Depois do devastador, magnífico, poético Todos Nós Desconhecidos, a régua para o próximo filme do diretor Andrew Haigh estava lá no alto. E seu próximo filme, aqui intitulado Um Longo Inverno (A Long Winter, 2026), era cercado de expectativas. Afinal, o elenco que Haigh reuniu para o longa era cheio de nomes interessantes e a premissa da história (adaptada do conto de Colm Tóibín) era muito interessante.
Mas é como se com Um Longo Inverno, Haigh voltasse uma casa dentro do que é uma das fases do grande jogo da vida, uma vida com uma experiência LGBT e de amadurecimento. Claro, não se engane, Um Longo Inverno é um filme extremamente bonito e faz um bom filme. E não é só por conseguir contar uma boa história que envolve os temas da própria jornada do coming of age, mas também de gay awakening e com uma boa dose de dramas familiares.
Mas: ao mesmo tempo, o filme parece realmente estar numa categoria abaixo do que era esperado (pelo menos por mim!) após Todos Nós Desconhecidos. Claro, se no outro filme, Haigh lidava com uma outra ponta da experiência do protagonista de Andrew Scott, aqui conhecemos a figura de Mikey (um excelente Fred Hechinger), um jovem ainda em processo de autodescoberta. É quase como se: com Um Longo Inverno, Haigh fizesse sua própria versão de Heartstopper depois de ter apresentado um Looking.
É curioso notar a complexidade que o protagonista de Um Longo Inverno possui, narrativamente falando. Afinal, Mikey viveu isolado com o irmão Tommy (Kit Connor, curiosamente da mesma Heartstopper), com a mãe Louise (Caitríona Balfe) e com o pai Lester (Ebon Moss-Bachrach) nas montanhas na região oeste dos EUA.
Sem muito contato com outras dinâmicas e pessoas, Um Longo Inverno introduz muitas coisas para esse personagem ao longo do filme e, de tabela, para nós os espectadores. Mas temos que lembrar também que estamos nos anos 1950, certo?
Entre tudo o que acontece com o personagem ao longo da história, muitas dessas novas situações incluem a presença de novos homens na vida desse jovem. Claro, Haigh sabe construir bem as jogadas de câmera enquanto vemos Mikey olhar de canto de olho o irmão se trocar: e o físico de Connor ajuda a criar esse sentimento de luxúria e desejo. Ou até mesmo querer dar uma olhadinha na revista de moda feminina da mãe.
Mas: ao mesmo tempo, essas cenas, aliadas a olhares para um jovem policial (Anthony Timpano) e a chegada de um rapaz chamado Jimmy (D’Pharaoh Woon-A-Tai, visto em Reservation Dogs e no filme Um Verão Infernal estrelado também Hechinger) para trabalhar na casa da família, só ficam nos flertes e no sugestivo.
Realmente, a verdadeira relação a ser observada aqui em Um Longo Inverno não é somente sobre o despertar da curiosidade de Mikey pelo mesmo sexo: e sim a relação com seu pai, um homem de cabeça fechada, atitudes bruscas e mal instruído. Moss-Bachrach está realmente muito bem como essa figura curiosa que é presente na vida de diversas pessoas da comunidade LGBT.
O sentimento de tensão que o ator impõe toda vez que está com o filho e até mesmo em cenas com a esposa também criauma certa complexidade narrativa para o personagem que Moss-Bachrach tira de letra. É um de seus melhores papéis após o enorme sucesso de O Urso.
E a dinâmica pai e filho se intensifica principalmente depois que a mãe interpretada por Balfe (num papel fraco, sem muito brilho) some no meio da noite e abandona a família momentos antes de o inverno rigoroso da região começar.
A chegada do ajudante cria uma nova relação entre os homens da família e dá chance para o texto de Haigh apresentar certos momentos que causam um tipo de provocação narrativa bastante interessante. Mesmo que todo mundo esteja bem– e isso vale dos atores à produção (desde a fotografia até os cenários e tudo mais)– meio que Um Longo Invernonunca parece chegar a lugar nenhum em termos narrativos. E até mesmo para o protagonista de Hechinger que sempre fica em cima do muro sobre suas descobertas, desejos e sentimentos.
Para quem esperava cenas mais ousadas, ou até mesmo mais românticas, pode já entrar na sessão (ou dar play quando o filme estrear no MUBI) sabendo que temos apenas um nu frontal de Moss-Bachrach em uma cena bem aleatória lá nos momentos finais do longa.
No final, é sim, um longo inverno enquanto Mikey e Lester caminham pela neve, andam pelas montanhas junto com os policiais da cidade vizinha. Nem mesmo as participações de nomes conhecidos como Manuel Garcia-Rulfo (um amigo da família) e Martin Freeman (o irmão da mãe num papel tão qualquer nota) ajudam a dar um pouco de cor, ânimo para Um Longo Inverno que: por mais que seja bonito, contemplativo e avassalador, sofre um pouco com a falta de um sentimento de calor e acolhimento. Ou talvez a sala da minha sessão estava com o ar-condicionado no talo mesmo.
Filme Visto no Festival do Rio em Outubro de 2026.
Distribuição no Brasil: IMOVISION e MUBI. Previsão de estreia para Fevereiro de 2027.
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