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Matrix Resurrections | Crítica: Novo capítulo da franquia faz um agrado visual para os fãs e iniciantes

Sem dúvidas nenhuma a franquia Matrix é um marco para a história do cinema. O primeiro filme foi dos precursores do que chamamos hoje em dia de blockbuster e mudou a forma como Hollywood lidava com esses filmes de ficção científica. Lançado no finalzinho da década de 90, Matrix trouxe questões complexas sobre a relação homem e máquina e entregou um filme com efeitos visuais impressionantes para a época em si.

ALERTA DE SPOILER!

Este artigo contém informações sobre os principais acontecimentos da série/filme. Continue a ler por sua conta e risco.

E a ressurreição da franquia chega agora, nos cinemas nacionais, em 2021 e tenta repetir o feito no meio de longas de heróis e outros blockbusters. Matrix Resurrections (2021) chega com direção de Lana Wachowski, e estreia em uma Hollywood que foi profundamente afetada pelos desdobramentos que Matrix trouxe para a indústria. Uma também que foi afetada pela pandemia e pela popularização do streaming, vale lembrar. E com isso, os roteiristas Wachowski, David Mitchell e Aleksandar Hemon trazem uma atualização da história, onde ao mesmo tempo tentam agradar os fãs da franquia e ainda introduzir a história para os iniciantes, onde o estúdio que produz a franquia está ávido em colocar no catálogo do seu streaming com novas produções.

Não dá para negar que Matrix Resurrections entrega um blockbuster à altura de competir com os maiores lançamentos do ano, e sim, o novo longa fecha 2021 com uma nota alta, talvez um pouco eclipsada por outros lançamentos, mas também se formos pensar talvez o longa seja para um público bem, mas bem específico.

Foto: Warner Bros Pictures

E se a palavra da vez em Hollywood é nostalgia, Matrix Resurrections faz isso seu mantra, seu norte, e usa e abusa dessa palavrinha para fazer o longa funcionar. E funciona.

Aqui, o que temos é um quarto filme de Wachowski (Lana, que voa solo sem a irmã Lily) que junta o sentimento de nostalgia dos primeiros filmes da franquia para criar uma trama completamente nova e que novamente brinca com as questões de realidade, inteligência artificial e livre arbítrio. Matrix Resurrections já abre em um ritmo alucinante, ao deixar o espectador aflito com o que será que está acontecendo quando o filme começa. Ao colocar os personagens que conhecemos e achamos que tivessem morrido de volta para a posição central da história, Matrix Resurrections brinca em seus primeiros momentos em mostrar e nos fazer questionar, se tudo aquilo que vimos nos primeiros três filmes era mesmo real. Por exemplo, se o personagem de Thomas (Keanu Reeves em seu estado mais Keanu Reeves possível) não era só um cara com uma mente criativa que trabalha na indústria de vídeo-games e que criou tudo aquilo que a franquia nos mostrou, onde tudo no final não se passava de um grande jogo on-line criado por uma grande corporação e que ele precisava reportar tudo para seu chefe (Jonathan Groff, ótimo). 

Assim, as sacadas do roteiro em fazer piada com a situação que passa no filme, sobre Matrix ser um jogo popular (e aqui no mundo real é um filme bastante popular), e a auto-referência para a indústria de Hollywood em si, é muito bem vinda sim. A tática foi utilizada já em outros filmes de 2021 como Free Guy – Assumindo o Controle e até mesmo Space Jam – Um Novo Legado, mas aqui em Matrix Resurrections, o roteiro faz isso de uma forma muito mais interessante, muito mais escancarada e que realmente foi feita para mirar no público alvo que o filme quer: os fãs. Os fãs e suas eternas batalhas contra outros fãs, contra os executivos, onde são eles contra o mundo, uma coisa que não deixa ser uma realidade aqui no mundo real também.

