The Handmaid’s Tale | Crítica da 1ª Temporada

The Handmaid’s Tale é a melhor produção da temporada 2016-2017, abençoado seja a fruta. Pronto.

Esse texto poderia começar e terminar aqui mas The Handmaid’s Tale é isso e muito mais. Com um ótimo visual tanto na caracterização dos personagens, quanto na ambientação desse novo e não tão utópico mundo a série nos leva para acompanhar a história sob os olhos de mulher em uma nova sociedade, onde cada um tem seu papel dentro das muitas camadas dela.

ALERTA DE SPOILER: Este artigo contém informações sobre alguns dos principais acontecimentos da temporada. Continue a ler por sua conta e risco.

The Handmaid's Tale
Foto: George Kraychyk/Hulu

Assim, a série é baseada no livro de mesmo nome escrito por Margaret Atwood em 1985 e é narrada do ponto de vista de uma dessas personagens, Offred que faz parte da classe social das handmaids (criadas ou como traduzido no Brasil, aia) a função dela é exclusivamente a de dar filhos para o casal que ela serve num ritual chamado de  “A Cerimônia”.  A grande surpresa é que Offred, não é seu nome. Ela tinha uma família, e um outro nome antes dessa vida e a verdade que está na casa presa contra sua vontade. Logo nos primeiros episódios, conhecemos June (o verdadeiro nome da personagem) e acompanhamos ela passar por seu primeiro ritual, ou seu estupro pelo seu Comandante, em uma das cenas mais chocantes exibidas desse ano.

Descobrimos então que Offred e suas colegas criadas foram sequestradas pois carregam em si a possibilidade de conseguirem reproduzir e vivem nesse novo sistema autoritário, mega armado e super religioso sobre o comando O Olho, onde elas sempre estão sendo observadas (Under this eye) e não sabem em quem confiar. Assim, acompanhamos a história ser apresentada entre as camadas das Esposas, as domesticas Marthas, as outras criadas e claro os Comandantes dessa nova nação que era o antigo país chamado de EUA e como o pais lida com essa mudança brusca.

Formado por um brilhante elenco, a produção é liderada por Elisabeth Moss como a criada Offred e vemos sua trajetória contada a medida que ela é sequestrada, passa por seu treinamento para ser uma criada e até seus primeiros dias no novo sistema. Moss entrega uma atuação forte, marcante e viseral numa das mais interessantes personagens dessa temporada de tv americana. Com a câmera sempre colada em seu rosto, amplificando todos os sentimentos da personagem a atriz consegue nos mostrar e dizer tudo mesmo que Offered não possa. Tudo isso num piscar de olhos o que só deixa seu talento fluir de uma ótima maneira.

A habilidade de The Handmaid’s Tale em trabalhar com o som, ou a falta de dela é fantástica e conseguimos ao assistir os episódios sentir a angústia, medo e claro o sentimento urgente de sobrevivência da personagem (e de todas outras) que ao longo dos 10 episódios faz de tudo para viver nesse novo regime.

“Normal é o que você costumava ser” afirma uma terrível Tia Lydia, numa atuação memorável de Ann Dowd , a personagem é um tipo de professora que controla as criadas e serve com dos grandes obstaculos que as criadas lidam ao longo da temporada. O que leve claramente a uma das perguntas: O que é ser normal? Quais são as regras que regem nossa sociedade e que definem o que é ser normal hoje em dia? A série faz uma excelente crítica social principalmente com as questões de religião, sexualidade e claro de gênero que é o melhor tópico que a produção consegue abordar e desenvolver. Numa era onde os EUA vivem com Trump no poder e aqui no Brasil a religião sempre se misturando com a política a série é uma importante visão de um futuro assustador.

O restante do elenco é formado pelos atores Yvonne Stranhovksi, brilhantemente escalada para o papel da esposa Serena Waterford, Alexis Bledel, como uma criada que está num movimento separatista e mostra uma nova e bem interessante atuação em contra partida com sua personagem mais famosa, Rory Gilmore de Gilmore Girls. Os atores Samira Wiley, Joseph Fiennes e Max Minghella mesmo com papeis menores são também ótimas aquisições e elevam ainda mais a qualidade dessa produção do serviço de streaming Hulu. Fiennes está absolutamente repulsivo como o Comandante Waterford, Wiley mostra um sopro de novidade como a criada Moira e Minghella como o capanga Nick consegue entregar e mostrar bem a dualidade de seu personagem de uma forma excelente.

The Handmaid's Tale
Foto: George Kraychyk/Hulu

A medida que os episódios avançam vamos descobrindo muitas das respostas para as perguntas que são apresentados no episódio piloto: Como esse novo regime tomou o poder? (Vemos algumas passagens durante a temporada começando pelo episódio 1×03 – Late). Como funciona a questão das criadas e os filhos que elas geram? (toda a trama da criada Ofwarren, antiga Ofdaniel (Madeline Brewer) que atinge seu ápice no 1×09 – The Brige) e como elas foram parar lá (June e Moira eram melhores amigas antes de serem pegas pelo sistema – 1×01 – Offred).

Também conhecemos mais da história dos personagens através de flashbacks muito bem executados e a própria criação e interação da nova nação é muito bem explicada principalmente no 1×06 “A Woman’s Place” onde vemos a delegação mexicana visitando a casa do Comandante Waterford. Todos os episódios são empolgantes, contam um pouco da história e normalmente deixam ganchos fantásticos mesmo não dependendo deles exclusivamente para gerar um impacto. O grande destaque fica claramente para a sequência final onde Offred acaba por tomar uma participação maior na luta contra o sistema e claro a medida que ela ganha uma proteção também ao ficar grávida, “Me desculpa, Tia Lydia”.

Em The Handmaid’s Tale tudo não é o que parece ser e isso é fantástico. A série é sobre o individual e coletivo, sobre liberdade e opressão, sobre sobreviver e lutar. O sentimento que a produção passa é que tudo também pode acontecer e nenhum personagem está fora da zona de perigo o que acaba sendo também uma das melhores qualidades da série junto claramente com seu excelentíssimo elenco. Todas as cenas são compostas de forma que mostram a beleza e o horror dos eventos retratados. É a TV atingindo novamente a proporção de cinema e sendo brilhantemente bem conduzida. “Abençoada seja a fruta que Deus a faça florecer.”

A série pode ser vista no Hulu e a principio deve estrear pela FOX Premium em algum momento desse ano.