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Bliss | Crítica: Mistura de Matrix com Black Mirror só é cabeçudo e nada mais

Em Bliss (2021), a nova produção do Prime Video, o ditado “ignorância é uma dádiva” é aplicado à máxima. E essa mistura de Matrix com Black Mirror só acaba por entregar um filme que tenta ser extremamente cabeçudo e nada mais.

Com a popularização do streaming, os filmes menos comerciais conseguiram um espaço nessas plataformas digitais, afinal, se você não era um mega blockbuster com um orçamento na casa dos 3 dígitos, dificilmente havia um espaço para você nos cinemas e a luta para chegar na boca do povo era muito desleal. E mesmo com a pandemia, o negócio pouco mudou. E aqui, é o caso de Bliss, que mesmo com dois nomes grandes em Hollywood, tem pouco, tempo e espaço, para mostrar para o que veio. 

Bliss | Crítica
Foto: Amazon Studios

Bliss sofre também do caso que o trailer mostra muita coisa e isso acaba por prejudicar a experiência do filme, sabe? A ignorância aqui é uma dádiva, sim. Afinal, ao sermos apresentados para a trama, que até começa bem, aliás, tudo depois decorre sem muitas surpresas. Em Bliss, acompanhamos um analista frustrado, interpretado pelo ator Owen Wilson que parece caminhar para um bom ano (com esse filme, a comédia Case Comigo? e ainda a série da Marvel Studios, Loki), que parece não se conectar com o mundo frio, escuro, e sem cor que vive. Em vez de fazer seu trabalho, Greg vive por sonhar, e desenhar, em pleno horário comercial, e falha em se conectar também com os filhos Emily (Nesta Cooper) e Arthur (Jorge Lendeborg Jr.)

E nesse começo, Greg parece funcionar num ritmo estranho e diferente de seus colegas de trabalho e alguma coisa não funciona bem (um sentimento que Bliss passa, infelizmente, o filme todo). As coisas mudam quando, depois de uma situação inusitada, Greg cruza caminho com uma mistura de cartomante/moradora de rua/alucinada mulher em um bar, a intensa Isabel (Salma Hayek também num bom ano com Bliss, o filme de ação Dupla Explosiva 2 e também uma produção da Marvel Studios, o longa Eternos).

E aí que o roteiro de Mike Cahill (que também dirge o longa) abraça as conveniências para fazer a história decolar (se é que ela engrena mesmo) e coloca esses dois em uma aventura pela cidade, onde eles divagam sobre suas existências e suas vidas, afinal, Isabel tenta convencer Greg que a realidade que eles vivem não é real, e sim que eles fazem parte de uma simulação virtual. Bem Black Mirror, não é mesmo?

Mas por conta do material promocional, o mistério que cerca o fato de “Será que Isabel fala a verdade ou ela é apenas uma pessoa pirada?” perde toda a graça. Infelizmente. Bliss até entrega algumas boas ideias e passagens, principalmente quando a dupla vai patinar juntos por exemplo, onde muitas delas são apoiadas no carisma de Wilson e Hayek, sem dúvida. Os dois funcionam bem, quando separados, mas estão longe de terem uma boa química juntos. Como expectadores, nós nunca torcemos para os dois ficarem juntos, ou para eles darem certo com um casal (mesmo Isabel chamando Greg de “meu cara!”), e assim, toda essa desconexão entre os dois, os protagonistas, só fazem Bliss ser sustentado com um fiapo de ideias.

A série Upload, também da Prime Video, e a própria The Good Place, basicamente trabalham quase com o mesmo conceito praticamente e conseguiram desenvolver suas tramas de uma forma muito melhor, e mais engraçada do que Bliss. E talvez nem seja pelo fato que as duas sejam uma série com mais tempo para desenvolverem seus personagens e tramas, e o longa é um longa com começo, meio e fim, e sim que Bliss perde diversas oportunidades, e um tempo precioso em tela, para navegar por essa história e falha em criar situações e momentos que façam valer nosso envolvimento com o filme nesse período.

Ao mesmo tempo, o roteiro de Cahill coloca toda uma carga dramática (Greg precisa escolher entre Isabel e seus filhos, por exemplo) aliada com discussões filosóficas e cheia de conceitos (o que realmente tá acontecendo e como com esses nessa Matrix) que devem puxar para fora o espectador do que deveria ser história de Isabel e Greg.

Em Bliss, esperava uma comédia gostosinha e descompromissada e recebeu conceitos. 

Bliss | Crítica
Foto: Amazon Studios

Assim, Cahill segura algum tipo de reviravolta para a história o máximo que pode, mesmo que, como falamos, boa parte do que acontece esteja no trailer. E as resoluções para isso são pobremente executadas. Assim como Greg não consegue funcionar bem nesse mundo cinza, sem vida, e triste, Bliss também não encontra seu ritmo, nem mesmo quando estamos na colorida, e sem preocupações, vida do outro lado, em uma cidade litorânea que lembra muito alguma ilha mediterrânea, onde é verão e calor o tempo todo.

Os mistérios que o filme apresenta não se sustentam, os motivos de como e onde também nunca são totalmente explicados, e o filme se perde em diversas discussões que no final não vão para lugar nenhum. Nem mesmo o uso de 10 pedrinhas azuis é capaz de tirar o sentimento ruim, e de potencial desperdiçado, que Bliss entrega. Pelo menos para Wilson e Hayek, em 2021 ainda teremos outras chances para vermos os atores em outros projetos.

Avaliação: 2 de 5.

Bliss chega no Prime Video em 5 de fevereiro.  

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