O trio de roteiristas acerta muito bem em introduzir a audiência para esse começo em Matrix Resurrections, onde não deixamos de ver a hacker Bugs (Jessica Henwick) em busca de Thomas, e fazer com que o personagem desperte e se torne o Neo que conhecemos aquele que no vídeo voa, impede balas no ar e usa um óculos preto com capa super estiloso. E a jornada também não para por aí… precisamos também achar Morpheus, agora aqui interpretado por Yahya Abdul-Mateen II que assume o lugar de Laurence Fishburne, mas com uma bela explicação, e claro Tiffany, quer dizer Trinity (Carrie Anne-Moss, aparece pouco mais está muito bem) uma mãe com dois filhos e um marido um pouco controlador.

Foto: Warner Bros Pictures

E com isso o longa começa no acelerador, com o espectador de volta para esse mundo, com a busca de Bugs, onde Henwick não se deixa eclipsar pelos nomes mais famosos do filme e tira de letra o papel que lhe é dado, pelos personagens principais da franquia que uma parte muito bacana de ser assistir, onde os efeitos não deixam nada desejar. E inclusive fazem um dos pontos altos do filme. Aqui o trabalho de produção do filme entrega passagens com um trabalho de VFX que são tão vívidos, tão espectaculares que nos fazem sentir dentro do filme.

Matrix Resurrections pode não ser o maior filme de 2021, mas tem os melhores efeitos do ano até agora para um filme do gênero. Assim, o longa consegue ir por brincar novamente com as questões de livre arbítrio, escolhas, e destinos e que no final quase tudo é uma ilusão. Com um tom divertido e debochado em várias partes, principalmente quando estamos efetivamente dentro da Matrix, seja uma reunião do time de marketing com uma irreconhecível Christina Ricci, ou em consulta com o analista com um óculos chamativo interpretado pelo ator Neil Patrick Harris, tudo parece meio deslocado, como se fosse uma sátira de alguma coisa, ou até mesmo um esquete de programa de auditório, no estilo Saturday Night Live.

E isso dá o tom para Matrix Resurrections. O longa não se leva muito a sério, uma mudança para o que os outros filmes queriam passar, e fica claro que Wachowski está mais preocupada em se auto-referenciar com as cenas dos filmes antigos que passam em grandes telões, ou com personagens por dizerem frases clássicas dos filmes antigos mas com outros atores dizendo elas e as cenas se mesclaram, do que efetivamente contar uma nova história, uma continuação propriamente dita. O que temos aqui é uma nova história, um novo capítulo. Matrix Resurrections soa como um filme que foi feito para agradar os fãs e trazer todos esses personagens de volta e falar sobre isso durante o filme seja a forma que a diretora encontrou para desviar um pouco a atenção da história que será contada mais uma vez aqui. E quando Wachowski para de brincar com as questões que permeiam o filme, o longa começa a dar respostas, e vemos a trama se firmar e os personagens realmente mostram suas reais identidades fora da persona perfeita criada dentro da Matrix.

E no meio de diálogos, monólogos e cenas contemplativas, Matrix Resurrections entrega algumas boas sequências de ação, seja em lutas mão a mão (Reeves e Groff tem uma lá para metade do filme que é sensacional), ou até mesmo dentro das cápsulas que as versões reais vivem e estão em luta também fora da Matrix. Ao mesmo tempo que sinto que temos poucas cenas que são efetivamente memoráveis, Matrix Resurrections entrega bons momentos, seja na luta na cidade de IO liderados pela General Niobe (Jada Pinkett Smith) e até mesmo dentro da própria Matrix quando os personagens precisam decidir finalmente seus destinos mais uma vez.

Particularmente acho que Reeves e Moss estão bem, mas muito no piloto automático depois de muitos anos. Sem dúvidas é bacana ver os dois de volta, mas os destaques ficam com os novatos que parecem que entregam muito mais para a franquia e para o filme. É o caso de Groff, Harris e Henwick que roubam as cenas e seus personagens realmente movimentam a trama. 

Matrix Resurrections faz o retorno para a Matrix acontecer de uma forma muito interessante e entrega uma deliciosa piração total em algumas partes juntamente com umas questões existenciais que são debatidas e re-debatidas. No final, os efeitos visuais foram as coisas que mais me chamaram atenção e tem coisa que mais define Matrix do que isso?

Avaliação: 3.5 de 5.

Matrix Resurrections chega nos cinemas nacionais em 22 de Dezembro.