Dá para ver que Jenna Ortega e seu time estão trabalhando para a atriz seguir um certo caminho: pegar cada vez mais papéis de personagens excêntricos para a lista vasta que a atriz tem trabalhado nos últimos tempos. E aqui com Klara e o Sol (Klara And The Sun, 2026) e com a personagem que Ortega interpreta é mais um exemplo disso.
E se a robô maluca que Ortega interpreta aqui é o papel com cara de Ortega, o filme que o diretor Taika Waititi entrega também é a cara dele, depois de anos na Marvel Studios e do fraco (mesmo que espirituoso) Next Goal Wins. Parece que Waitit também quis reunir diversas outras variáveis para completar esse grande combinado de excentricidade que marca Klara e o Sol.
E que vai desde Natasha Lyonne no papel da gerente da loja de robôs (chamada A Loja do Amigo), passando por Steve Buscemi como um doutor maluco e até mesmo Amy Adams, que ultimamente tem feito escolhas de projetos um pouco duvidosos, sendo Klara e o Sol mais um para a lista. 2028, certeza.
E até mesmo pelo próprio Waititi, que tem sua dose de maluquice aqui, mas que entrega um filme bonito antes de tudo e sensível para abordar o tema da tecnologia, da inteligência artificial e das conexões humanas. Mas será que ele faz um bom filme, filme, como produto cinematográfico, e para se ver e gastar um tempo nos cinemas no meio de tantas outras opções? Hum. Não.
Talvez o problema de Klara e o Sol esteja na dificuldade de Waititi (e do colega co-roteirista Dahvi Waller) em adaptar e transformar a história vista no livro de Kazuo Ishiguro (que levou o Nobel pelo conjunto de sua carreira) para os cinemas. E não vou mentira aqui, Klara e o Sol começa muito bem, tem, de certa forma, o que falar, tem um certo humor e é extremamente alavancado pelo jeitão esquisito, engraçado e até mesmo melancólico que Ortega imprime a Klara, uma robô com um parafuso a menos, de uma linha de robôs que foram feitos para ser amigos de crianças ricas. O sonho dela é ser comprada e deixar a loja em que ela “nasceu” e viveu.
É quase como se a Barbie Estranha de Barbie tivesse seu próprio spin-off. E Ortega junto com Lyonne, entregam um humor fora da curva sim, mas até que super embarcável, e que de cara eu super comprei. E quando Klara cruza olhares (uma coisa que ela não deveria fazer com os clientes!) no dia de estar na vitrine com a jovem Josie (Mia Tharia), o tíquete para sair da loja é garantido. Afinal, as duas estabelecem uma conexão logo de cara, igual o casal que Klara e os colegas vivem por observar dentro da loja e atrás do vidro por dias.
Klara e o Sol, a trilha sonora de Michael Giacchino, os figurinos extravagantes, a ambientação retrofuturista e a direção de Waititi conseguem apresentar esse mundo distópico de uma forma bastante interessante em termos visuais. Afinal,Klara serve como os olhos do espectador ao apresentar as nuances e especificidades desse mundo e como as coisas funcionam. E essa é a parte mais interessante do filme. O enorme leque de possibilidades, o desconhecido e como esse mundo funciona é o que dita o tom de Klara e o Sol. Pelo menos desse começo.
É como se Waititi estivesse nos calibrando para vermos mais desse universo e, quando a trama avança e Klara chega ao casarão em que Josie mora com a mãe Chrissy (Adams, até que bem) e a governanta Melania (Rachel House, com um timing cômico muito bom), é que Klara e o Sol começa a atirar para todos os lados em termos de narrativa.
A história começa a expandir mais o que podemos esperar da dinâmica entre mãe e filha, os atritos, os conflitos, o que as levou a viver daquele jeito e o luto que cada uma vive à sua própria maneira. E ao colocar Klara na jogada, Klara e o Solaumenta exponencialmente a complexidade da história e da narrativa, apoiando-se em segredos, omissões e reviravoltas para fazer a trama girar. Claro, é bonito ver a amizade entre Josie e Klara, e como as duas se completam, passando pela amizade de Josie e Rick (Aran Murphy) e depois de Klara e Rick, além de Josie, Klara e Rick, e até mesmo Klara quebrando o ar de durona de Chrissy e de Melania enquanto paira o terror de ser mandada de volta para a loja na caixa.
Enquanto a narrativa coloca Josie como uma jovem pródiga e participante de um experimento para melhorar suas habilidades, o longa expande demais a história e tenta abocanhar mais do que deveria. É como se tudo fosse inflado, a narrativa e as relações dos personagens, que foge um pouco do cerne de sua própria história. Talvez funcione para o livro, mas aqui nem o elenco, nem Waititi conseguem fazer a trama ou esses personagens soarem minimamente interessantes ou vendíveis para o público, assim como a própria Klara parada no meio da vitrine foi.
No final, Klara e o Sol tem boas intenções para falar sobre amizade, inteligência artificial e até consegue fazer um filme encantador, divertido e com alguma coisa a dizer. Mas é preciso mais do que boas intenções. E aqui parece que o público não vai abraçar Klara em sua jornada, mesmo que seja ao mesmo tempo também uma jornada também triste e melancólica, se formos pensar.
Klara e o Sol chega nos cinemas em 05 de novembro.
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