american godsDestaques Reviews Séries & TV 

American Gods | Primeiras Impressões – 3ª Temporada: Série ainda tenta se encontrar

É inevitável não apontar todos os problemas que American Gods enfrentou ao longo do caminho. Depois do sucesso da primeira temporada, vimos a inesperada saída dos produtores Bryan Fuller e Michael Green – e também das atrizes Kristin Chenoweth e Gillian Anderson. E no início de 2018, Jesse Alexander e Neil Gaiman, o autor do material original, foram anunciados como co-showrunner da segunda temporada.

Porém, nada saiu como o previsto com a retirada de Alexander da produção meses depois, deixando a maior parte da temporada nas mãos dos produtores Chris Byrne e Lisa Kussner. Para a terceira temporada, as mudanças continuaram e causaram bastante impacto. Os atores Kahyun Kim (New Media), Mousa Kraish (Djinn) e Pablo Schreiber (Mad Sweeney) saíram da série e Charles H. Eglee foi contratado como novo showrunner, trabalhando ao lado de Gaiman na nova temporada.

Mas foi a demissão de Orlando Jones, ator que interpretou Mr. Nancy, que mais causou barulho.  O ator compartilhou um vídeo nas redes sociais que Eglee considerava que a raiva do seu personagem “manda uma mensagem errada para os negros dos Estados Unidos”. A demissão de um dos personagens mais amados e importantes da série repercutiu nas redes sociais e gerou questionamentos sobre o futuro do programa.

Oficialmente, Eglee explicou que as demissões foram feitas porque a nova temporada focaria em um trecho do livro onde esses personagens não aparecem.

Americans Gods – 3ª temporada
Foto: Prime Video/Starz

Essa mudança de direção de American Gods é perceptível nos quatro primeiros episódios que pude assistir da terceira temporada. A história continua de onde a segunda temporada terminou, com Wednesday (Ian McShane) em sua busca para montar uma equipe de antigos deuses para a guerra que se aproxima contra os novos deuses.

Enquanto Wednesday angaria aliados, Shadow Moon (Ricky Whittle) busca viver uma nova vida como Mike Ainsel e tenta se afastar do seu passado recente com o complexo ex-empregador. Focando em sua vida na pequena cidade de Lakeside, em Wisconsin, Shadow rapidamente se aproxima dos receptivos moradores e se vê parcialmente envolvido em uma misteriosa subtrama sobre desaparecimento.

Mesmo com todas as óbvias mudanças feitas, American Gods sofre com uma falta de sutileza que é desconcertante. Existe um excesso de efeitos especiais e cenas com sangue jorrando para todos os lados, mas pouco é realmente dito na maioria desses momentos presentes nos quatro primeiros episódios.Esses exageros visuais são usados para esticar a narrativa e repetir informações que já foram ditas antes, causando um inevitável cansaço no espectador que espera que a narrativa avance.

É perceptível que a série ainda tenta encontrar o tom e o caminho certo para a história, deixando claro que o programa busca realinhar a trama sem tocar completamente na narrativa dos personagens deixados para trás. Embora a trama de American Gods tenha sofrido problemas de direção narrativa, sempre existiu uma preocupação com a estética criada para a série.

Entretanto, a terceira temporada não consegue entregar as intenções por trás das escolhas visuais. Enquanto víamos grandes cenas que passavam informações importantes sobre a narrativa global, o CGI (efeitos especiais) torna a terceira temporada de American Gods um material visualmente deslumbrante – o orçamento em CGI parece altíssimo e foi muito bem gasto -, mas pouco colabora para desenvolver a trama como deveria.

Ao abusar dos efeitos de pós-produção apenas para dar volume para a temporada, a história se torna rasa ao se estender demais. Neil Gaiman é um escritor que sabe exatamente como desenvolver suas histórias sem perder o ritmo em nenhuma delas. American Gods peca em não herdar essa inegável habilidade.

Um bom exemplo da falta de desenvolvimento convincente está na contínua busca de Wednesday por aliados. Sua preparação parece não ter fim e todos continuam dispersos demais nos primeiros quatro episódios. Cada personagem está lidando com as próprias questões e a grande guerra é mais falada do que propriamente desenvolvida. A sensação é que falta visão depois de tantas modificações e a nova temporada tenta direcionar o material para algo mais próximo do livro.

Entretanto, o roteiro oscila ao tentar se aprofundar no papel dos deuses na história da humanidade, além de criar uma dualidade muito simples sobre a tecnologia e os novos deuses ao apontá-los apenas como seres poderosos que buscam apenas novos seguidores e curtidas. Esse é um argumento muito raso para uma discussão que evoluiu muito nos últimos anos. 

É uma pena ver que American Gods perde a oportunidade de explorar a versatilidade humana de abraçar novos deuses ao longo da nossa história. Pouco sobre as nossas mudanças de direção religiosa são abordadas na trama, tornando a série menos relevante do que poderia. Não esperava uma história profundamente enraizada na antropologia, mas alguma abordagem mais profunda tornaria American Gods mais intrigante.

Afinal, por que tantos personagens falam sobre a importância do que estão fazendo, mas nunca conseguem realmente comunicar o que está em jogo? E por que fazer perguntas profundas se a própria série não parece estar interessada nas respostas? Ao mesmo tempo, a série não foca completamente em uma trama simples e divertida sobre deuses que entram em conflito simplesmente porque podem.

Parece que ainda vai demorar um pouco para American Gods finalmente encontrar seu caminho, mas vamos torcer para algum direcionamento acontecer ainda nesta temporada.

American Gods disponível no Prime Video.

Postagens relacionadas