Velvet Buzzsaw | Crítica

Mesmo com um elenco cheio de grandes nomes em Hollywood, Velvet Buzzsaw (2019) parece se perder no mar de suas próprias autorreferências e um texto que tenta ao máximo fazer uma grande sátira ao complicado mundo da arte. Assim, o filme propõe, também, fazer uma crítica da forma em que se consome cultura no mundo, onde Velvet Buzzsaw, pinta uma trama, com um mix de suspense e terror, que no final não se decide muito bem o que quer ser.

Claro, se tem uma coisa que Velvet Buzzsaw acerta, é apenas, em mostrar a natureza competitiva, brutal e perturbada do ser humano, através do mundo pretensioso e esnobe das artes.

Velvet Buzzsaw – Crítica | Foto: Netflix

O longa, que fez sua pré-estreia no Festival Sundance desse ano, chega pela Netflix, quase uma semana depois, e tenta fazer uma análise profunda sobre o mercado cultural de obras de artes nos EUA, mas que com isso, une elementos sobrenaturais e de terror, que acabam por não fazer o Velvet Buzzsawdizer para que veio propriamente dito.

Na trama, quando uma ambiciosa assistente encontra pinturas no apartamento de seu vizinho que acabou de morrer, ela vê nos quadros, uma oportunidade de alavancar sua carreira. Assim, Velvet Buzzsaw usa as pinturas para mudar completamente a vida dos personagens, e trazer à tona aquilo de pior que os envolvidos no mundo das artes escondem por trás de seus sorrisos falsos, óculos com armações gigantes e um visual retrô chic.

Na história, a entrada desse olhar novo de um artista desconhecido, muda o foco das atenções de toda a comunidade artística dos EUA, ao introduzir um pintor desconhecido no meio do covil dos lobos. A assistente Josephina (Zawe Ashton, muito boa), em sua ambição para cravar sua nome, abre um tipo de Caixa de Pandora ao pegar as obras para si e alimenta, como se fosse carne fresca para os famintos animais, o circuito das artes com a novidade, onde todos querem um pedaço, por mais caro que ele seja.

Assim, vemos a batalha de egos, a ambição, e a desesperada busca de validação dos personagens fazer com que Velvet Buzzsaw crie uma narrativa ousada e bastante provocativa, em que acompanhamos os personagens se definharem por causa dos quadros, onde a ameaça sobrenatural oferece um toque macabro para a produção, mesmo que assim, o longa ganhe um lado mais fantasioso e difícil de engolir.

No filme, cada um tem sua própria motivação, seja o crítico, Morf Vandewalt (o versátil, Jake Gyllenhaal novamente numa ótima atuação e um bom papel), considerado um Deus no mundo da arte, onde suas palavras acabam com carreiras, a dona de uma balada galeria, que visa o lucro acima de tudo, a impiedosa Rhodora (Rene Russo), ou até mesmo, uma funcionária de um museu que quer se dar bem a todo custo, Gretchen (a sempre ótima Toni Collette). Assim, vemos a vida dos personagens mudarem, onde as máscaras caem, e as verdadeiras cores de cada um deles aparece.

Rene Russo and Zawe Ashton in Velvet Buzzsaw (2019)

Quando, o longa abraça seu lado mais assustador, e as obras do tal artista começam a matar os personagens, Velvet Buzzsaw, une toda a pomposa trama do filme, com um clima sombrio e angustiante de quem irá morrer em seguida pelas mãos das pinturas e nos deixa interessados em busca de algum tipo de explicação. Assim, o filme brinca com as relações de poder entre os personagens, mesmo que efetivamente não decida para, onde ir e nos mostrar um significado para tudo isso.

Velvet Buzzsaw, apenas faz suas inúmeras críticas, algumas de uma forma sutil, como um saco de lixo no hall confundido por uma peça artística, e outras bem gráficas, onde uma personagem tem o braço amputado, é deixada sangrando no chão e é confundida com parte de uma exposição. Assim, o roteiro de Velvet Buzzsawassinado por Dan Gilroy, navega sua história através das más decisões dos personagens que não tratam a arte como uma expressão e manifestação cultural, e sim por pura ganância, o que, acaba por os levar a loucura, num espiral de morte, destruição e que acaba por os expor para seus verdadeiros eus.

No final, Velvet Buzzsawparece, talvez, que o longa se perde em confusos arcos e algumas combinações forçadas, mas, que lá no fundo parece saber muito bem, em qual ferida tocar, ao tratar sobre o mundo das artes de uma forma quase caricata e exagerada. E talvez, essa tenha sido a intenção do diretor Dan Gilroy, fazer uma representação fria e crua, de um mundo onde aparências e status são fundamentais.

E aqui, Velvet Buzzsaw, acaba por ser envolvido numa bela embalagem, mas que pode chegar vazia para quem assiste. É como diz, uma personagem, “qual a graça de se fazer arte, se não tem ninguém para ver?”

Nota do Crítico:

Velvet Buzzsaw disponível na Netflix.

Miguel Morales

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