Projeto Gemini | Crítica

O projeto de desenvolvimento de Projeto Gemini (Gemini Man, 2019) já circulava por Hollywood há alguns anos, passou pelas mãos de diversos estúdios até cair no colo da produtora Skydance e da Paramount Pictures, que tem abraçado algumas ideias bem diferentes do que o mercado tem apostado recentemente. 

Nesses anos que o projeto estava por aí, tentando sair do papel, a grande pergunta que rondava a produção era sobre como trabalhar as questões dos efeitos especiais que a história exigia, e se a indústria do cinema tinha ferramentas para realizar a proposta do filme: duplicar o personagem de Will Smith e criar uma versão mais jovem do mesmo.

Will Smith in Gemini Man (2019)
Projeto Gemini | Crítica – Foto: Paramount Pictures

E, enfim, prestes a ser lançado no circuito comercial, temos a resposta, num filme que veio para ser visto na maior tela possível e em IMAX. Sim, o grande chamativo de Projeto Gemini, além de trazer Will Smith em dose dupla interpretando dois personagens com a mesma aparência, mas com idades diferentes, talvez, seja todo o trabalho de tecnologia e de pós produção que foi criado e desenvolvido para o longa. 

Mas, também, em Projeto Gemini, parece que os produtores focaram tanto em desenvolver os efeitos visuais que esqueceram de trabalhar no roteiro que deixa muito a desejar. Escrito em três mãos pelos roteiristas David Benioff, da série de sucesso Game Of Thrones, Billy Ray que trabalhou no Operação Overload, e por Darren Lemke de Goosebumps: Monstros e Arrepios, o texto de Projeto Gemini não se sustenta como um longa de ação, e nem como um drama mais cabeça. Aqui, vemos os roteiristas patinarem para mesclarem motivações e questionamentos muito mais sérios, e até mesmo filosóficos, do que deveriam, com um ritmo frenético de uma história de espionagem. Assim, essa união faz com que Projeto Gemini fique com um ar cansativo, com diálogos intensos, e que devem fazer o espectador se questionar os motivos que os levaram a comprar o ingresso para ver o filme.

Nas nossas primeiras impressões do filme, elogiamos os efeitos especiais que foram criados para o projeto, onde continuamos a afirmar que realmente eles fazem toda a diferença para Projeto Gemini tentar sair do lugar comum. Toda a interação entre Henry (Smith) e Junior (Smith com tecnologia que rejuvenesce seu rosto) é bastante impactante, cativante, e as passagens são bastante importantes para o filme contar sua história. Smith segura as pontas e faz um trabalho dobrado eficaz, que não chega a ser uma Lupita Nyong’o em Nós, mas ainda consegue impressionar.

Assim, a tecnologia 3D+ que Projeto Gemini nos entrega realmente se mostra eficaz para ajudar o espectador a se sentir e fazer parte do filme, e ainda tentar curtir a experiência visual que o longa oferece. De uma forma mais leiga, parece que Projeto Gemini foi todo gravado usando o efeito de filtro da câmera do iPhone, em que a imagem central é nítida, mas o fundo é embaçado. No longa, com os óculos 3D, temos essa sensação ao vermos os personagens nos momentos mais calmos, e principalmente nas cenas de diálogos. 

Por um outro lado, Projeto Gemini até entrega momentos de adrenalina que chegam a empolgar, temos perseguições com motos em alta velocidade, corridas pelos prédios de uma cidade na America Latina, e sequências de explosão na Europa Oriental. O diretor Ang Lee, consegue trabalhar bem num projeto mais comercial e entrega cenas dignas de um filme de Michael Bay, onde tudo em Projeto Gemini é grandiosamente épico, seja as partes boas ou as partes ruins.

Will Smith and Mary Elizabeth Winstead in Gemini Man from Paramount Pictures, Skydance and Jerry Bruckheimer Films.

A presença de dois Will Smith, e o humor do personagem Benedict Wong, conseguem deixar o filme com uma cara de drama policial. Projeto Gemini acaba sempre voltar em algumas questões que parecem brincar com a inteligência de quem assiste, seja com o mistério do que é o tal projeto que dá o título nacional para o longa, ou sobre as motivações da personagem da atriz Mary Elizabeth Winstead, o projeto de vilão que o ator Clive Owen se apresenta, ou ainda sobre detalhes do passado de Henry (Smith) com sua aversão com espelhos e abelhas.

Assim, o roteiro de Projeto Gemini parece ter a necessidade de relembrar o espectador, a todo tempo, de situações e informações sobre os personagens para tentar reunir todas elas em algum tipo de reviravolta. Tudo chega a ser forçado, previsível, e quase maçante de se ver. A ideia de um agente governamental ter como alvo uma versão de si próprio é bastante convidativa, mas Projeto Gemini, infelizmente, nunca sabe explorar 100% as possibilidades que a história poderia nos entregar. 

A produção tenta, em diversos momentos, compensar o fato de saber que sua narrativa foi pobremente desenvolvida com o carisma que Smith exala nessa retomada de sua carreira, onde conta, em 2019, com o sucesso do live-action de Aladdin, e o ainda inédito Bad Boys 3, com um olhar mais afiado de Lee para certas passagens. 

No final, Projeto Gemini chega a ser um Projeto Frankenstein, onde temos vários tipos e gêneros de filmes colados e costurados em um só, coisa que faz da produção ser uma grande salada sem gosto nenhum. Nem a melhor tecnologia disponível, um dos últimos grandes astros de Hollywood, e um diretor talentoso conseguem salvar a produção de ser um filme abaixo da média.

Nota do Crítico:

Projeto Gemini chega em 10 de outubro nos cinemas.

Miguel Morales

Sempre posso ser visto lá no Twitter falando sobre o que acontece na TV aberta, nas séries, no cinema e claro outras besteiras. Uso chapéu branco e grito It's Handled! Me segue lá: twitter.com/mpmorales