Soundtrack | Crítica

O cinema nacional vem cada vez ganhando mais destaque à medida que nossos atores acabam atingindo novos mercados internacionais e colocando o país na rota de grandes produções. Seja em participações em grandes filmes, estrelando séries de TV ou até mesmo quando o país é destaque para lançamento de certos blockbusters, o cenário dos filmes nacionais tem mudado cada vez mais com o país investindo em filmes que não tem aqueles temas batidos de piadas e esquetes que durante muito tempo eram o foco principal das produções nacionais.

Assim, com investimento em tecnologia com todo um grande aparato de produção, aliado com uma boa trama, Soundtrack (2017) é um marco nas produções brasileiras. Com quase todas as cenas gravadas em estúdio com neve artificial importada por uma empresa de efeitos especiais o filme consegue deixar o espectador num mix de empolgação, estranhamento e dúvida ao acompanhar os personagens liderados por Selton Mello, Seu Jorge e o britânico Ralph Ineson. O longa é uma mega produção com uma bela história que passa uma mensagem interessante sobre as relações humanas.

Soundtrack
Foto: Imagem Filmes

Na trama conhecemos Cris (Mello), um fotografo que parte para uma expedição numa estação de pesquisa no Ártico para iniciar um projeto artístico de sua autoria. A idéia é tirar fotos na imensidão branca e congelante ouvindo uma determinada música dentro de uma playlist selecionada por ele e exibir depois as fotos tiradas junto com fones para o expectador sentir a mesma experiência que ele sentiu naquele momento.

Lá ele encontra cientistas de diversas partes do mundo que estão reunidos para analizar e coletar dados importantes. A medida que Cris e o público entra nesse mundo branco e isolado vamos conhecendo a trajetória de cada um deles e claro alguns segredos que todos tentam deixar no passado acabam surgindo. A equipe é formada pelo botânico brasileiro Cao (um contido mas uma bela surpresa Seu Jorge), o britânico Mark (Ineson), que estuda os impactos do em aquecimento global no Ártico, o biólogo chinês Huang (Thomas Chaanhing) e o pesquisador dinamarquês Rafnar (Lukas Loughran). E todos eles estão presos no meio do nada, no frio, longe de suas famílias e amigos e precisam se adaptar as condições climáticas e claro uns com os outros.

Soundtrack é um filme extremamente sensorial, físico e que usa sua ambientação para incluir quem assiste como se fosse parte trama. Com esse local onde a história se passa sendo mais um personagem do filme, vamos a cada momento sentindo esse “personagem que não é personagem” nos levar para dentro da tela como se fossemos seus convidados para explorar diversas cantos do filme junto com o restante do elenco. A produção tem por seu destaque fazer o espectador parecer que está junto ali com os personagens, vivendo dentro dela.

Chega um momento que o incômodo do branco e da tranquilidade vai aumentando e aumentando e dando uma sensação de clausura e solidão. A medida que vemos as cenas das tentativas de Cris em realizar as tomadas fotográficas para o projeto artístico, o filme faz o público sentir o frio e o sentimento de isolamento na pele. Assim, junto com a trilha sonora escolhida a dedo para dar contraste com as cenas, o longa é uma representação do projeto que o personagem vai apresentar, mostrando as etapas de como seria realmente essa exposição.

Soundtrack
Foto: Imagem Filmes

Em Soundtrack, tudo é estranho no começo, mas um estranho bom, pois igual Cris tentamos descobrir mais sobre a vida dos cientistas e eles sobre a vida do novato. A sensação passada para quem assiste é que junto com o personagem principal somos visitas na casa de outra pessoa. O clima de mistério envolvendo as motivações do fotografo são muito bem mostradas e aliadas com rápidos flashbacks levam a bandeira amarela para as atitudes do personagem.

Selton Mello está fantasticamente bem no papel, sendo um dos melhores de sua carreira. O ator consegue mostrar as várias facetas que Cris tem no filme, o lado simpático e prestativo com os colegas de estação e o lado que luta contra seus próprios problemas no privado que ele usa sua câmera para se expressar, com ódio e um sentimento de perigo sempre rondando. Ralph Ineson e o ator tem uma troca de experiências em tela que é maravilhosa e que pouco atores conseguem realizar e entregar. Seu personagem durão personifica uma das perguntas mais importantes do filme “Por que diabos esse cara veio até aqui por sua própria vontade” e ao descobrimos aos pouco mais sobre seu passado conseguimos ter um outra visão e entendimento de suas atitudes.

Com algumas reviravoltas interessantes e às vezes repetitiva o filme tenta não deixar o espectador na fossa completa mas sim mergulhado dentro da trama do filme que fará você sair pensativo da sessão. Mesmo com alguns altos e baixos no roteiro, com vários momentos reflexivos sendo rapidamente trocados por momentos de empolgação, como se o filme estivesse no modo aleatório de músicas, a produção consegue entregar uma conclusão interessante para sua trama e claro seus personagens. Assim, Soundtrack como um filme é uma ótima playlist que mostra em suas faixas, momentos em que amizade, companheirismo são importantes mas que no final cada um tem seu hit próprio para se levar em consideração. Um longa que pode não ser um estouro, ou um #1 nas paradas de sucesso mas que deve ser visto (escutado), apreciado e principalmente sentido.

Nota do Crítico:

Soundtrack entra em cartaz no dia 6 de julho.