Thor: Ragnarok | Crítica

Convenhamos os filmes focados no Thor sempre foram meio que uma ponta solta e talvez o elo mais fraco dentre as produções solo dos membros do time dos Vingadores! Talvez pelo fato de que o personagem foi desenvolvido dentro do Universo Cinematográfico da Marvel de uma forma bem mais séria nos seus primeiros filmes do que os outros companheiros. Afinal, o Homem de Ferro sempre foi espalhafatoso e chamativo com suas armaduras e seu ego lá em cima e o Capitão América sempre foi o queridinho de todos com aquela inocência, jeito de bom moço, seu rosto quadrado e sorriso cativante.

Então na lista assim sobrou Thor e claro o verdão Hulk que mesmo também um pouco isolado sempre foi um membro que o público gostou tanto pela sua habilidade de destruir as coisas, quanto por um certo alivio cômico. Nem vamos falar da Viúva Negra, pois isso é tema para um outro papo. Assim, outra coisa em que Thor se destaca dos demais é que sempre teve suas tramas um pouco mais independentes do restante, com ótimos vilões e suas histórias não se passando 100% na Terra. Mas para alguns fãs isso não era o bastante.

Foto: Marvel

E em Thor: Ragnarok (2017), a Marvel percebeu esse pequeno defeito na sua coleção e mudou um pouco o personagem de acordo com o gosto do público. Nesse terceiro filme do Deus do trovão o estúdio pega dicas com o diretor James Gunn e cria uma história visualmente fantástica, com um grande elenco e claro uma ótima trilha sonora. É o sucesso de Gunn fazendo efeito, afinal não basta ganhar rios de dinheiro para a franquia você tem que no mínimo dar aquela mudança e criar uma nova roupagem para velhas coisas. E com esse filme é isso que a Marvel faz com Thor, o estúdio consegue estabelecer novos rumos para a franquia do personagem e faz de Thor: Raganarok um filme com visual colorido e uma boa dose de bom humor. É como se fosse o primeiro filme dos Guardiões da Galáxia só que com o Thor e cia nos papeis principais.

Chris Hemsworth se entrega, embarca em sua veia cômica e finalmente consegue dar algum carisma para o seu personagem, é como se Thor tomasse um choque de seu martelo e acordasse com excelente bom humor. Vindo de um tom mais leve desde os vídeos de férias do personagem, onde o estúdio explica o paradeiro do herói de uma forma muito bem humorada, a Marvel acerta em trabalhar o lado mais divertido do vingador.

Sem muitos spoilers da trama, afinal muita coisa acontece nesse filme, mas basicamente em Thor: Ragnarok vemos Thor parando no planeta Sakaar e encontrando com seu colega vingador, Hulk (Mark Ruffalo) que está lá preso lutando como um gladiador. Assim, ele precisa além de continuar a sua tentativa de escapar do seu cativeiro, ainda bolar um plano para livrar Asgard das mãos da vilã Hela (Cate Blanchett). E caramba talvez a atriz seja uma das decisões mais acertadas da Marvel em termos de cast e o estúdio ter mirado na atriz do calibre dela para o papel só mostra o empenho do estúdio na franquia. Hela é definição de ser fierce, a personagem é a Beyonce dos vilões da Marvel, sai para lá Hydra e Mandarim. Blanchett esbanja simpatia com seu visual sedutor, perigoso e totalmente pirada. Convenhamos que mesmo que a personagem não seja muito bem desenvolvida, suas motivações são bem mais aceitáveis que os outros vilões de outros filmes do estúdio o que já é um grande avanço em termos que a Marvel vinha apresentando.

Mesmo com todo o talento de Blanchett, ainda é Tom Hiddleston, com seu Loki que continua sendo uma das melhores coisas, senão a melhor coisa da Marvel tem em termos de personagem. O ator brilha e mostra o motivo do sucesso do vilão que a cada filme ganha uma nova camada e desenvolve uma complexidade para Loki sem tamanha. Outra atriz que rouba a cena mesmo que de uma forma menor é Tessa Thompson como a fantástica guerreira Valkyria e a atriz mostra uma naturalidade e carisma em tela gigante que sua personagem poderia muito bem ter um spin-off, um filme derivado só dela que seria uma coisa que já gostarmos de ver.

