Depois da trilogia original do Homem-Aranha e das diversas participações do personagem em filmes subsequentes do MCU até Vingadores: Ultimato, a grande questão era: para onde ir com o Amigão da Vizinhança?
E depois que o final de Sem Volta Para Casa mudou a relação de Peter Parker de Tom Holland com os outros personagens do MCU (dos amigos, para os vilões e até mesmo os colegas Vingadores), era curioso teorizar qual seria a próxima grande história do personagem já que agora, enfim, Peter tinha passado da fase de ser um adolescente no colégio que descobriu poderes e habilidades e se encaminharia para ser um jovem adulto e Homem-Aranha clássico dos quadrinhos, que foi tão bem representado nos filmes do diretor Sam Raimi lá na década de 2000.
E aqui, Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, 2026) faz sim um novo início para Peter Parker e o Aranha, sendo visualmente o filme mais robusto do personagem até então e que narrativamente serve para seguir a história de Peter em Nova York, fazê-lo funcionar dentro da engrenagem do MCU com diversos heróis urbanos, e ainda ajudar a servir como um pontapé para a nova fase da Marvel nos cinemas que vem sendo anunciada aos poucos: a fase mutante.
E se em Longe de Casa (2019) tivemos um flerte com a questão do multiverso (saudades Mysterio, um dos melhores vilões) e em Sem Volta Para Casa (2021) com as variantes (do herói e dos vilões) e as incursões, é a vez de Homem-Aranha: Um Novo Dia falar sobre amadurecimento, evolução e mutação. Enquanto o filme trabalha com esses assuntos mais cerebrais e garante algumas boas surpresas e revelações, Daniel Destin Cretton (vindo de Shang-Chi e de Wonder Man) nos presenteia e deslumbra com cenas maravilhosas do Homem-Aranha não só sobrevoando as ruas de Nova York enquanto caça bandidos variados e ajuda a polícia, aqui representada pela detetive DeWolff (uma ótima Liza Colón-Zayas, que capitalizou muito bem o prestígio pós-Emmy pela série O Urso), mas também realmente fazendo o trabalho pesado de ser o vigilante amigão da vizinhança que, durante um tempo, foi a grande marca do Aranha de Tobey Maguire.
Cretton homenageia o que Raimi fez, sem dúvidas, mas vai ainda mais além e meio que redefine a figura do Homem-Aranha em Nova York para uma nova geração. As cenas são vibrantes, elétricas e visualmente empolgantes de se assistir. É notada a influência, por exemplo, dos jogos do personagem (que claro, foram lançados para PlayStation, a divisão de games da Sony, a empresa da divisão de filmes). É tudo muito dinâmico, ágil, e em muitos dos momentos estamos em primeira pessoa, ou muito próximos de Peter, enquanto ele salta, solta teias e perambula pela cidade, desenvolvendo uma relação simbiótica com as ruas e a população em si.
A cidade de Nova York retorna mais uma vez a ser um personagem para os filmes do Homem-Aranha e não apenas uma locação. E isso também se conecta intrinsecamente com o que a narrativa de Homem-Aranha: Um Novo Dia quer contar para o momento que Peter vive: sozinho num cidade gigantesca, sem amigos e jogado de cabeça no trabalho.
E é como se Homem-Aranha: Um Novo Dia fosse um grande compiladão de coisas que funcionam para a figura do Aranha, e como falei, sua presença no MCU e o que vem por aí pela frente. Afinal, Homem-Aranha: Um Novo Dia não só trabalha para mostrar a evolução de Peter Parker como humano e pessoa, mas também como Homem-Aranha, onde fica claro que quanto mais o personagem foca em um, mais ele deixa o outro de lado.
E o bloco inicial do longa foca muito nisso, até mesmo de apresentar a vida de Peter sem os amigos MJ (Zendaya, ótima e com cenas bem interessantes do ponto de vista dramático) e Ned (Jacob Batalon), e também o Homem-Aranha lidando com diversos bandidos da lista de vilões dos quadrinhos, desde a organização criminosa conhecida como Tentáculo até o Lápide (Marvin Jones III) e o Escorpião (Michael Mando). E quando a narrativa coloca o personagem no meio de uma nova aventura que se aprofunda no Departamento de Controle de Danos, uma organização governamental que já vem surgindo nos últimos anos no MCU e que aqui apresenta a figura do chefão da divisão, Bill Metzger (Tramell Tillman, vindo da popularidade de Ruptura e também depois de ter levado o Emmy para casa), as coisas só se intensificam para contribuir para a pressão que o personagem tem passado.
