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Cursed: A Lenda do Lago | Crítica 1ª Temporada: Tentativa desesperada da Netflix para ter seu Game of Thrones

E a Netflix aposta em mais uma série de fantasia, com a temática medieval, na sua busca desesperada e desenfreada em encontrar um hit como foi Game of Thrones para chamar de seu. E já avisamos, Cursed: A Lenda do Lago é mais uma tentativa frustada, mas melhor que a loucura grandiosa e cansativa de The Witcher, e infinitamente mais interessante que Carta Para O Rei, do serviço de streaming.

Cursed: A Lenda do Lago | Crítica da 1ª temporada
Foto: Netflix

E para isso, a plataforma se apoia na lenda do Rei Arthur, e nos seus personagens marcantes, para nos entregar uma grande produção, mesmo que eles, no começo, não são bem aqueles nomes que conhecemos. E fica claro, pelo menos nessa primeira temporada, que o gigante do streaming ainda patina para encontrar um grande hit de apelo global como foi a série baseada nos livros de George R. R. Martin. Cursed: A Lenda do Lago nunca deverá ser uma nova Game Of Thornes, por mais que tente a todo custo, e está mais para novela de uma emissora B brasileira.

E os motivos nem estão com o fato de Cursed: A Lenda do Lago mudar as chavinhas e trocar o protagonismo de Arthur para Nimue, conhecida na lenda inglesa como a Dama do Lago, e colocar a atriz Katherine Langford como a personagem principal. E sim, no próprio modelo da Netflix para o lançamento de suas séries. A plataforma não dá tempo para o espectador de descobrir a série, os fãs não se reúnem semanalmente ao redor da fogueira (como diria Shonda Rhimes) para juntos acompanharem as aventuras de Nimue, Arthur e o Mago Merlin e torcerem semanalmente pelos personagens, pelas batalhas sangrentas e reviravoltas. Aqui, por conta do modo de lançamento, o espectador é forçado a assistir os episódios do primeiro ano de uma forma super corrida, afinal, o timing é ver tudo no primeiro final de semana de lançamento, para se manter dentro do hype, pois na semana seguinte, novas produções já vão entrar na plataforma, e assim, semana após semana, sem tempo de ter um respiro entre os lançamentos.

E Cursed: A Lenda do Lago se beneficiaria em muito com episódios semanais. A série entrega uma rica mitologia e um novo mundo cheio de criaturas incríveis, cada uma criada com sua própria língua, seus costumes, e histórias, que acabam por serem atropeladas pela trama. Até queria saber mais sobre vários deles, mas Cursed: A Lenda do Lago não dá tempo para apreciarmos tudo que é nos mostrado. Não temos tempo para saborear os detalhes que Cursed: A Lenda do Lago apresenta, e os diversos clãs da comunidade feérica.

Os criadores da HQ na qual a série foi baseada, Tom Wheeler e Frank Miller, parecem que misturam as séries Carnival Row, da Prime Video, com Vikings, para criarem Cursed: A Lenda do Lago que coloca tudo isso com as histórias de origens dos personagens da lenda arturiana que são contadas ao longo dos primeiros 10 episódios do seriado. Aqui temos um jovem ladrão chamado Arthur (Devon Terrell) muito antes de ser o famoso Rei das lendas, sua irmã, a feiticeira Morgana muito antes de tramar planos sombrios para usurpar o trono do irmão, e claro Merlin, o mago (Gustaf Skarsgård) antes de ser aquele velinho com a barba enorme, com vestes engraçadas, e que ficou preso no imaginário popular. Eles são pessoas comuns que vivem com os humanos numa parte do reino em que temos criaturas mágicas dos mais diversos tipos, e claro, com a Igreja que está no meio de uma de suas Cruzadas para pregar as ideias do cristianismo.

E ao colocar a jovem Nimue no centro, e à frente de tudo, acaba por ser uma aposta que dá certo para a história mesmo que leve um bom tempo para situar o espectador em sua trama, e no mundo que a personagem vive, e claro, suas intenções e motivações. Ao receber uma misteriosa espada das mãos de sua mãe, Nimue tem a missão de entregá-la para Merlin, o Mago, assim, a jornada da jovem mesmo que clara, será marcada por diversos desafios e obstáculos, e isso afeta a experiência do espectador com a série. Afinal, são diversas pessoas que estão atrás da espada num verdadeiro Jogo Da Espada, para vermos quem irá possuir o artefato mágico, que funciona como se fosse um anel de O Senhor dos Anéis sabe? Ao mesmo tempo que dá poderes incríveis para aquele que o possui coloca seu usuário numa espiral de loucura e obsessão.

