VisionQuest | Review: IAs sim, mas agora com sentimentos
A história Wanda (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bethany) vem sendo um dos pilares narrativos do MCU desde da introdução dos personagens em Vingadores: Era de Ultron (2015), momento em que Wanda e o irmão Pietro estiveram contra os Vingadores (depois a favor deles) e o humanoide foi criado por Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Bruce Banner (Mark Ruffalo) a partir da ameaça do próprio Ultron. Em seguida vieram os devastadores eventos em Vingadores: Guerra Infinita (2018) e depois em Vingadores: Ultimato (2019), ue serviram de alicerce para a primeira e aclamada série da Marvel no Disney+: WandaVision.

A ideia de colocar Wanda e Visão juntos num subúrbio no meio de sitcoms antigas foi genial e a atração ainda segue como a melhor dessa safra. Claro, os eventos pós-seriado não acabaram bem para a personagem, como vimos em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. Mas em Agatha Desde Sempre conhecemos um pouco mais das consequências das ações da personagem em Westview com a introdução de Billy Maximoff (Joe Locke), um dos gêmeos criados por Wanda durante os acontecimentos da atração e que foi desenvolvido posteriormente no spin-off.
Mesmo que o destino dos filhos de Wanda e Visão tivessem espalhados em outras produções, WandaVision com um gancho para outro personagem importante: o outro Visão, o Visão Branco, em fuga, depois de ter recebido as memórias do Visão que sumiu após o desaparecimento do Hex.
Agora, VisionQuest não só serve como o capítulo final dessa trilogia, mas também serve para apresentar mais sobre o outro gêmeo Maximoff e o outro Visão. Diferente da abordagem misteriosa feita em Agatha Desde Sempre, VisionQuest já abre a atração estabelecendo que o jovem Thomas Shepherd (Ruaridh Mollica) é o Tommy, filho de Wanda e Visão. E isso ajuda VisionQuest a já fluir com a narrativa e ir para o que interessa: o debate filosófico que sempre permeiou a figura do Visão.
Afinal, tanto o Visão Branco quanto o Tommy são figuras que estão em outros corpos e, consequentemente, são e não são aquelas pessoas. A complexa e intrigante analogia do Barco de Teseu apresentada no final de WandaVision retorna para refrescar a mente do espectador, mas aqui ganha novas camadas, na medida que esse novo Visão descobre sobre Tommy e vice-versa.
E antes de ser uma série sobre tecnologia contra magia, VisionQuest é uma sobre a relação de pai e filho, a busca de identidade, e amadurecimento. Mesmo que tenhamos diversas relações “pai e filho” aqui, seja entre inteligências artificiais (Ultron e Visão) ou entre IAs e garotos com problemas e que aplicam golpes em pubs de Londres (Visão e Tommy). Assim, trazer esse novo Visão como uma tela em branco e pronta para ser pintada acaba por ser um incrível trabalho para Paul Bettany, que está realmente na sua melhor fase com o personagem após anos por trás de maquiagens pesadas e efeitos especiais.
Mas a série só se completa e realmente consegue ser um novo capítulo digno da trilogia Wanda e Visão por conta de todos os personagens secundários que dão o tom mais cômico para a atração cheio de humor e carisma e que criam um ecossistema ao redor do protagonista igualmente rico. Liderados por um excelente e ainda intimidador Ultron (James Spader em sua forma humana, que aqui rouba todas as cenas), além das pitorescas, caricaturadas, mas muito interessantes figuras das outras IAs que já passaram pelo MCU ao longo dos anos: desde J.A.R.V.I.S. (James D’Arcy), passando por F.R.I.D.A.Y. (Orla Brady), E.D.I.T.H. (Emily Hampshire) e a dupla da manutenção VC (Jonathan Sayer) e I.D.I.O.T.A. (Henry Lewis).
A escrita de Terry Matalas acerta no tom mais cômico ao transformar as siglas dessas inteligências em piadas perspicazes e ao reuni-las em avatares humanos dentro de um mesmo local (a cabeça do Visão). Ver como ter todas elas com aparências humanizadas como avatares de pessoas nos ajuda a ver mais desses personagens do que só suas vozes ao longo dos anos no MCU. Em uma das cenas, por exemplo, uma das IAs relembra os principais acontecimentos (a criação do Visão, o combate contra Ultron, a chegada de Thanos, a morte de Tony Stark) pelo seu ponto de vista e realmente faz sentido para a história que quer se contada aqui e sob uma perspectiva inédita e narrativamente envolvente.



E claro que boa parte do seriado também se ancora no bom trabalho que Ruaridh Mollica faz aqui. Já que, diferente do que foi feito com Billy, com Tommy vemos muito mais as consequências na pessoa que a alma (ou a consciência, por assim dizer) fez com o personagem. E Mollica tira de letra tudo isso e está excelente no papel. Desde as cenas tensas de um depoimento sobre como foi ter acordado com essa nova história, novos pais e tudo mais, até mesmo as conversas que o personagem tem com o Visão ao longo dos episódios da atração.
E VisionQuest segue a mesma estrutura narrativa que tivemos com WandaVision e Agatha Desde Sempre: apresentar, espalhar pistas e peças de um quebra-cabeça que se encaixam no clímax da temporada. É interessante vermos as ameaças que são apresentadas pela história, que vão desde o próprio Ultron mais uma vez, passando por um caçador de recompensas realmente perigoso chamado Paladino (um ótimo Todd Stashwick) e até mesmo chegando a uma figura mascarada com olhos vermelhos que lá na metade da temporada consegue invadir os sistemas do Visão.
O trabalho de direção aqui, que tem blocos iniciais com direção de Christopher J. Byrne e da brasileira Gandja Monteiro, mescla efeitos visuais práticos (principalmente quando vemos as IAs reunidas na Casa Visão) com efeitos especiais que realmente estão em níveis melhores que as últimas produções da Marvel para o streaming. É tudo muito bonito de ver, as jogadas de câmera são bem boladas e tudo realmente chama atenção por conta de um ar mais cinematográfico que ficou faltando nas produções mais focadas em personagens urbanos.
No final, VisionQuest resgata aquele senso de fascínio, aquele sentimento de empolgação, de estarmos vendo uma boa história, com bons personagens, como tivemos em WandaVision e em Agatha Desde Sempre. A saga de Wanda e Visão deve terminar essa parte de sua história no topo, onde os fãs aguardam ansiosamente como e quando a reunião de família vai acontecer. Afinal, com a chegada de Billy (com Agatha fantasma a tira colo), a introdução de Tommy e seus poderes, estamos a um passo de termos o personagem e o irmão em busca da mãe soterrada sob os escombros do Monte Wundagore. E se tem uma coisa que aprendemos no MCU é que ninguém realmente desaparece.
VisionQuest estreia com 2 episódios iniciais às 22h do dia 13 de outubro.

