Projeto Flórida | Crítica

Nessa safra chamada de “filmes do Oscar”, Projeto Florida (The Florida Project, 2017) se destaca por sua simplicidade e acerta em ser um dos filmes mais bonitos dos últimos tempos. Com um visual colorido, a produção apresenta uma história adorável focada num grupo de crianças que vivem no Estado americano da Flórida e ao mesmo tempo também conta com detalhes o dia-a-dia de adultos que moram junto com elas.

Ao mostrar uma realidade pesada e bastante difícil, Projeto Flórida tem ótimas atuações, um roteiro envolvente e que no final acaba sendo um filme que chama atenção.

Foto: Diamond Films/A24

Quando falamos que o longa é simples não quer dizer que ele é comum ou mais do mesmo e sim que trabalha de uma forma quase documental e sem muitos efeitos especiais ou jogadas de câmera bruscas para contar de uma forma simples sua história. O filme também aposta nas atuações do seu pequeno grupo de atores e claro no seu bom texto para contar uma trama emocionante e tocante sobre a realidade de pessoas que moram em um hotel de beira de estrada, as margens de um dos parques da Disney.

E um dos maiores acertos de Projeto Florida é conseguir contar o filme por duas perspectivas: uma do lado das crianças comandamos pela curiosa e desbocada Moone, a estrela mirim Brooklyn Prince Jones que literalmente rouba todas as cenas e é a criança em tela mais bem desenvolta e verdadeira desde de Jacob Tremblay em O Quarto de Jack (2015). Sua personagem está em plenas férias e junto com os amigos eles querem aproveitar o verão e assim acompanhamos o dia-a-dia das crianças se divertindo pelos arredores dos apartamentos onde estão sempre bolando uma nova brincadeira ou alguma forma de diversão até mesmo procurando aventuras em salas trancadas e proibidas ou nos quiosques de sorvete.

O filme então começa a fazer um paralelo entre o mundo cheio de guloseimas, dedos melados e cantorias com a outra perspectiva, a da forte e triste realidade dos adultos que vivem de bicos para conseguirem pagar o aluguel e tocarem suas vidas e claro das crianças. As histórias acabam se entrelaçando e o sentimento de inocência e aventureiro das crianças vai dando espaço para preocupações mais adultas como as máquinas de lavar quebradas, não ser promovida no emprego e uma das principais de não conseguir dinheiro para não ser expulso do quarto.

Projeto Florida então vai a cada cena, a cada diálogo mostrando que o mundo é um lugar perigoso e assustador mesmo com as crianças vivendo em seu próprio mundo cheio de risadas, brincadeiras e diversões. Para Moone e seus amigos, a maior aventura que eles podem viver é ir visitar uma casa vazia lá longe, depois de todos os hotéis e brincar com móveis vazios e entulhos de obras. Essa brincadeira de criança, acaba gerando uma série de eventos que se desenrolam ao longo do filme afetando o “mundo dos adultos”. Já para a mãe de Moone, Halley (a iniciante Bria Vinaite) e os outros moradores do prédio, o mundo é um lugar injusto e ameaçador e eles parecem só estarem sobrevivendo e vivendo sem sentido ou propósito além de arrecadarem dinheiro para terem um lugar para morar.

Foto: Diamond Filmes/A24

Willem Dafoe como o Zelador Bobby entrega uma atuação paternal, preocupada e acaba uma das melhores performances do ator em anos. Literalmente o “faz tudo do prédio” vemos o personagem sendo uma ponte ou interlocutor entre o “mundo encantado das crianças”e o “mundo sombrio dos adultos” e Dafoe consegue navegar com os problemas e desafios de ambos os lados e que acabam fazendo o ator realmente se sobressair dentro de um elenco pouco conhecido.

Como falamos, o diretor Sean Baker opta pela simplicidade mesmo nas tomadas, onde muitas delas são aéreas e que dão a dimensão que as crianças são apenas um pontinho no mundo. Com cores fortes, vibrantes e que se destacam na tela, o diretor varia as cenas entre closes bastante específicos dos personagens com planos bastante abertos o que cria um mix de proximidade mas também acaba dando a impressão de que estamos dentro de um documentário seguindo a vida dos personagens.

Mesmo que as crianças acabem sendo irritáveis e barulhentas e os adultos irresponsáveis e sem noção o filme deixa tudo bem casado e essas situações acabam por ficar dentro do contexto do longa o que deixa tudo ainda mais bacana, mesmo que às vezes parece que estamos num grande grande big brother acompanhando detalhes e situações do dia-a-dia dos personagens que acabam sendo mais cenas de construção de personagem do que momentos de fazer a trama avançar e fluir.

Com personagens extremamente humanos e bem desenvolvidos, Baker faz de Projeto Florida um filme sobre uma parte da população muitas vezes marginalizada e sofre para conseguir seguir com a vida. O roteiro caminha para ter uma surpresa aqui e ali mas não entrega suas histórias de uma forma rápida, a trama flerta com algumas situações para depois lá na frente te contar com detalhes o que foi apresentado de uma forma as vezes bastante visual. Os momentos finais mostram um trabalho de desenvolvimento fantástico de personagem e contam com algumas das cenas mais emocionantes e sinceras do filme.

Uma aventura fantástica sobre juventude e amadurecimento, Projeto Flórida então emociona num dos filmes mais interessantes e bonitos do ano.

Nota do Crítico:

Projeto Flórida tem previsão de estreia para 1o Março nos cinemas nacionais. 

Miguel Morales

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