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Judas e o Messias Negro | Crítica: Narrativa envolvente com ótimas atuações

O mais interessante é que Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah, 2021) é o terceiro filme de um grande universo de produções que Hollywood fez, e lançou numa curta janela de tempo, e que retrata, acontecimentos importantes ao longo dos anos 60 lá nos EUA e que falam sobre os movimentos de luta contra o racismo e da segregação racial. E claro que cada um deles, acaba por focar um pouco em algum ponto de vista especifico, mas talvez Judas e o Messias Negro seja o mais abrangente de todos.

O longa conta uma história que ao mesmo tempo foca em um grupo de amigos, ah lá Uma Noite em Miami (2021), mas também conta uma história sobre interferências do governo em organizações de resistência (como foi em Os 7 de Chicago (2020)). E aqui, faz um filme extremamente pessoal, que acerta ao entregar uma narrativa super envolvente para quem pouco sabe dos eventos, e de tudo que aconteceu com o jovem Fred Hampton quando o mesmo esteve à frente do Partido dos Panteras Negras, foi traído pelo colega William O’Neal, e assassinado aos 21 anos. 

Judas e o Messias Negro – Crítica
Foto: Warner Bros. Pictures

Poder para o povo, até mesmo para os informantes do FBI. E Judas e o Messias Negro foca muito mais em apresentar essa figura polemicamente divisiva que foi O’ Neal do que efetivamente contar a história de Hampton. O longa abre com imagens de uma entrevista (a única!) que ele deu para o canal PBS nos anos 80, onde vemos o rapaz contar um pouco sobre os eventos lá nos anos 60 que levaram à morte de Hampton por conta de suas ações ao se infiltrar na organização e passar as informações para um agente do FBI.

E a recriação histórica que os produtores criaram para o filme é impressionante, desde das roupas, até mesmo os cabelos, o tom de voz e a forma como as cenas foram tratadas e editadas, mas realmente o que é um show à parte são as atuações. LaKeith Stanfield como O’ Neal e Daniel Kaluuya como Hampton apenas comprovam que os atores realmente foram escolhidos à dedo e entregam aqui ótimas atuações e acabam por serem os pontos altos do filme.

Afinal, Judas e o Messias Negro tenta e muito criar uma aura de suspense, como um bom filme de máfia, mas não é bem efetivo nessa missão, e basicamente funciona como o esperado dentro da narrativa de um filme sobre o tema de mostrar uma pessoa infiltrada em uma organização e aquele tom de “o que será que vai acontecer com ele”?.  E aqui, bem, se você souber um pouco de História, talvez a experiência fique arruinada para você.

 Judas e o Messias Negro entrega uma narrativa envolvente com ótimas atuações de Daniel Kaluuya e LaKeith Stanfield.
Judas e o Messias Negro – Crítica
Foto: Warner Bros. Pictures

 Mas como falamos, Judas e o Messias Negro não seja sobre o filme em si, e sim, sobre aproveitar as atuações do elenco principal que realmente está muito bem. Kaluuya tem cenas do discursos muito boas, e realmente, captura a essência de Hampton muito bem, principalmente naquela que vemos no trailer, em que o personagem prega para o Partido e fala: “Eu sou… um revolucionário” que realmente poderosa demais de se assistir e que se junta com o contexto do filme e realmente é impossível não ficar arrepiado.

E Stanfied tem algumas passagens muito boas também, principalmente nos momentos que se reune com o seu contato no FBI, o agente Roy Mitchell (Jesse Plemons) que basicamente o força a trabalhar infiltrado e onde paralelamente vemos o personagem a começar a ficar intimamente conectado com o dia-a-dia do Partido, e começar a notar o que esse grupo de pessoas fazem para ajudar a comunidade de Chicago.

Assim, Shaka King que também escreve o roteiro do longa com Will Berson, usa toda essa atmosfera carregada, aliada com uma trilha sonora bem marcante, para contar essa história e para ao mesmo tempo mostrar o dia-a-dia do partido com suas causas sociais e até mesmo a busca por poder com as outras facções rivais (uma de pessoas brancas e outras de porto riquenhos)  que dividiram a cidade, até mesmo com o cerco que o FBI fazia contra todos eles. E como um cara que dava golpes e roubava carros foi parar na lista de informantes e se tornou Chefe de Segurança da organização e por anos passou informações para o governo. Enquanto a situação com o governo aperta, e a organização de Hampton fica encurralada, a posição de O’Neal,  a cada minuto fica um triz de ser exposta.

“Onde quer que haja pessoas, há poder”. Como Judas e o Messias Negro bem fala, e realmente é visto nos outros filmes citados acima, Malcolm X e Martin Luther King Jr. também foram pessoas importantíssimas para o movimento nos anos 60 e que também foram silenciadas. E A forma como Hampton conduzia seus discuros e servia mesmo como um grande motivador e uma figura de união, o tal do Messias Negro do título é muito bem trabalhada e meio que serve para focar nos aspectos positivos e importantes para a luta contra o governo e as organizações de inteligência do governo que perseguiam as minorias.

No final, Judas e o Messias Negro se apoia nessas figuras histórias e faz um paralelo super interessante sobre os recentes acontecimentos nos EUA e que mostra é preciso ter conhecimento do passado para vermos com um outro olhar a situação do presente, e que algumas das coisas são como uma trajetória circular, e às vezes, basta apenas uma voz no meio de muitas se levantar para termos uma revolução.

Avaliação: 3.5 de 5.

Judas e o Messias Negro está disponível nos cinemas nacionais.