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Sky Rojo | Crítica 1ª Temporada: Uma violenta e imprevisível história do Papa Léguas e o Coiote

A série espanhola Sky Rojo chegou tímida no catálogo da Netflix, mas só foi estrear que conseguiu garantir uma certa legião de fãs e gerar um certo burburinho on-line. E ainda bem que já está renovada para uma segunda temporada, afinal, eu preciso saber o que acontece depois do caótico final de temporada. Mas não vamos nos antecipar né?

Dos mesmos criadores do mega hit La Casa de Papel, o seriado tem a marca característica da série que colocou a Espanha, e a dupla Álex Pina e Esther Martínez Lobato no mapa: uma grande estética visual, um humor bem específico, e claro uma trama imprevisível que não poupa ninguém. E em vez de uma grande operação de roubo, e um elenco gigante, Sky Rojo aposta numa história mais intimista sem deixar de ser amalucada em sua proposta. E talvez, isso que seja o grande trunfo da série mesmo.

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Sky Rojo | 1ª temporada – Crítica
Foto: Netflix/TAMARA ARRANZ

Com poucos episódios, são 8 no total, e uma duração de aproximadamente 25 minutos cada um, Sky Rojo vai logo ao que interessa e não perde tempo com firulas e floreios. A trama avança, as coisas acontecem numa velocidade bem dinâmica, e ao mesmo tempo, o time de roteiristas conseguem contar essa história, com tempo para apresentar os personagens, e ainda os tirar de qualquer clichê que poderíamos esperar de uma produção do gênero. Mesmo que a coloração amarelada ainda esteja presente, Sky Rojo consegue se sobressair de outras produções no catálogo.

E ainda que Sky Rojo se beneficia com todas essas questões um pouco mais técnicas, o seriado ainda vale a pena dar uma conferida por conta de seu elenco que realmente aqui é um dos outros grandes diferenciais aqui e que realmente mostra que menos é mais em algumas situações. Na trama, conhecemos as prostitutas Coral (a ótima Verónica Sánchez), Wendy (Lali Espósito) e Gina (Yany Prado) que trabalham num lugar colorido, isolado no meio do deserto, e que é casa para a realização de diversas fantasia e fetiches liderada pelo linha dura Romeo (Asier Etxeandia também muito bem) e seus capangas, os irmãos Moises (Miguel Ángel Silvestre) e Christian (Enric Auquer). E esse é só o começo dessa história, pois o que vem pela frente, e o que se desenrola nos alucinantes minutos do primeiro capítulo 1×01 – Sofá de Courino Vermelho é digno de um dos filmes de Quentin Tarantino. Sky Rojo entrega uma espiral de acontecimentos tão surreais, tão violentos e malucos que parecem que fazem um spin-off da série de filmes Kill Bill (2003 e 2004), onde aqui, o alvo se torna o chefão do tráfico de mulheres, o detestável Romeo. 

Sky Rojo | 1ª temporada – Crítica
Foto: Netflix/TAMARA ARRANZ

Sky Rojo, como falamos não perde tempo, e já coloca esse trio de mulheres numa trama alucinada onde elas precisam fugir do estabelecimento que trabalham depois que deixam o chefe esticado no chão depois que as três se unem e dão uma surra nele, tentam escapar e se libertar dessa prisão no meio do nada. O ritmo piscou perdeu, a narrativa contada de forma debochada em primeira pessoa da história por Coral (que faz uma narradora extremamente não confiável) e o sentimento de sororidade marcam esses primeiros episódios de Sky Rojo, onde o espectador deve ser jogado para a trama da mesma forma que um cliente taca uma das meninas para um dos quartos na boate Las Novias. Assim, a sensação de curiosidade e de querer saber o que vai acontecer com essas mulheres quando elas conseguem escapar do chefão, quase perdendo a vida, é uma das coisas que devem fazer de Sky Rojo um sucesso extremamente maratonável na plataforma.

Coral, Wendy e Gina precisam decidir o que fazer agora que estão sozinhas e por conta própria pela primeira vez, na busca por sobreviverem, e ainda precisam lidar com as consequências que essa fuja vai trazer para realidade nada agradável que vivem. Sky Rojo pondera todas essas questões com uma estética visual tão forte, tão marcante, e que se contrasta com quase tudo que vimos em outras produções que é impossível não ficar grudado na frente da TV para saber o que vai acontecer com essas mulheres.

Ao longo dos episódios, além de sabermos mais de seus passados dolorosos (uma delas foi vendida pela família, a outra lida com um casamento abusivo e etc), e como elas foram parar na boate, Sky Rojo consegue pintar uma história sobre essas personagens de uma forma super interessante, onde nada é o que parece ser na superfície. As histórias de vida dos personagens estão intrinsecamente ligadas e conectadas, e ao mesmo tempo a busca se torna uma coisa muito mais pessoal, periogosa, e mortal para ambos os lados, afinal, muita coisa já aconteceu entre eles, e olha que não estamos falando de relacionamentos sexuais apenas. E mesmo com episódios curtos, Sky Rojo consegue criar um quadro bem vívido do que essas pessoas fazem para sobreviver. Se destacam na temporada para mim o ótimo 1×04 – Sexo e Sangue, 1×06 – Lebres ou raposas? e o 1x-07 – Pensando com a cabeça de baixo.

Cada trio de personagens, seja o chefão Romeo e seus dois capangas, ou de Coral e as duas colegas são quase figuras que se completam, e ambos vivem nesse eterno jogo de gato e rato, onde quem é a lebre e quem é raposa, ou como eles falam, quem vai ser o Papa Léguas e quem vai ser o Coiote dessa história. Sky Rojo entrega uma trama muito mais sobre a busca por poder do que qualquer outra coisa, e aqui, não estamos falando de poder político ou influências, e sim, do poder tanto o físico quanto o psicológico sobre aqueles que estão envolvidos no estabelecimento, e principalmente, a vida daquelas jovens e daquela engrenagem que compõe o sistema de prostituição e do tráfico de mulheres.

No final, Sky Rojo navega nessa linha entre o moralmente duvidoso e nos faz torcer por esse trio de mulheres, enquanto ao mesmo tempo que elas precisam fugir de seus perseguidores, elas discutem questões delicadas sobre consentimento sexual, sobre as escolhas que fizeram ao abandonarem suas famílias para viverem nessa realidade, e para onde poderiam ir depois que toda essa loucura passar. Elas só precisam sair desse circulo vicioso de más decisões. Assim, a série te fará querer assistir os episódios tão rápido quanto Coral ao abrir sua bolsa e querer tomar a série de remédios e drogas que usa durante ao longo da primeira temporada.

Sky Rojo está disponível na Netflix.