Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas | Crítica

2017 realmente é o ano da Mulher-Maravilha! Tanto no seu filme solo, quanto filme com os super-amigos a personagem vem como uma reafirmação positiva sobre igualdade de gêneros, aceitação e claro poder. Mas o mais curioso é que num filme chamado Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas nem a personagem de Diana Prince e muito menos o tal professor são os destaques, aqui quem rouba a atenção são as “esposas” dele. Claro que em Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas (Professor Marston and the Wonder Women, 2017), Marston tem sua importância tanto na trama do filme como na História de uma maneira geral, mas o roteiro mesmo que irregular consegue mostrar a força das mulheres presentes na vida dele.

Assim acompanhamos a trajetória de William Moulton Marston que entre muitas coisas foi professor de teoria do comportamento humano, criador do polígrafo, do teste psicológico DISC e claro da icônica personagem Mulher-Maravilha. O inventor vivia com sua esposa Elizabeth Marston (a apaixonante Rebecca Hall) e o filme narra de uma forma até mesmo um pouco romantizada a aproximação do casal com a assistente Olive Byrne (Bella Heathcote) e como os três viveram uma relação de poliamor que para a época era até mesmo ilegal.

Foto: Sony Pictures

O que o filme tem de melhor são suas atuações que são bem fortes e cativantes, Hall esbanja carisma como a desbocada Elizabeth, suas falas são ácidas, precisas e literalmente mostram a personagem como uma mulher moderna, independente e que luta com a descoberta de sua sexualidade. Heathcote consegue transitar entre ser uma figura angelical mas que depois começa a conhecer mais sobre si própria. Connie Britton como a presidente do Conselho de histórias em quadrinhos que investiga as denuncias contra Marston de objetificar a personagem em suas histórias também faz de seu papel pequeno uma grande atuação.

Em todas as suas cenas com Luke Evans, onde ambos passam quase todo tempo sentados frente à frente são bastante curiosas e dependem muito das expressões faciais dos dois, num verdadeiro jogo de gato e rato. Evans apela por sua masculinidade para desenvolver um personagem interessante mas acaba sendo engolido pelas companheiras de elenco que realmente acabam por ter um química mais paupalvel em tela.

O filme tem um humor um pouco mais refinado com algumas sacadas bacanas e sutis em relação ao começo do relacionamento dos três e claro de como Marston acabou por criar a Mulher-Maravilha na semelhança de sua própria história. Uma das mais belas cenas do longa é quando a máquina do polígrafo é testado e basicamente inventado pelos Marston, as sequências são bonitas, charmosas e depende muito das boas atuações dos atores e claro da edição que precisa trabalhar três posições em cena para capitar as reações dos personagens. As caracterizações de época são um ótimo acerto, todos os figurinos e ambientações estão muito bem feitos e o filme consegue trabalhar bem os simbolismos relacionados a vida dos Marston com as questões de dominação, submissão e sexo.

Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas é um filme sutil, nada é explicito ou jogado na cara do espectador, o que acaba fazendo do filme ser tão importante para o entendimento do ser humano quanto a própria importância da personagem da Mulher-Maravilha como um espelho para mulheres que cercam a vida de Marston. Como falamos, o longa tem um problema de ritmo, o primeiro bloco do filme é muito mas lento e serve como um desbravador na situação que os Marsons estão e a história envolvendo a criação da Mulher-Maravilha pouco é citada, se você espera um filme completamente focado nisso talvez se decepcione, o filme é sobre explorar sobre sentimentos e o roteiro trabalha com idéias e te faz desconstruir pré-julgamentos.

Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas é sobre a conexão que essas pessoas tiverem e como isso ajudou a criar uma das personagens mais clássicas dos quadrinhos. O filme mostra as analogias sobre como a heroína acabou por servir como uma escapada da triste realidade que o trio vivia, como eles precisarem se esconder em trabalhos menores do que a capacidade deles para se misturarem com a sociedade. E nisso que a edição e um pouco do roteiro falha, ele cria uma narrativa mesmo que crescente totalmente desproporcional ao fazer um começo um pouco mais parado, intimista para depois ficar mais ágil e menos bem trabalhado, como se a produção tivesse que ter cortado cenas e editado o filme mais rápido que poderiam.

Afinal o filme também é uma história de conquista, uma conquista dupla de todos os lados. Um dos melhores momentos do filme fica para quando Olive veste pela primeira vez uma roupa parecida com a da Mulher-Maravilha e usa o que seria lá na frente o laço da verdade para fazer uma sessão de bondage. Talvez não seja um filme de fácil aceitação para o grande publico mas a produção impressiona com a naturalidade em todas as cenas são feitas e a com a sutileza apresenta sem depender de cenas sensuais para contar sua história.

No final, Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas é um filme sobre auto-descoberta, aceitação e mais que uma auto-biografia é uma história marcante, com cenas engraçadas mas com um humor mais classudo e refinado e brilhantemente bem atuado. Como todo ser humano tem falhas o filme consegue se segurar e faz deles uma das grandes surpresas do ano ao contar um romance sobre superação, relacionamentos e amor.

Nota do Crítico:

Filme visto no Festival Mix Brasil em São Paulo.

Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas tem data de estreia programada para 14 de dezembro.