Vidro | Crítica

Vidro (Glass, 2018) pode até não ser um dos melhores trabalhos de M. Night Shyamalan, mas, com certeza, é um de seus projetos mais ambiciosos, e também por que não dizer, mais polêmico. A produção consegue fechar a franquia inesperada, que começou lá em Corpo Fechado (2000) e continuou em Fragmentado (2016), de uma forma interessante, onde Shyamalan brinca com os personagens, num complexo de Deus gigante, apresentados nesses dois filmes.

Vidro envolve o espectador em uma trama instigante, mas que peca ao estilhaçar a história para quem assiste em pequenos pedaços que não se casam muito bem um com outro. Shyamalan parece abusar da boa vontade do espectador para conectar os pontos, e assim, faz com que Vidro mostre todas as suas rachaduras, dessa idéia tecnicamente perfeita e reluzente que o diretor teve ao criar toda a mitologia, onde o filme acaba por ser um mar de expectativas.

Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Sarah Paulson, and James McAvoy in Glass (2019)
Vidro – Crítica | Foto: Buena Vista Internacional

Vamos deixar claro, aqui, Vidro não é completamente ruim, o longa apenas parece navegar os caminhos tortuosos, como se refletisse num espelho fosco, mas a produção se apoia em ótimas atuações de seus protagonistas para contar mais um pedaço da história de David Dunn, Kevin (e suas inúmeras personalidades!) e do Mr. Glass. Assim, Shyamalan nesse filme se aproveita e se debruça em um texto cheio de metalinguagem e abusa de um mar de referências em HQs para contar uma história de super-heróis da vida real.

Desde do começo, vimos que os personagens criados pelo diretor não são milionários mascarados num cidade cheia de vilões, ou capitães com poderes cósmicos e corte de cabelo estilosos, e sim, pessoas aparentemente comuns com pequenos dons que os levam a realizar grandes feitos. Mas, se tem uma coisa que Vidro peca é no seu ritmo. Shyamalan parece começar esse filme com o pé no acelerador, onde logo de cara já vemos, Kevin (James McAvoy) com vítimas sequestradas e Dunn (Bruce Willis) de vigia pelo bairro. Heróis e Vilões lado a lado, como uma clássica história de quadrinho.

Claro, McAvoy, rouba todas as cenas para si, no minuto que vemos seus personagens aparecerem em tela e sua atuação cintila magistralmente em tela, a cada troca das personas que habitam dentro do corpo de Kevin, 23 no total. Já Willis, parece transparecer o semblante sério e carregado, visto lá em Corpo Fechado, como se o tempo não tivesse passado, um feito e tanto do ator.

Mas, após situar o espectador no filme, o roteiro de Shyamalan, apenas consegue trabalhar em pequenas doses seus personagens, onde o diretor nos entrega sucintos momentos de empolgação, onde a criação da expectativa e da antecipação do que irá acontecer (e quando, e onde, e por qual motivo) acaba por percorrer e acompanhar mais da metade do longo. É como, se em Vidro, Shyamalan, nos oferecesse, durante mais de uma hora, um doce, mas acabar por nos entregar, apenas, pequenos pedaços, para depois lá na frente, nos oferecer um bolo inteiro.

Samuel L. Jackson in Glass (2019)
Vidro – Crítica | Foto: Buena Vista Internacional

Mas, se tem uma coisa que Vidro acerta é como o roteiro trabalha no seu personagem título, o conturbado Mr. Glass. Samuel L. Jackson, aparece e fala pouco, mas realmente entrega uma atuação precisa, intrigante e misteriosamente muito boa. Shyamalan acerta e muito ao deixar o personagem nas sombras, como um clássico chefe de fase final de um jogo de video-game, aquele que só se apresenta no finalzinho sabe? e apenas quando descoberto e que aqui nos pega de surpresa com uma reviravolta clássica do diretor.

Já a personagem de Sarah Paulson, a Dra. Ellie Staple, serve muito bem com um bom contraste para o personagem de Mr. Glass. Ambos são muito carismáticos, cada uma a sua maneira, e com um poder de persuasão gigante com as outras pessoas que acaba por ser um fator decisivo apra a trama. Paulson ecoa talento em tela (aliado com a opção do diretor de manter a câmera sempre estar colada no seu rosto). A atriz acaba por ser uma ótima aquisição para o filme e para a franquia de um modo geral, juntamente com o retorno de Anya Taylor-Joy, Charlayne Woodard e Spencer Treat Clark que na medida do possível fazem boas atuações.

Assim, Shyamalan consegue terminar sua franquia de super-heróis comuns com um estrondo, onde é capaz de ouvirmos o teto quebrar dentro da cabeça das pessoas, após o final do filme. E diferente de seus antecessores, Vidro, não parece, ser uma daquelas obras isoladas e que funciona sozinha, e sim, uma produção robusta, complexa, ora cansativa, mas sem deixar de ser perturbadora e sinistra e que acerta em amarar (algumas!) pontas apresentadas durante todos esses anos.

No final, Vidro entrega de uma forma mais que satisfatória, não uma, mas alguma conclusão, mesmo que difícil e que possa não agradar a todos. Assim, apenas deixamos aqui o questionamento, seria Shyamalan um mestre do suspense ou alguém que apoia em pequenas idéias envelopados em grandes delírios?

Nota do Crítico:

Nota do Público:
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Vidro chega em cartaz nos cinemas essa semana.

Miguel Morales

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