Uma Dobra No Tempo | Crítica

Adaptações são difíceis e ainda mais de histórias que vem com uma trama cercada de viagens no tempo, equações físicas e que acaba misturando com seres celestiais e crianças prodígio. E talvez Uma Dobra No Tempo (A Wrinkle In Time, 2018) seja um tipo de filme que chegue na hora certa, no momento certo mas feito de uma maneira errada.

Afinal nem os grandes nomes como Reese Witherspoon, Oprah e uma diretora com uma visão diferente e um ar de modernidade como AvaDuVerney não conseguem fazer com que Uma Dobra no Tempo acabe sendo um filme um pouco cansativo e até mesmo pretensioso em algumas partes.

Assim como sua protagonista, Meg, o filme tem uma aura de sabichão “eu sou melhor que a média aqui” e passa um ar distante e não tão acolhedor, coisa que normalmente os filmes da Disney transmitem. A atriz novata Storm Reid é esforçada, se destaca no meio dos adultos já mais experientes mas chega em diversos momentos não conseguir sustentar sua protagonista que em muitas partes é irritável e nada agradável.

Foto: Disney

Em termos de história e desenvolvimento de personagem é até compreensível termos Meg nessa situação afinal, Uma Dobra no Tempo já começa deixando claro ao mostrar a menina sofrendo com o desaparecimento misterioso do pai, Sr. Murray (Chris Pine) e penando em se ajustar na escola. O casal Murray estudava uma teoria onde se poderia viajar no tempo de uma forma que em vez de partir de um local A até um local B a trajetória foi encurtada juntando os dois pontos como se eles se dobrassem ao longo do tempo e espaço como uma folha dobrada ao meio. O senhor Murray nunca conseguiu provar sua teoria deixando a família abandonada e o filme também erra ao não se aprofundar mais em explicar como funcionava isso tudo. 

O roteiro de Jennifer Lee e Jeff Stockwell é baseado no livro de Madeleine L’Engle mas acaba criando situações pouco favoráveis para o desenvolvimento da história, onde temos personagens andando por aí sem rumo, como na parte envolvendo um dragão de folhas e que falha ao te mostrar cenas aleatórias que fazem você esquecer qual o propósito delas para aquele momento da história.

Em Uma Dobra No Tempo temos momentos também que são apenas mostrados por serem mostradas, como por exemplo, a chegada das crianças no planeta do mal onde eles dão de cara com vila de casas gente de pessoas estranhas. Já outras passagens são exibidas com arcos extensos que acabam não acrescentando em nada para a trama principal, como a visita ao Happy Medium, o exagerado Zach Galifianakis. 

Em termos de personagens também o filme esbarra em mais problemas na sua execução, a criança prodígio Charles Wallace (Deric McCabe) passa de adorável(zinho) para irritante em questões de minutos e todo o trabalho é feito de uma forma bastante pobre onde o roteiro não vem trabalhando aos poucos essa mudança na atitude do personagem, onde apenas é jogado para quem assiste logo após a cena da praia. Já Calvin (Levi Miller) vem como um herói salvador de princesas mas acaba ficando jogando de lado mesmo que no final tenha mais desenvolvimento de sua trama junto com o pai do que os irmãos Murray, mas em muitas cenas ele acaba sendo um figurante de luxo que o roteiro nem se dá o trabalho de explicar certas coisas.

Por outro lado, temos que louvar AvaDuVerney na direção, ela tem uma visão única e bastante perspicaz sobre como contar uma história, trabalha bem com as posições de câmeras e como fazer o ator passar um pouco do sentimento e fazer com que seu personagem consiga transmitir sua mensagem para quem assiste.

Como falamos, Uma Dobra no Tempo vem no tempo certo, o longa coloca uma protagonista de cor e diz “é ok, você ser quem você é e não se enquadrar na sociedade. Aceite seu cabelo encaracolado e seu jeito nerd” e no momento certo ao ter a direção de uma mulher com um filme nesse orçamento (mais de 100 milhões de dólares). Isso é um grande avanço junto com todo o trabalho de empoderamento da protagonista mas no fundo não é sobre isso que o filme quer falar não é mesmo?

Foto: Disney

E o longa peca sim pelo fato dele tentar contar uma boa história, o que até faz isso meio aos trancos e barrancos mas não da mesma maneira adorável e encantadora de O Mágico de Oz ou Alice no País das Maravilhas por exemplo. Uma Dobra no Tempo tenta muito explicar as questões cientificas e fazer disso o grande mote do filme mas não consegue ser completamente didática para não aborrecer as crianças e nem completamente lúdicas para não frustar os adolescentes e pais. E acaba ficando no meio terno.

Claro, o elenco adulto das três Senhoras do Tempo formado pela sábia Sra. Qual (uma gigante e desnecessária Oprah Winfrey), a resmungona Sra. Queé (Reese Witherspoon em seu melhor modus operantes) e a inteligente Sra. Quem (Mindy Kaling que rouba todas as cenas) é bem aproveitado mais não bem desenvolvido como deveriam talvez afinal elas tem tanta serventia para lutar conta as “forças do mal” quanto as três boas fadas tinham para lutar contra Malévola em A Bela Adormecida. 

Assim, Uma Dobra no Tempo tem em um dos seus poucos acertos os efeitos especiais, toda a criação da viagem no tempo, o tesseract é muito bem trabalhado e visualmente faz do filme ser maravilhoso. Os figurinos exagerados e pomposos deixam o filme com um ar mais descolado e excêntrico mas nem eles acabam deixando que o roteiro meio atrapalhado consiga fazer com que a história deslanche de maneira fluida e orgânica.

No final, Uma Dobra no Tempo é um filme difícil, um pouco sem presença de espirito e até mesmo pretensioso. E para piorar a presença de uma Oprah Winfrey gigante correndo por aí deixa ele com mais toques de auto-ajuda barato do deveria.

Nota do Crítico:

 

Uma Dobra No Tempo estreia em 29 de março nos cinemas.

Miguel Morales

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