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Bela Vingança | Crítica: Um provocativo olhar sobre a cultura do assédio

Promissing Young Woman, ou Bela Vingança (2020) que é como o filme recebeu o título no Brasil, estava no meu radar há muito muito tempo, desde que soube da existência do projeto que eu considerava que seria um filme promissor, assim por dizer.

E desde que a produtora americana Focus Features montou o primeiro trailer lá em Dezembro de 2019 para anunciar que longa faria sua pré-estreia mundial em Sundance, eu já fiquei de olho no longa. E quando eu vi o teaser, fiquei comprado na hora com quase tudo que o time de marketing do estúdio colocou nos nem 3 minutos de cenas: a estética visual escolhida, a atriz com a peruca colorida, e claro o tom debochado que o filme parecia que teria….

Hollywood tinha acabado de sair da grande onda de acusações de uma movimento chamado MeToo, e na época, como um homem, e totalmente fora do meu local de fala, imaginei que o filme tentaria surfar nesse espinhoso tópico que mudou a forma que não só a indústria americana de cinema encarou o assédio e a cultura do assédio, mas como basicamente todo o mundo todo. E depois de algumas representações cinematográficas não muito boas sobre isso, talvez, com Bela Vingança era a chance de termos um bom filme sobre o tema nas mãos da roterista principal da série Killing Eve, Emerald Fennell.

Bela Vingança | Crítica
Foto: Universal Pictures/Focus Features

Enfim, o longa estreou em Sundance no começo do ano passado, mas a jornada de Cassandra (Carey Mulligan) teria um oponente muito maior e perigoso, a pandemia do coronavírus. Claro, com a pré-estreia nos cinemas do festival americano, boa parte da crítica já tinha visto, e se apaixonado pelo longa da diretora Emerald Fennell (Fennell levou o Oscar de Melhor Roteiro e estava indicada na categoria de Melhor Direção) então por um lado Bela Vingança estava seguro de ter garantido a tal experiência nos cinemas, né? Com tudo que aconteceu, o que era um longa “quente” se tornou uma lembrança esquecida na memória de quem já tinha visto, e também um grande ponto de interrogação para a Focus Features que precisaria voltar com toda a campanha do filme, certo?

E foi isso que o estúdio fez, no final do ano, Bela Vingança voltou a ser o assunto, e voltou com tudo, e claro, já pavimentou um espaço dentre os filmes na temporada de premiações. E você se pergunta, depois da grande introdução, caro leitor Bela Vingança é tudo isso mesmo? Sim. Bela Vingança faz uma produção extremamente contagiante do começo ao fim, o olhar de Fennell para esse tópico, e a forma como ele é debatido, é interessantíssimo devido a importância sobre ele ser debatido. Não há cenas gráficas, não há o assédio gráfico apenas por mostrar. Fennell trabalha na subjetividade, sabemos o que acontece, e o que isso causa, a diretora apenas deixa subentendido para o espectador aquilo que já sabemos. E assim, a diretora faz com que Bela Vingança meio que beire a ser quase uma fábula, um conto de vingança ah lá Kill BIll (mas sem as matanças) entrega uma fantasia de vingança sedutora, sexy e vibrante liderada pela fenomenal Mulligan que fez valer todas as suas indicações (chegou na categoria de Melhor Atriz no Oscar e Melhor FIlme depois de toda essa jornada que citei acima) na temporada de premiação.

Bela Vingança pega carona nessas histórias de anti-herói, até comparações com o Coringa de Joaquin Phoenix eu vi on-line na época de lançamento do filme nos EUA, e até mesmo com ela, a Arlequina (Margot Robbie é produtora do filme, aliás). Acho as comparações válidas, mas o espectador precisa entender as diferenças e saber que sim, o que Cassandra faz é errado, mas a forma como ela vai riscando no seu caderninho os nomes das pessoas que não se impuseram para ajudar sua amiga em um momento difícil é muito interessante de se acompanhar. O humor sarcástico e britânico de Fennel ajuda a história, uma jornada sim dolorosa, mas super interessante de ver, e o tom característico da autora é visto e sentido em todos os momentos do longa.

Acho que a última vez que me senti assim em uma produção que me ganhou tão fácil foi ao assistir a série britânica Fleabag.  E assim como a personagem de Phoebe Waller-Bridge (que passou o bastão de Killing Eve para Fannell) Cassandra também lida com um poderoso e devastador luto, onde na medida que descobrimos mais sobre seus planos e suas intenções, a personagem ganha mais camadas e camadas e se torna muito mais que apenas uma ex-estudante de medicina promissora que agora passa seus dias indo em bares para fingir estar bêbeda e se vingar dos homens que tentam a assediar numa busca por vingança desenfreada. Como diz o ditado, “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas”, acho que é exatamente isso que Bela Vingança quer passar… é mostrar que o poder da perda para Cassandra foi tão grande, tão intenso que ela viu que a única maneira de ir em frente seria apenas ir em frente sem freios e sem nenhuma parada.

Bela Vingança | Crítica
Foto: Universal Pictures/Focus Features

Ou quase isso, como pudemos ver no longa quando um ex-colega de faculdade aparece do nada, o Dr. Ryan (Bo Burnham) e tenta conquistar o coração dessa jovem numa síndrome do Príncipe Encantada em um cavalo branco.  Ao assistir o filme, fiquei como um certo receio que Fennel fosse levar a trama para um determinado lado quando vemos a relação de Cassandra e Ryan, em que a jovem esqueceria dos seus planos e tudo que a levou até ali, mas a diretora que também é roteirista (repito pois acho importante lembrarmos) para saber muito bem para onde conduz a trama, e grande parte do acerto de Bela Vingança nas reviravoltas e no grande turbilhão de emoção em seus momentos finais.

Fennell traça uma linha, na medida que os capítulos que coloca para deixar o espectador tomar um ar, ao longa da jornada de Cassandra por vingança, e não só pelos homens desconhecidos que ela encontra nos bares, e sim como todas as pessoas na qual ela julgou serem importantes para o desenvolver da história. Assim, vemos Cassandra cruzar em diferentes momentos do filme, seja com ex-colega de faculdade Madison (Alison Brie) ou com a reitora interpretada pela atriz Connie Britton, ou com os diversos caras que aparecem ao longo do filme (Adam Brody, Sam Richardson e Chris Lowell). E  ao fazer isso garante que o espectador sairá impactado e deslumbrado com a força da atuação de Mulligan que realmente se garante nos momentos mais dramáticos e intensos que Bela Vingança apresenta.

No final, ao unir uma excelente e chiclete trilha sonora, Bela Vingança faz um longa sobre olhar para frente na busca de que o mundo acabe sendo um mundo melhor, onde pelo menos as mulheres sejam tratadas de uma forma melhor. E no final, quem não quer isso, não é mesmo?

Avaliação: 4 de 5.

Bela Vingança chega nos cinemas nacionais que estiverem abertos em 13 de maio.

A Universal Pictures nos enviou o filme para assistirmos em casa para fazer essa crítica.