E enquanto o Homem-Aranha lida com uma ameaça que toma conta das pessoas e pula de mente em mente, Peter precisa também da ajuda de alguns colegas que povoam o MCU e que garantem bons momentos e boas dinâmicas com o personagem. Seja o Justiceiro de Jon Bernthal, o Professor Banner e o Hulk de Mark Ruffalo e até mesmo um outro personagem do MCU que dá as caras (realmente só as caras mesmo, quando vocês virem vão entender, risos) e garante boas risadas com sua aparição.
Todos eles servem como apoios para Peter nessa jornada, crise de identidade, por assim dizer, e se mesclam na história de uma forma que é bem-vinda para o filme, de certa forma e que ajudam a popular Homem-Aranha: Um Novo Dia e não deixar o filme a ficar com tanta coisa de ser introdutório assim.
Assim, o texto de Homem-Aranha: Um Novo Dia (Chris McKenna e Erik Sommers, que retornam) coloca o personagem para lidar com esses desafios de manter todos os pratos equilibrados de uma vez e consegue entregar, ao mesmo tempo, passagens realmente sombrias para o personagem. Algumas bem tristes, com discursos profundos, mas também outras realmente bem tocantes e que são a cara do tipo de narrativa que deveria ser contada com o Homem-Aranha. Mas, claro, sem deixar de contar, com pitadas do humor tradicional para um filme do Aranha de Tom Holland dentro do MCU. E é uma das coisas em que Homem-Aranha: Um Novo Dia mais acerta é isso: o tom e a forma como navega por diversos momentos. Fora que é um filme extremamente cheio de hormônios que não são bloqueados aqui de nenhuma forma, vide a quantidade de cenas em que Tom Holland aparece sem camisa nele.
E é curioso notar como boa parte dos personagens do filme se mostra conectada pelos mesmos problemas que Peter: experiências de isolamento e de dúvidas. Todos eles, Peter, Hulk, Justiceiro e a personagem misteriosa (ok, nem tão misteriosa assim, já que metade da internet já tinha uma ideia) de Sadie Sink, têm basicamente o mesmo norte narrativo aqui no filme. E todos eles estão muito bem. É o melhor em que Tom Holland já esteve como Peter/Aranha, e Jon Bernthal entrega uma nova visão para Frank que realmente tem algum tipo de complexidade maior do que as versões no streaming. E os efeitos visuais do Hulk foram os melhores que o personagem já teve. Inclusive os três tem uma cena juntos, lá no final, muito boa. Já Sadie Sink realmente se destaca aqui e entrega uma dramaticidade e ferocidade para sua personagem muito boas de se acompanhar, mesmo que a tal personagem ganhe um destaque um pouco maior lá pelos momentos finais do filme, o que levanta a dúvida de por que estamos vendo essa história ser contada agora e neste filme do Aranha.
Mas o que não deixa espaço para dúvida é a capacidade e o alcance dramático que Sadie Sink tem, mostrando que quando vermos sua personagem de volta saberemos que estamos em boas mãos com ela, e quem for aparecer ao seu lado no futuro precisará estar no mesmo nível de talento da atriz.
No final, Homem-Aranha: Um Novo Dia impressiona ao conseguir combinar e fazer com que diversos núcleos do Homem-Aranha dêem certo de uma vez só neste que promete ser um novo e empolgante capítulo na franquia do Homem-Aranha de Tom Holland. Enquanto o personagem deixa as rodinhas de treino de lado, fica claro que essa versão do Homem-Aranha ainda tem boas histórias para serem contadas nos cinemas, que devem continuar nesse caminho de unir bons visuais e efeitos especiais sem soarem genéricos ou sem vida com narrativas que realmente mostrem mais da essência dele, a qual é muito bem transportada para a telona.
O filme tem uma cena nos créditos finais, depois de todos os créditos.
Homem-Aranha: Um Novo Dia chega em cartaz nos cinemas nacionais em 29 de julho.
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