Os Observadores | Crítica: Será que vale a pena ir assistir ?

Estreia na direção de Ishana Shyamalan aposta em tudo que deu certo na carreira do pai, mas será que vale assistir Os Observadores? Nossa crítica.

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Com Os Observadores (The Watchers, 2024), a diretora de primeira viagem Ishana Night Shyamalan segue a cartilha do pai, o diretor, produtor e roteirista M. Night Shyamalan e se apoia numa premissa interessante, entrega boas reviravoltas, e tem um bom elenco escolhido, mas será que consegue entregar um bom filme?

Particularmente depois que eu notei que o longa era baseado em um livro todos os meus problemas que eu tive ao assistir o projeto se explicaram, quase como mágica. Foi um clique e tudo ficou extremamente claro. Mesmo extremamente bem filmado e com uma ambientação que nos leva para cair de cabeça nessa história, e como falamos, na premissa convidativa que Os Observadores têm, sinto que a grande questão aqui que atrapalhou a minha experiência com o filme é em como a narrativa misteriosa se desenvolve. Fica claro que Shyamalan filha tem o olhar para o terror, e suspense, do pai e aqui entrega um filme no estilo das produções mais modernas do gênero, onde a diretora não se apoia nos sustos ou nos jumpscare para realmente entregar alguma coisa de certa forma assustadora.

Oliver Finnegan, Olwen Fouéré, Dakota Fanning e Georgina Campbell em cena de Os Observadores. Courtesy of Warner Bros. Picture/Courtesy of Warner Bros. Pictur – © 2024 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved

E uma das poucas coisas que funcionaram para mim é que ao longo do filme todo, o sentimento de inquietação e tensão é sentido e  Shyamalan filha acerta nesse quesito aqui com Os Observadores. Afinal, o longa nos apresenta para os personagens principais que estão presos, isolados em uma mistura de casa/galpão/ bunker pós-apocalíptico com uma grande janela, e que não podem sair a noite por conta de uma ameaça noturna do lado de fora. E seja por conta da trilha sonora, ou da ambientação mais escura e fantasmagórica que temos aqui no filme, é que ele ganha esse aspecto de suspense bacana e que realmente a diretora Shyamalan consegue apresentar com o projeto. 

Será será que somente isso sustenta o filme? Não! Mas o elenco até que está bem para ajudar na criação desse mistério. De Dakota Fanning (vindo com esse e com a série Ripley na Netflix) que entrega uma personagem realmente complexa e que varia entre ser uma figura detestável para uma que o espectador consegue se relacionar quando mais descobrimos sobre ela e seu passado para Georgina Campbell que vem do excelente terror Noites Brutais, onde aqui é a melhor atuação que o longa tem, e até mesmo para o relativamente novato Oliver Finnegan como um jovem meio esquisitão e também para Olwen Fouéré que aqui interpreta uma personagem cheia de segredos sobre o lugar onde esses personagens estão e está muito melhor que sua participação no outro terror estrelado por ela no ano, O Tarô da Morte.

Shyamalan filha então usa a personagem de Fanning, a jovem com um passado conturbado Mina, para ser os olhos do espectador para essa história toda, quando a jovem se perde na floresta em uma missão para levar um pássaro do lugar que trabalha para um zoológico e cruza caminho com a figura misteriosa de uma senhora pálida com cabelos brancos que ela descobre se chamar Madeline (Fouéré). Vemos, então, pelo ponto de vista da personagem, a trama se desenrolar na medida que ela se vê perdida na floresta, sem como voltar para casa e precisa decidir se acredita ou não no que a senhora diz para ela sobre os mistérios que cercam o lugar, e as regras que esses personagens precisam seguir nesse lugar isolado e com paredes de vidro: Não dar as costas para o janelão, não abrir a porta de metal depois do pôr do sol, e sempre se manter na luz.

Como diretora, Shyamalan filha realmente entrega uma atmosfera de suspense convidativa, em que brinca com as principais questões que esses personagens tem e vivem, mas quando analisamos a parte em que Shyamalan filha adapta o roteiro do livro para o filme é que está o problema. Afinal, é aqui que Os Observadores sofre ao contar a história do livro em outra mídia, o cinema. Estruturalmente o filme segue sua narrativa com um começo mais tranquilo até por ir trabalhar na história para chegar no seu ápice, entrega algumas reviravoltas e explicações que até podem soar interessantes quando foram explicadas no formato textual, mas aqui, como produto cinematográfico, a forma como Shyamalan escolheu  contar essa história nas telas, meio que é apresentado apenas me soou jogado, sem muito impacto visual ou narrativo.

Olwen Fouéré, Oliver Finnegan, Dakota Fanning e Georgina Campbell em cena de Os Observadores. Courtesy of Warner Bros. Picture/Courtesy of Warner Bros. Pictur – © 2024 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved.

Os Observadores sofre em seguir e desenvolver todas as respostas para as questões que apresenta e cai na fácil armadilha de quando temos produções com perguntas que soam mais interessantes que as respostas que são dadas. E principalmente quando os moradores do bunker descobrem mais sobre as ameaças que os cercam toda noite e claro sobre a figura do misterioso O Professor que foi a primeira pessoa a estabelecer algum tipo de contato com essas ameaças e basicamente criou todas as regras que eles passam meses seguindo.

Na medida que a jovem Mina usa seu passado atribulado (que conhecemos mais ao longo que o filme se desenvolve) e “sua rebeldia” para ir contra as regras, Os Observadores ganha um ritmo um pouco mais frenético enquanto joga como se fosse uma avalanche de informações para os personagens, e que eles precisam bolar um plano para correrem das ameaças enquanto ainda está de dia. Sinto que o texto de Shyamala filha não consegue trabalhar nas sutilezas para criar, para nós os espectadores, os tipos de questionamentos sobre a trama que os próprios personagens têm sobre o lugar que eles estão, e também quem são essas figuras, por que eles estão ali, qual o formato deles e toda a mitologia que é despejada logo quando o longa parte para vermos o plano de grupo em prática. 

E até mesmo lá pelos momentos finais, quando tudo parece ter se ajeitado (aqui, sem spoilers), Os Observadores brinca com a inteligência do espectador enquanto estabelece mais 10, 20 minutos de trama só pelo fato de termos mais uma reviravolta. Como que fosse obrigação, por ser um filme do gênero, termos mais de uma. Se formos olhar como capítulos literários, isso serve muito bem como um prólogo, mas como um filme? Não colou.

No final, fica claro que Shyamalan filha consegue fazer uma estreia até que sólida na direção e por ser seu primeiro longa nessa, e em outras posições, dá para compreendermos o motivo que muitas das coisas que não rodaram certinho em Os Observadores. Mas mesmo assim, no final, Shyamalan filha se mostra uma diretora com potencial para seguir o caminho de Shyamalan pai e uma para ficarmos de olho, e observar, o que vem pela frente nessa carreira. 

Nota:

Os Observadores está em cartaz nos cinemas nacionais.

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