Por que os filmes demoram muito para chegar no Brasil?

Por que os filmes demoram muito para chegar no Brasil? Essa é uma pergunta que vira e mexe as pessoas fazem, me fazem e claro que eu mesmo já fiz. Conhecendo um pouco do mercado é dificil responder com 100% de certeza. Talvez a principal resposta, que não seja a única e muito menos a verdade universal é: dinheiro!

Os estúdios e seus investidores no final só pensam em uma coisa: o retorno do dinheiro investido naquela produção. Afinal temos todo um processo envolvido. O filme entra em pré-produção, tem aprovação do roteiro, escolha do elenco, conciliação de agendas, gravações, pós-produção, venda de direitos internacionais, licenciamento de produtos, eventos de imprensa, festivais… Ufa! E isso é só a ponta do iceberg!

Mas por que os filmes no Brasil demoram muito para chegar? Sejam eles filmes americanos, europeus ou de outras produções até mesmo nacional. Bem primeiro se comparamos a quantidade de cinemas que temos nos EUA (mais de 5.000) com as do Brasil (mais de 700) e já vemos a diferença na quantidade de filmes lançados lá e aqui.

Liga da Justiça

Cinema hoje em dia pode ser considerado uma aventura de luxo, afinal em São Paulo pode chegar até 90 reais em Salas Premium, então os distribuidores tem que apostar em filmes que eles acham que devem ter retorno do público. Vamos pegar o exemplo de Liga da Justiça, da Warner Bros, que abriu em 92% dos cinemas do Brasil e foi exibido em mais de 35% de todas as salas do país, isso é muito alto. O filme rendeu mais de 30 milhões de reais em bilheteira e fez um público de quase 2 milhões de pessoas no seu final de semana de estreia.

Se olharmos no mesmo período, no começo mês anterior o blockbuster do momento era da Sony Pictures, que tinha aberto com Blade Runner 2049, que ficou em número 1 na semana de estreia, mas fez “apenas” 5 milhões de reais e levou 200.000 pessoas para as salas.

No Brasil são os blockbusters que carregam as programações. Isso leva também a outros dois critérios que impedem a chegada de novas produções, um é que o brasileiro ama um bom blockbuster e de uns tempos para cá não quer esperar para assistir depois da estreia americana, ele quer fazer parte da conversa, falar mal, falar bem, fazer piada e meme em redes sociais.

Os estúdios tem reparado nisso e de uns tempos para cá as coisas mudaram, a Warner Bros aprendeu isso a duras penas com a estreia de O Homem de Aço, que em 2013 estreou nos EUA em Junho (verão lá) e a filial brasileira lançou ele 1 mês depois, nas férias escolares aqui. Claro que o longa teve sessões de pré-estreias durante algumas semanas antes, mas será que isso foi decisão do estúdio? Ou dos distribuidores?

Afinal Julho é mês de férias, o grande público deve ir aos cinemas. Certo? É uma aposta muito grande, afinal é férias, você tem inúmeras outras formas de aproveitar o tempo. A Disney Brasil ainda joga suas tradicionais animações que nos EUA estreiam em Novembro, como Frozen – Uma Aventura Congelante e o inédito aqui Viva – A Vida É Uma Festa, para Janeiro onde a justificativa é que nas férias as pessoas vão mais ao cinema. Assim, os grandes estúdios perceberam isso e de um tempo para cá os blockbusters acabam estreando ou antes como a Marvel e a Disney Brasil fazem com os filmes do estúdio ou na mesma semana aqui afinal é tempo é dinheiro. E dinheiro que faz as coisas rodarem

Mas tá, mas não só de grandes produções vivem o cinema, não é? Temos os filmes menores e os filmes independentes e aí que mora o perigo, e o nosso segundo critério: o fato do brasileiro amar um filme blockbuster quando estreia uma outra produção fora do circuito comercial aquele dinheiro que o o público pagando reservar acaba indo para qual filme? Por que não é todo mundo que pode ir no cinema toda a semana certo? Por mais que os públicos sejam diferentes e o mesmo cara que vá assistir Thor: Ragnarok (que abriu 1500 salas) não vai assistir Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca (abriu 46 salas) né? Até pode ir mas que as chances são pequenas elas são.

Mas talvez seja o perfil dessa pessoa e falte opção para ela. Para os filmes menores os chamados de independentes o que salva suas exibições aqui são as temporadas de premiações o que infelizmente acaba deixando a maioria dos filmes socados na programação dos cinemas e confinados a uma época especifica do ano, os meses de Janeiro, Fevereiro e Março, são um exemplo?

O filme da Paramount Pictures, Um Limite Entre Nós que só ganhou data de exibição após a atriz Viola Davis começar a fazer a rapa nas premiações, mesmo que o filme estivesse na lista do público há um bom tempo. O mesmo aconteceu com o filme O Que Te Faz Mais Forte que a Paris Filmes ia exibir em Novembro logo após passar no Festival do Rio e foi jogado para Fevereiro de 2018 pelo fato que talvez tenha a possibilidade de garantir prêmios. Quanto maior a divulgação espontânea melhor, vide o que aconteceu com Doentes de Amor, da California Filmes lá nos EUA mas que aqui no Brasil teve um lançamento tímido e quase escondido. Talvez o pior caso em 2017 tenha sido com o filme A Guerra dos Sexos da FOX Film que ficou menos de duas semanas em cartaz e tem Emma Stone, Steve Carrel e deve ser indicado nas premiações do começo do ano.

Opção, é isso que difere os lançamentos nos EUA e aqui. E o que fica claro é a aposta dos exibidores nos filmes em tentarem ficar no saldo positivo com um grande filme que possa pagar as contas de filmes pequenos. Com os estúdios maiores agora cada vez mais observando a possibilidade que os filmes não são estritamente só comerciais para conseguirem forçar produções também as produções pequenas afinal para cada mãe! da Paramount Pictures tem um Transformers para pagar as contas, para cada Lady Bird – É Hora de Voar (que só chega em Abril de 2018, 5 meses depois que estreou nos EUA) da Universal tem um 50 Tons-de alguma coisa. É usar o poder de barganha e não ficar dependendo de feriados e outras datas para deixar a programação diluída ao longo do ano.

É pensar que hoje num mundo super conectado tem espaço para todos as pessoas vão atrás de informações dos filmes, de trailers e que o filme do momento seja ele um Oscarizado ou uma aventura de super-herói tem que acompanhar o círculo de noticias.

Os filmes pequenos agradecem, o boca a boca quanto maior melhor, brasileiro gosta de cinema mesmo que acabe tendo que ver um filme repetido mesmo quando a programação “tá fraca”. Todo mundo poderia ganhar mais dinheiro se em vez de várias salas com o mesmo filme tiverem diferentes salas com mais opções do cinema. Quanto uma variedade de filmes maior, melhor o cinema já precisa competir com outras mídias que ele não tenha que competir com ele mesmo.

Todas as informações foram retiradas do Portal Exibidor.

[Atualização – 29/12]

Lady Bird – A Hora de Voar chega em 15/02 nos cinemas.
A Guerra dos Sexos teve indicação no Globo de Ouro de Melhor Ator em filme de comédia para Steve Carell e Melhor Atriz em filme de comédia para Emma Stone.

Miguel Morales

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