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Antebellum | Crítica: Suspense com Janelle Monáe funcionaria melhor como episódio de Lovecraft Country

Vamos começar aqui falando que não entendemos o hype negativo desse filme teve. Claro, Antebellum (2020) tenta a todo custo ser um novo corra! (Get Out, 2018), e que acaba por tropeçar ao longo do caminho, mas nem por isso deixa de entregar um bom filme que faz uma crítica feroz sobre as relações raciais no EUA moderno e que ecoa no passado escravocrata do país.

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Antebellum – Crítica
Foto: Lionsgate

E mesmo cercado de um hype gigante no começo de sua campanha de marketing, cheia de mistérios e diversas teorias do que poderia ser sua história, Antebellum – que chegaria com o título nacional de A Escolhida por aqui – opta por um caminho mais pé no chão e se livra de qualquer amarra sobrenatural, mística, ou de ficção científica que poderia ter. Uma pena, afinal com o longa temos um suspense mais realista e que não chega propriamente dito a decepcionar, mas com certeza entrega menos do que pareceu oferecer num primeiro momento. 

 “O passado nunca está morto. Nem sequer passou.” E o longa abre com nossa protagonista, a atriz Janelle Monáe num bom ano, como uma sofrida escrava que vive em uma plantação de algodão e logo de cara nos levanta a questão, cadê aquela Monáe belíssima, moderna, e super independente que vimos na campanha de marketing, e os nos trailers? Pois é, cadê? Antebellum começa com uma intensa cena de abertura, muito bem filmada que nos apresenta essa fazenda de época da guerra civil americana e como os senhores (brancos!) de um casarão lidam com seus escravos de uma forma brutal e com a morte de uma escrava que desencadeia tudo. E claro, por mais que o filme se apresente fiel para esse contexto histórico, tudo é um pouco desconexo nesse primeiro momento, como se estivéssemos em um episódio de Westworld, sabe? Onde os personagens não agem como deveriam para aquela realidade, e não estão 100% lá, afinal temos trocas de olhares, pequenas frases, e uma sensação galopante que alguma coisa está bem errada.

 E com isso, o roteiro da dupla Gerard Bush e Christopher Renz que também dirigem o longa, navega pela dura vida que os escravos levam na plantação e com a chegada de novos deles, a novata Julia (Kiersey Clemons), é que o filme mostra de uma forma angustiante como eles são tratados: permissão para falar só quando Capitão Jasper (Jack Huston), ou quando os donos do lugar (Eric Lange e Jana Malone) deixarem. O personagem de Lange, o dono do lugar ainda tem uma casinha separada onde mantém a escrava Eden (Monaé) junto com ele.

Antebellum tem momentos que a trama clica e muda, três viradas interessantes para a forma como Bush e Renz querem contar sua história. Assim, além de conhecermos Eden, conhecemos também Verônica (Monáe também) a tal jovem que vemos no trailer, uma mulher casada, mãe de uma garotinha e que é uma escritora de sucesso que sai em turnê para promover seu novo livro de sucesso. E a atuação de Monáe muda completamente, sua nova personagem tem um sorriso largo no rosto, está super confortável com tudo, se veste com roupas coloridas e um batom que chama atenção. E aqui, as coisas parecem que estão no seu lugar, sabe? onde Antebellum acerta em nos deixar com a pulga atrás da orelha sobre como essas duas personagens se conectam nessa trama. Milhares de teorias passam em nossas cabeças, mas o filme segue, nos apresenta Dawn (Gabourey Sidibe, ótima e um alívio cômico para o todo o drama que vemos na parte de época), a melhor amiga de Verônica que a chama para uma saída das garotas após uma conferência durante a turnê do livro. E assim, o filme, começa a nos dar pista do que poderia estar errado com Eden, afinal, personagens das duas linhas do tempo começam a surgir, como é o caso de Elizabeth (Malone, também).

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Antebellum – Crítica
Foto: Lionsgate

 E Antebellum nos segura na cadeira – ou no sofá como foi o meu caso, afinal o longa também chegou aqui nas plataformas digitais – para saber o que diabos acontece com esse filme e seus personagens? O terceiro clique vem e nos entrega alguma coisa no estilo Jordan Peele em seu Além da Imaginação e nos faz sentir que deveríamos estar mesmo em um episódio de Lovecraft Conuntry da HBO.  E a reviravolta chega até ser interessante, mas assim como muitas dessas produções do gênero a parte das teorias, de confabular o que está certo e errado é muito mais interessante do que a resposta em si propriamente.

Antebellum abusa de cenas incríveis e passagens visualmente de fazer cair o queixo, principalmente uma que envolve Verônica (ou seria Eden?) com uma tocha de fogo, mas, no final, o longa parece se apoiar muito mais nelas e na presença incrível que Monáe emana em tela do que efetivamente trabalhar e caprichar no seu texto. Afinal, depois que descoberto o mistério precisamos torcer para que ambas as versões da personagem de Monáe consigam aquilo que querer se libertar de seus passados.

O longa trabalha a todo tempo com pistas que nos dão dicas do que realmente acontece, mas também falha em criar toda uma aura que não segura o filme quando realmente entrega suas respostas. 

Antebellum mostra que diversas coisas do passado estão ainda enraizados nos comportamentos da sociedade, seja nas pequenas agressões não faladas, nos olhares de desaprovação, ou ainda em pequenas situações como um problema com um quarto em um hotel, ou uma mesa em um restaurante elegante e aqui tenta fazer de forma visual toda uma crítica sobre o que mudou e o que não mudou.

No final, Antebellum poderia ter um pouco mais de capricho para contar sua história mesmo que a faça de uma maneira instigante para queremos ver como vai terminar.

Avaliação: 3 de 5.

Antebellum está disponível nas plataformas digitais.

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