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A Lenda De Candyman | Crítica: Nia DaCosta maravilhosamente une arte, suspense e uma dose de sobrenatural para tratar de questões importantes.

Com A Lenda De Candyman (Candyman, 2021) a diretora Nia DaCosta tinha uma árdua missão. Uma não, algumas. Sair das sombras do filme original de 1992, do diretor e produtor Jordan Peele que aqui co-escreve o roteiro e produz o filme ao seu lado, e claro, se firmar em Hollywood na direção em seu segundo longa. 

E tenho a certeza que DaCosta conseguiu tudo isso com esse filme, sem dúvidas nenhuma.

Em preparação para esse filme revi O Mistério de Candyman (1992) que contava uma história cheia de simbologia, misticismo e já tratava de assuntos importantes como racismo, gentrificação e outras questões que afligiam a nossa sociedade atualmente. Ao contar a história desse mito urbano, o longa da década de 90 nos entrega uma estética visual muito forte para mostrar a pesquisadora Helen Lyle (Virginia Madsen) em sua jornada sanguinária quando ela cruza com essa figura chamada Candyman, após o invocar na frente do espelho.

Mas claro, o longa de 1992 contava uma história tão intrincada na comunidade de Cabrini-Green, sobre as dificuldades desses moradores, e suas lutas, só que vistas do ponto de vista de uma acadêmica branca e loira. Com A Lenda de Candyman, DaCosta consegue com esse novo filme mudar isso e fazer um longa sobre as experiências de personagens negros sobre esse mito de um personagem também negro. Aqui, e eu falando totalmente fora do meu lugar de fala, acho que DaCosta consegue entregar uma boa e impactante história sobre uma experiência do que é ser uma pessoa negra nos EUA de hoje e todos os conflitos e dificuldades que existem.

A Lenda de Candyman chega a ser um filme brutal que consegue mostrar que os horrores, às vezes, não vem de lendas sobre seres com casacos pesados e ganchos, e sim, um que está presente no dia-a-dia de muitas pessoas. E como elas levam esses medos e temores o tempo todo com elas e para suas vidas.

A Lenda de Candyman
Foto: Universal Pictures

DaCosta consegue com A Lenda de Candyman maravilhosamente unir arte, suspense e uma dose de sobrenatural para falar com propriedade sobre diversas e espinhosas questões. É preciso ver o filme de 1992 para ver o de 2021? Não. Mas os dois filmes se conectam muito bem e se completam como uma boa experiência.

O longa de 2021 sai do mundo acadêmico que Helen viveu no primeiro filme e para essa “sequência espiritual” entra de cabeça para o mundo artístico, onde temos o pintor Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II visto em Watchmen e Nós e novamente ótimo aqui) que vive uma fase em sua carreira de um certo bloqueio criativo, e sua parceira a galerista Brianna Cartwright (Teyonah Parris, vista em WandaVision e que vai repetir o trabalho com DaCosta no inédito The Marvels) que tenta se estabilizar no competitivo mercado artístico de Chicago ao lado do seu chefe, um homem hétero e branco, Clive (Brian King).

E até mesmo esse power cowple das artes sofre problemas no seu relacionamento, McCoy e Cartwright tem seus problemas em sua relação mas que lidam entre eles com qualquer casal, e claro, com a intromissão do irmão de Brianna, o falante e palpiteiro Troy (Nathan Stewart-Jarrett) e seu marido Gray (Kyle Kaminsky). E assim, o longa de 2021 começa.

Durante um jantar no apartamento que o nosso casal principal vive, um que a incorporadora subiu e vendeu por um preço maior do que o restante da região, Troy e Gray contam mais sobre a lenda do Candyman e da figura de Helen, o que desperta o interesse de Brianna e Anthony. Quer dizer, bem mais de Anthony, afinal, Brianna acha que tudo aquilo é non-sense e não acha que é real, mas Anthony que resolve entrar em contato com essa lenda e parte em busca de conhecer mais sobre tudo que aconteceu e quem sabe ter uma inspiração para acabar com seu bloqueio criativo.

E claro depois que ele começa a investigar sobre o mito do Candyman, a história de Helen e como a história deles está envolvida no imaginário dos ainda resistentes de Cabrini-Green, Anthony se torna obcecado por ela, e de tudo que ele ouviu tanto do cunhado, quanto do morador local Burke (Colman Domingo, do inédito no Brasil, Zola) que serve como se fosse um guia, tanto para o espectador, quando para o nosso protagonista em contar a história de Candyman. O uso de sombras e desenhos como se fossem um teatro de marionetes dá um tom bastante mais artístico para A Lenda de Candyman que entrega um trabalho visual impecável da parte de produção. Um dos pontos mais positivos que o filme tem.

E A Lenda de Candyman trabalha para incluir essa jornada de Anthony dentro desse mito, na medida que a lenda e a realidade do seu trabalho se unem quando efetivamente a figura do ameaçador Candyman aparece para ele. Ao mesmo tempo que DaCosta consegue brincar com as aparições do personagem assustador com o gancho logo depois Anthony expõe uma obra de arte interativa de um espelho em uma das exibições que Brianna realiza na galeria que trabalha, o longa se torna cada vez mais subjetivo em sua proposta.

A Lenda de Candyman
Foto: Universal Pictures

Particularmente acredito que A Lenda de Candyman deve polarizar a audiência ao se apoiar demais nisso e não conseguir desenvolver muito das ideias e conceitos apresentados em alguns momentos do filme que são deixados para o espectador resolver o que foi mostrado em tela. Claro, DaCosta consegue criar essa ambientação mais sufocante e de tensão toda vez que alguém é impactado pela obra de Anthony que viraliza on-line (chamada Say My Name, será que a Beyoncé ficou feliz com isso?) e na mídia após a morte de dois pessoas no local, principalmente na cena das meninas brancas que resolvem invocar o Candyman no banheiro do colégio como uma forma de brincadeira e realmente se deixam levar pelo hype descontrolado que o assunto se tornou. E também quando vemos o próprio Anthony começar a sentir os efeitos da entrada de Candyman em sua vida, e como essa presença poderosa toma conta de seu relacionamento com Brianna, de sua arte e também da sua saúde mental. Fica claro que Candyman vem para expor os piores momentos desse casal que veem o peso do passado, e de seus próprios traumas, atrapalhar o relacionamento dos dois e consequentemente seu futuro.

Ao mesmo tempo que A Lenda do Candyman entrega momentos mais gore quando as mortes pelo gancho do Candyman começam a acontecer, o longa acaba por ser bem mais do que apenas um slasher e entrega sim um bom suspense. DaCosta, Peele e Win Rosenfeld conseguem colocar no texto diversos comentários interessantes e que te forçam a repensar várias coisas sobre esses personagens e sobre o que acontece no mundo.

Com uma forte conexão com os eventos envolvendo brutalidade policial e até mesmo questões sobre apropriação cultural onde a importância de que as histórias sobre figuras negras sejam contadas por pessoas negras que sabem e entendem o que, e como aquilo, as afeta é muito muito bem trabalhada em A Lenda de Candyman. É como se no final, DaCosta e o filme falasse que o mundo está tão de cabeça para baixo que tudo que não precisamos era invocar um serial killer místico ao dizer seu nome 5 vezes. Eu te desafio a dizer o seu nome.

Avaliação: 3.5 de 5.

A Lenda de Candyman chega em 26 de agosto nos cinemas nacionais pela Universal Pictures.