E para isso, Cursed: A Lenda do Lago tem muito tempo para desenvolver todos os seus personagens, pelo menos os principais, e os nomes conhecidos da lenda do Rei Arthur. O seriado por ter episódios de quase 1 hora, consegue apresentar aos poucos as histórias de cada um, e realmente se torna uma grande série de amadurecimento principalmente para Nimue, Arthur e Morgana. Como um dos personagens diz já no final do primeiro ano: Vocês são todos crianças! e realmente é isso. Estas versões de nomes conhecidos precisam lidar com o exército vermelho da igreja liderados pelo Padre Carden (Peter Mullan), o exército do Rei atual no poder, e ainda as invasões vindas do norte, ou seja, todo mundo quer a espada e comandar a região. 

Acho que a temporada é bem estruturada, para aqueles que continuam após os 2 primeiros episódios, 1×01 – Nimue e 1×02 – Cursed que são bem centrados em Nimue (Langford que está bem) e servem para apresentar a trajetória da personagem, assim como, sua vulnerabilidade e sua falta de tato por conta das situações extremas que é obrigada a viver para salvar seu povo depois que a Igreja destrói sua vila. Cursed: A Lenda do Lago consegue engrenar ao entregar as primeiras respostas para diversos questionamentos lá nos episódios 1×05 – The Joining e 1×06 – Festa and Moreii (um dos melhores do primeiro ano).

Cursed: A Lenda do Lago | Crítica da 1ª temporada
Foto: Netflix

A presença carismática de Gustaf Skarsgård, como o mago Merlin, ajuda a amortecer um pouco a grande carga de informações sobre os personagens que é jogada em tela. O terceiro irmão Skarsgård é a melhor coisa coisa da série, sem dúvidas, num personagem complexo e cheio de intenções ambíguas ao longo da temporada e com um humor bastante teatral. Em pequenas doses, a feérica Pym (Lily Newmark), a divertida melhor amiga de Nimue, e a ardilosa irmã Iris (Emily Coates) também funcionam bem. A freira é uma das personagens retiradas e copiadas de Game Of Thrones que eu acho que a cara dos produtores nem fica vermelha ao darem passagens narrativas para ela que são bem, mas bem parecidas com as de Arya da série que Cursed – A Lenda do Lago tenta ser. 

A segunda parte da temporada por mais que seja embolada ao apresentar mais dos inimigos que estão de olho na espada e que se armam para atacar Nimue e a resistência feérica, serve para começar a introduzir as tramas e conflitos que veremos em uma possível segunda temporada. É o envolvimento da irmã Igraine (Shalom Brune-Franklin) com as artes das trevas, e ainda, de Arthur que entra na linha de frente nas batalhas depois de ficar muitos dos episódios de escanteio. Cursed: A Lenda do Lago ainda tem tempo para desenvolver mais os personagens coadjuvantes como humano Rei Uther Pendragon (Sebastian Armesto) que começa a acordar para as ameaças ao seu redor, e o violento e misterioso Monge Choroso (Daniel Sharman) do exército da Igreja, onde os dois ganham novas nuances com segredos que são desenvolvidos nos episódios finais da temporada.

Cursed: A Lenda do Lago navega por estradas cheias de lama e pedras ao longo de sua primeira temporada. A Netflix, mais uma vez, parece pegar diversas coisas que deram certo nos últimos anos e colocar ali no mix para criar uma nova série, seja o star power de Langford depois do sucesso de 13 Reasons Why, ou ainda, a presença Skarsgård que estava recém saído da série Vikings, para tentar colocar um feitiço no espectador e contar novamente a lenda do Rei Arthur, agora por um outro ângulo, e de uma outra forma.

No final, se apoiar nas mesmas histórias de sempre como a do Rei Arthur, e Peter Pan, por exemplo, parece sempre ter sido uma maldição para Hollywood, onde aqui Cursed: A Lenda do Lago soa muito mais como uma tentativa falha da Netflix em se criar uma série com base no que o algoritmo do serviço de streaming entrega de dados para a empresa, do que efetivamente um bom divertimento.

Cursed: A Lenda do Lago está disponível na Netflix.

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