Mostra SP 2018 | Roma – Resenha

Roma, novo filme do diretor Alfonso Cuáron, estreia no Brasil na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo depois ganhar o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Confira a sinopse:

O filme se passa no início dos anos 1970, na Cidade do México, e acompanha uma família de classe média. Cleo é uma doméstica que trabalha na casa de Sofia, mãe de quatro filhos e que sofre com a ausência do marido. Ela faz de tudo para ajudar a patroa a cuidar das crianças, a quem ama como se fossem seus próprios filhos, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o término de seu relacionamento. As duas mulheres lutam com as mudanças no lar e na cidade, que é tomada por milícias do governo e por passeatas de estudantes.

O que achamos: 

Provocador porém sutil: Roma, novo filme de Alfonso Cuarón, faz crítica social pesada da maneira mais leve já vista no cinema.

Em meio de um cenário político mundial repleto de líderes que pregam abertamente discursos sociais segregadores, a experiência de assistir ao novo filme de Cuarón, Roma, provoca uma sensação de dar nó na garganta.

Cuarón escreveu, dirigiu, produziu e fotografou o longa. Apesar do peso de tamanha responsabilidade, o mexicano vencedor do Oscar em 2014 por melhor direção com Gravidade, nos entrega uma direção marcante com uma fotografia deslumbrante que faz um ótimo uso do preto e branco, e uma belíssima história sutilmente escrita sobre isolamento social.

Roma narra a história de uma família de classe média com pai, mãe e cinco crianças que vivem no México, no local que dá nome ao filme. Temos, porém, Cleo (Yalitza Aparicio) como foco do filme, que trabalha na residência, cuida das crianças e reside numa espécie de sótão da casa principal.

Cleo representa uma classe trabalhadora que tem sua vida tomada pela vida de outros, para quem trabalha. Sua rotina é garantir que a rotina da família seja cumprida: cozinhando, servindo, lavando, organizando, limpando. Ela vive ali, come ali e até mesmo busca o significado de amor ali, mesmo que o espectador saiba – e sinta – que isso nunca será uma verdade.

Ao tentar se relacionar socialmente com amigos e ter um romance, acaba tendo seu coração partido por uma série de acontecimentos que seguem na trama. O doloroso é ver que Cleo não pode expressar suas dores e angústias, e acaba guardando para si todo o sofrimento, calado pela demanda de seguir a continuidade de seu trabalho.

Uma sequência do filme, em especial, dirigida em plano-sequência e belissimamente fotografada por Cuarón, deixa muito clara a questão da invisibilidade de Cleo: a família planeja passar um dia na praia, e Cleo menciona não entrar na água por não saber nadar. Mais tarde, duas das crianças estão brincando no mar, e são avisadas tanto por Cleo quanto pela mãe para não irem muito fundo. Instantes depois, a moça observa que as crianças desobedeceram à ordem e corre para a água para resgatá-las, ainda que assustada.

Quando consegue salvá-las, desaba em lágrimas nos braços da família. Mais tarde, quando chegam em casa, sra. Sofía (Marina de Tavira), a mãe das crianças, comenta com a avó: “As crianças quase se afogaram”, sem mencionar Cleo que, além de ter as salvado, correu um risco muito maior.

Cuarón conseguiu dar um rosto a toda uma classe, retratar muito bem uma realidade extremamente comum, vivida não apenas no país em que nasceu, mas ao redor do mundo inteiro. Cleo é a submissão, é a desigualdade, a carência de atenção e cuidado.

Não existem motivos para não torcer para que Roma conquiste seus espectadores e que Alfonso Cuarón leve para casa mais uma de outras várias estatuetas douradas.

Nota do Crítico:

Visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Previsão de estreia na Netflix em 14 de Dezembro