brinca com a paranoia ao sugerir que o assassino mascarado em formato de ventilação de ar pode ainda estar à espreita, ao mesmo tempo em que explora o ego de uma atriz no ostracismo ao receber uma admiradora, que como citado pelo próprio texto, no melhor estilo Norma Desmond em Crepúsculo dos Deuses.
E é aí que talvez Schoenbrun tropece com o roteiro, já que muito do que se passa nos momentos seguintes apenas deixa Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte com um ar extremamente carregado de indagações na tentativa frustrada de tentar criar algum sentido naquilo. É uma reflexão sobre exploração sexual? Uma busca sobre o clímax feminino? Ou uma história sobre desejo e obsessão?
Schoenbrun tenta atirar para todos os lados e mesmo com boas ideias e diversos outros momentos mais engraçadinhos, tudo vai por perder o brilho. Claro, Anderson e Einbinder seguram as pontas e o mesmo vale para os outros personagens que aparecem aos poucos na narrativa como Patrick Fischler (um atendente de uma loja), Zach Cherry e Quintessa Swindell como personagens do filme original e também Dylan Baker como um chefe de estúdio sem noção.
Mas sinto que o filme vai se perdendo na proposta quando caímos de cabeça no conceito do serial killer da franquia, o que é o filme dentro do filme e o que acontece na vida desses personagens quando tudo isso se mescla de uma forma nada interessante. E mesmo que Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte tente fazer algum sentido nos momentos finais e amarrar toda essa piração que vemos, fica claro que ainda não é a hora e a vez de Schoenbrun mostrar para que veio. É um avanço, sem dúvidas, para elu, mas ainda falta alguma coisa. Eu ainda não vi o brilho que todo mundo viu com Schoenbrun, mesmo que Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte tenha brilhado mais do que Eu Vi O Brilho da TV, mas ainda não como eu gostaria que tivesse brilhado. Mas Schoenbrun voltará. Sempre volta.
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte chega em 13 de agosto nos cinemas nacionais.