Infelizmente a melhor parte do Hulk é quando Mark Rufallo e seu Bruce Banner não estão em tela, não que o ator seja ruim é  que quem domina a tela é a figurona verde que mesmo que ainda tenha ficado em bastante em segundo plano, afinal com tudo acontecendo é um pouco compreensível que ele consegue ter um bom destaque na trama. Hulk ainda tem ótimos momentos de troca e consegue ter química com todos os personagens. Jeff Goldblum e Anthony Hopkins completam a lista com boas atuações de seus personagens, um novo na trama com um jeito mais excêntrico e outro já mais presente na franquia mas com muito a agregar ao filme. 

Foto: Marvel

Os efeitos especiais tanto das cenas de batalhas, quanto da chegada do fim do mundo são muito bem trabalhados, a produção é muito bem feita e junto com a trilha sonora consegue deixar as passagens muito bem interessantes e em quase todas as partes consegue criar momentos de empolgação. Deixamos nossos destaques aqui para a cena da Luta na Arena entre Thor e Hulk que mostra um grande nível de trabalho e muita qualidade envolvida com imagens geradas por computador.

Thor: Ragnarok acerta e muito em misturar as partes de comédia com cenas emocionantes, alô, olha a Marvel mudando sua política de mortes hein? Mas o filme, acaba sendo muito mais episódico do que os outros filmes, afinal o roteiro do trio Eric PearsonCraig Kyle e Christopher Yost cria umas tramas que andam paralelamente entrei si e mesmo quando dispostas ao longo do filme acabam por quebrar um pouco do ritmo uma da outra. Com a história sendo contada de forma bem rápida e bastante fluida, o roteiro deixa esse sentimento de vai e vem afinal por um lado estamos lidando com a destruição e morte pelo outro lado meio que vemos um filme de fuga de banco com uma piadas e momentos cômicos. A equipe poderia ter parado e pensado em qual trama poderia colocar em um destaque maior e como misturar uma parte com a outra.

Dentro do grande leque que compõe o universo, o filme desaponta um pouco ao não criar uma conexão maior com os próximos eventos e fases do MCU, mesmo que consiga entregar alguns easter-eggs e participações bacanas, o filme acaba sendo uma trilha sonora única dentro de um álbum inteiro de hits.

O diretor Taika Waitti pode não ter aquele mesmo humor um pouco mais pastelão de James Gunn, mas consegue criar aqui uma atmosfera acolhedora, colorida e muito focada em desenvolvimento de personagens. Com umas tomadas e cortes bacanas, acho que o grande acerto do diretor é conseguir trabalhar bem toda a relação entre Thor e Hulk (e Thor e Loki) que é muito bem construída. Na dupla dos vingadores vemos uma leveza e camaradagem que faltava desde do ultimo filme dos heróis e claramente é infinitamente melhor do que as relações entre Tony Stark e Steve Rogers em Capitão America: Guerra Civil (2016).

Thor: Ragnarok é a Marvel tomando lições e testando depois de quase 10 anos as reações (e relação) do seu público que querendo ou não vai acabar indo ver o filme no cinema. Com um elenco atrativo e a promessa de inovação, esse terceiro filme acerta em seu tom cômico que é balanceado com boas doses de cenas de ação e drama. Os papeis femininos dominam o filme e trazem um sentimento de novidade muito bem acertado deixando a produção divertida e assustadoramente boa ao mesmo. É a Marvel apostando na velha fórmula, mas mudando alguns ingredientes.

PS: O filme tem duas cenas pós-créditos.

Nota do Crítico:

Thor: Ragnarok estreia dia 26 de Outubro nos cinemas.

Miguel Morales

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