O Sacrifício do Cervo Sagrado | Crítica

Sem dúvidas podemos dizer que O Sacrifício do Cervo Sagrado é o filme mais surreal, estranho e viciante da temporada. O diretor Yorgos Lanthimos, do polêmico O Lagosta (2015), faz novamente um belo retrato das relações humanas, de suas escolhas, incertezas e claro de toda a complexidade que envolve do ser humano. Cheio de metáforas, o filme fala sobre sacrifícios, vingança, poder, vaidade e tudo isso com um elenco fantástico que entregam performances magnéticas, vibrantes e precisas.

Foto: Diamond Films/A24

Na trama conhecemos o Dr. Steven Murphy (o ótimo Colin Farrell) um cirurgião que vive com a esposa a dedicada Anna (Nicole Kidman). O casal tem dois filhos, Bob (Sunny Suljian) e Kim (Raffey Cassidy) e vivem uma vida confortável no subúrbio. E Lanthimos logo no início consegue representar bem as interações da família que se apresentam de um jeito estranho, frio e distante. Nicole Kidman se afirma como uma das melhores atrizes de sua geração transmitindo uma melancólica que apenas reafirma a profundidade de sua personagem que é cativante e atriz entrega uma atuação muito impactante. Colin Farrell consegue passar ao mesmo tempo diversas emoções em tela que variam entre desconforto, tédio e claro raiva numa atuação também bastante impressionante do ator.

O Sacrifício do Cervo Sagrado desde do começo exala mistério e a princípio parece ser um drama comum sobre uma família estranha mas nos entrega uma história diferente e fora dos padrões e que fica cada vez mais empolgante na medida que Martin (o fantástico Barry Keoghan) entra na história. Logo de cara sabemos que o pai do rapaz morreu numa cirurgia feita pelo Dr. Murphy mas o que não sabemos é motivo do personagem estar envolvido com ele. Os dois tem um caso? Ele é filho do médico? O médico vai adotar o menino por conta de sua consciência pesada? O filme nos apresenta uma relação bastante singular entre os dois e que chega a ser até obsessiva e claramente deixa a trama com um ar ainda mais paranoico do que o filme já apresenta.

Então o longa atinge seu ápice depois que Martin começa a frequentar a casa da família, fazer parte do dia-a-dia e ter um contato maior com Kim, a filha do médico. Assim, eventos estranhos começam a acontecer, primeiro com o menino e depois com a menina e aí nada mais faz sentido nesse filme o que deixa ele ainda mais empolgante, afinal O QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO? Keoghan passa uma atuação magnifica que te envolve e prende atenção no momento que o personagem aparece. Uma das melhores cenas do longa é quando o personagem aparece comendo uma macarronada com uma camisa branca que representa todo o sentimento que O Sacrifício do Cervo Sagrado quer passar: tensão a cada momento.

Mesmo não parando para se explicar e muito menos dar uma justificativa plausível para os eventos apresentados,  Yorgos Lanthimos, continua a jogar novas cartas na mesa na medida que a nossa mão está completamente cheia. E assim somos surpreendidos mais uma vez quando Martin dá seu ultimato para o Dr. Murphy, para então o filme ganhar uma nova forma e passar a ter um sentimento de urgência deixando o longa com um ritmo ainda mais alucinante: o médico precisa matar um membro da família se ele quiser que todos os outros sobrevivam.

Chega nessa hora a nossa mente está confusa e O Sacrifício do Cervo Sagrado faz então mais uma de suas viradas de roteiro em que a produção deixa de ser somente um filme perturbador para termos a certeza que está ali para desgraçar sua cabeça ao te fazer procurar todas as explicações necessárias sobre todas as alegóricas que o filme quer transmitir.

Foto: Diamond Films/A24

E a aqui a inspiração de Lanthimos vem da mitologia grega com Agamemnon que atiçou a ira dos deuses ao pedir ventos para navegar com seus navios mas que para isso precisava matar uma de suas filhas e o mito é transportado para o filme e para a história fazendo um dos maiores acertos do roteiro ao mostrar justamente a questão da intervenção dos Deuses na vida dos mortais com Martin fazendo o papel dos Deuses, julgando e trazendo justiça para a família Murphy, a sua maneira.

O Sacrifício do Cervo Sagrado é um filme complexo, cheio de nuances e assustador mas que não se apoia ao sobrenatural para contar sua história. O longa apenas insere partes da mitologia em sua história de uma forma magnifica, numa fotografia imaculada, com tons voltados para um o bege e o branco que deixa o filme com uma cara de estarmos passeando em um sonho (ou um pesadelo).

No final o filme é um daqueles para assistir e assistir novamente sempre na busca de detalhes para ver o longa com outros olhos. Mesmo precisando falar mais, ser um pouco mais explicito e sugerir de menos O Sacrifício do Cervo Sagrado é uma obra primorosa feita para agradar aqueles que gostam de um bom suspense e um terror mais psicológico.

Nota do Crítico:

O Sacrifício do Cervo Sagrado estreia em 8 de fevereiro nos cinemas.

Miguel Morales

Sempre posso ser visto lá no Twitter falando sobre o que acontece na TV aberta, nas séries, no cinema e claro outras besteiras. Uso chapéu branco e grito It's Handled! Me segue lá: twitter.com/mpmorales