O Escolhido | Primeiras Impressões

O Escolhido, a nova produção nacional da Netflix, chega como um dos grandes lançamento do serviço de streaming do ano, alguns nomes conhecidos do público, mas acaba por ser o famoso “boa (misteriosa e instigante!) ideia, mas com uma falha execução”. Mas, já deixamos aqui bem claro, O Escolhido tem muitos méritos.

A série do serviço de streaming entrega uma produção viciante e extremamente maratonável, em que os mistérios e segredos que envolvem a população da cidade de Aguazul ajudam a compôr o clima denso e sombrio que é apresentado nos primeiros episódios. O Escolhido tem uma história super interessante que nos leva para dentro de um Pantanal cheio de lendas e rituais, e que deve atiçar a curiosidade do espectador com uma trama que une aspectos sobrenaturais, com debates sobre religiosidade, fé e ciência.

Mas, o seriado sofre do velho problema de algumas produções nacionais, o texto duro, as atuações um pouco engessadas, as frases estranhas e ditas sem nenhuma naturalidade, onde até mesmo a talentosa Paloma Bernardi, que lidera o elenco e tem uma boa experiência em novelas, meio que deixa um pouco a desejar. Assim, O Escolhido consegue juntar um elenco que dá ares mais teatrais para a produção, onde os destaques ficam com o ator Renan Tanca, o tal do Escolhido que dá nome ao seriado, que acerta a mão na construção do misterioso personagem, e ainda Tuna Dwek, como Zulmira, uma das lideres locais. Mas, mesmo com esse jeitão de peça de teatro, a produção de O Escolhido parece que não sabe muito bem aproveitar tudo isso, e a maior parte das interações entre os personagens são o ponto fraco dos episódios que vimos até então.

O Escolhido, por outro lado, se garante em conseguir criar toda uma ambientação super interessante, ao jogar o espectador dentro da realidade que a série propõe, onde um grupo de médicos, os doutores com personalidades bem distintas entre si, Lúcia (Bernadi), Damião (Pedro Caetano) e Enzo (Gutto Szuster que parece se divertir com seu personagem) chegam numa vila isolada no interior do Brasil para vacinar a população, até que descobrem que os moradores que nunca ficam doentes adoram uma entidade mística chamada de O Escolhido.

Os primeiros episódios demoram para efetivamente nos mostrar o personagem do Escolhido, onde a série, leva um bom tempo também para nos apresentar sua trama, personagens, e engrenar de vez. O espectador precisa de paciência para tentar encaixar as peças, e as pistas que o seriado nos entrega, e parece sempre nos levar para uma figura de serpente com o símbolo do infinito. Nessa primeira leva de capítulos, conhecemos, então, além do trio do médicos que tem seu passado contado em rápidos flashbacks ao longo dos episódios, o líder dos locais Mateus (Mariano Martins, bem e no melhor estilo lobo em pele de cordeiro), o morador do vilarejo Vicente (Aury Porto) e o divertido Silvino (Francisco Gaspar) que serve como um guia para o grupo de médicos.

O roteiro da dupla Carolina Munhóz e Raphael Draccon acerta em criar um sentimento de mistério latente, onde o texto nos apresenta perguntas e indagações dos mais diversos tipos, no melhor estilo da série Lost (entra a onça no lugar do Urso Polar), com personagem complexos e que parecem sempre ter algum motivo oculto para fazer, ou falar, alguma coisa. E, voltamos a repetir, em O Escolhido, parece também, faltar alguma coisa, uma certa preocupação e cuidado com aquilo que é entregue, algum tipo de refinamento em como os atores vão entregar o texto e interagir entre si, e com seus personagens em tela.

O Escolhido parece escolher entre ser e ter uma boa história de suspense, e não saber efetivamente como a contar. Dos cinco episódios que vimos, a trama realmente engatou no 1×03, intitulado A Relíquia, antes disso, tudo parecia um grande e exaustivo prólogo. E mesmo que o saldo tenha sido positivo, O Escolhido acaba por ser como entrar numa mata densa, o caminho pode até ser tortuoso para alguns no começo, mas logo você se acostuma, e esperamos que até o final da temporada, a experiência tenha, pelo menos, valido a pena.

Leia mais sobre o painel da série que participamos no evento Brasil Na Netflix aqui.

O Escolhido chega na Netflix em 28 de junho.

Miguel Morales

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