Rainhas do Crime | Crítica

Talvez o maior mérito de Rainhas do Crime (The Kitchen, 2019), além de juntar três atrizes talentosas e em alta em Hollywood, seja contar uma boa história para os tempos atuais, num momento onde o olhar feminino sobre personagens femininas tem ganhado um maior espaço nos cinemas.

Rainhas do Crime – Crítica | Foto: Warner Bros Pictures

Com uma estética visual bem chamativa, e uma ambientação bastante realista e vívida de uma Nova York dos anos 70, Rainhas do Crime entrega, apenas, um filme ok, com poucas surpresas, para contar as histórias de três mulheres que começam dominar o cenário criminoso no bairro de Hell’s Kitchen depois que seus maridos são presos. 

Assim, Rainhas do Crime entrega, além de uma história de superação contra adversidades que as mulheres passavam na época, um drama que envolve mafiosos e golpes, e que, felizmente faz uma proposta muito difícil de se recusar para quem gosta desse tipo de filmes. Aqui, temos muito dinheiro envolvido, brigas de gangues, passadas de pernas, e claro, cercado de boas doses de violência, onde tudo isso se apresenta depois que as três mulheres se encontram sozinhas, e sem seus maridos, para ajudar em casa e com os filhos.

Dirigido e escrito por Andrea Berloff, Rainhas do Crime acerta em mostrar um lado mais humano sobre as questões das proteções das máfias em Nova York, e ao mesmo tempo, não suaviza os conflitos que essa linha de trabalho possui. O longa, acerta também, em entregar um ritmo bem rápido para contar sua história, onde ao longo da trama vemos alguns anos se passarem para o trio de protagonistas, em que o ritmo frenético da edição é usado para acelerar algumas passagens, coisa que apenas beneficia o longa e que dá espaço para cada uma de suas atrizes principais darem o seu melhor com o pouco que tem.

Aqui, temos a talentosa atriz Elisabeth Moss, com um arco um pouco mais dramático, onde vemos sua personagem precisa criar forças para sair de um relacionamento abusivo contra o marido (Jeremy Bobb), coisa que Moss tira de letra as nuances e sutilezas que Claire mostra em tela, onde, talvez embalada por conta de seu trabalho na série The Handmaid’s Tale, a atriz consiga garantir bons momentos para sua personagem ao longo do filme. E num contraposto para a dramaticidade que Moss oferece, temos a divertida Tiffany Haddish, que em Rainhas do Crime aproveita a chance de trabalhar em uma produção um pouco mais séria do que o usual para a comediante em ascensão em Hollywood.

Elisabeth Moss, Melissa McCarthy, and Tiffany Haddish in The Kitchen (2019)
Rainhas do Crime – Crítica | Foto: Warner Bros Pictures

Com sua desbocada Ruby, Haddish talvez, entre as três, seja a que mais tenha material para ser explorado pelo roteiro, por ser negra, por ser mulher, e por ser negra e mulher numa organização mafiosa dominada por homens brancos heterossexuais irlandeses. E mesmo com o lado dramático que o filme oferece, a atriz entrega o seu o humor cativante e jeito malandro de ser, que marca presença em tela, e faz uma bela dupla junto com Melissa McCarthy, que como Kathy e sua confiança no marido Jimmy (Brian D’Arcy), prova que mesmo que inusitada a parceria entre as três, as atrizes foram muito bem escolhidas para dar o tom e a alma do filme.

Em Rainhas do Crime, as relações entre as personagens de Moss, Haddish e McCarthy, a proximidade entre as histórias que suas personagens oferecem, e a química entre elas, ajuda o filme a se apoiar em uma sororidade gigante para contar essa história num mix de Good Girls em Nova York e Big Little Lies do crime. Em papéis menores, os personagens de Domhnall Gleeson, como um membro da máfia, Bill Camp como um mafioso italiano rival e Margo Martindale como a sogra de Ruby, ainda conseguem dar um tom mais pesado, e muito maior para o filme dentro da trajetória que as protagonistas assumem ao quererem dominar a região.

Rainhas do Crime mostra as dificuldades e todos os percalços que elas precisam enfrentar para assumir os negócios dos maridos, impôr sua presença no bairro, e ainda, mostrar para os outros membros da organização a importância de família e do senso de comunidade. Assim, temos aqui um filme que fala sobre a luta contra o patriarcado, envolvida com uma trilha sonora empolgante que passa por faixas como Just Me And You, It’s a Man’s Man’s Man’s World, e The Chain, mesmo que em alguns momentos o roteiro se embole ao quer criar ganchos e reviravoltas desnecessárias para dar um ar mais grandioso para o filme do que ele pareça ser.

Assim, mesmo com alguns problemas ao longo do caminho, as coisas se acertam, e muito se dá pelo talento dos atores envolvidos, onde Rainhas do Crime faz o típico filme de máfia, em que temos muita negociação, acordos por baixo dos panos, e politicagem envolvida. No final, a produção ainda procura tempo para falar sobre questões envolvendo maternidade, preconceitos, e relacionamentos num filme mediano, mas que entrega algumas discussões interessantes e que definitivamente irá prender sua atenção por quase dois horas.

Nota do Crítico:

Rainhas do Crime chega em 8 de agosto nos cinemas.

Miguel Morales

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