O Pintassilgo | Crítica

O maior dos problemas de O Pintassilgo (The Goldfinch, 2019) acaba por ser que a produção parece sofrer com a necessidade constante de Hollywood de sempre precisar olhar para outras mídias para contar e transportar uma história para as telonas. Aliado à isso, o longa tenta usar o fato de ter grandes nomes de Hollywood para descaradamente compensar alguns probleminhas que nos deparamos ao parar para assistir as suas quase 3 horas de duração.

Assim, O Pintassilgo entrega um filme extremamente longo e cansativo, mas que por outro lado, até acerta em nos deixar completamente vidrado e curioso para saber o que vai acontecer no seu decorrer. Em relação à isso, o seu maior mérito, talvez, acabe por ficar mais para Donna Tart, autora do livro na qual o filme se baseia, do que com o roteirista Peter Straughan que adaptou a história para longa metragem. Fica a impressão, ao ver o filme, que por mais que Tart tenha criado personagens marcantes e cheio de pequenas camadas, eles são pouco desenvolvidos por Straughan ao longo do filme. Talvez, seja a quantidade de figuras que circulam a história e fazem com que o roteiro acabe por ficar bastante inflado, ou seja pelo fato que os personagens tenham suas diversas versões ao longo dos anos que o filme aborda, mostradas em tela, onde aqui, acaba que eles tenham pouco espaço para serem trabalhados.

No fundo, o filme só nos desenvolve bem a figura do protagonista, e olhe lá. É mesmo assim, O Pintassilgo leva tempo para nos ambientar no mundo de Theo Decker, seja na sua versão jovem, interpretada por Oakes Fegley, ou na sua versão adulta por Ansel Elgort que parece tentar ser um novo Matt Demon de O Talentoso Sr. Ripley, mas falha em sua execução, entregando uma atuação rasa e quase mecânica. A produção cria um ritmo de vai e vem com as linhas narrativas fragmentadas que permeiam o filme o tempo todo de uma forma que a história é contada de uma forma bastante lenta, e que nos deixa um pouco angustiados com as informações que são apresentadas aos poucos pela edição que usa cortes bruscos para mostrar as passagens de tempo ao longo da vida de Decker. 

O Pintassilgo | Crítica – Foto: Warner Bros Pictures

Por um outro lado, O Pintassilgo faz uma construção de personagem bastante minuciosa sobre o jovem rapaz que vê sua vida mudar radicalmente após um atentado terrorista acontecer num museu em Nova York. Quando Decker vê sua mãe morrer no atentado, ele acaba por guardar para si, como lembrança do evento – e da figura maternal – um quadro do artista holandês Fabritius que logo em seguida é dado como desaparecido.

Assim, O Pintassilgo faz um drama intenso, profundo e bastante contemplativo sobre memórias, lutos e escolhas. Como falamos, a história criada por Tart chega a ser fascinante e nos desperta uma sensação de curiosidade ao introduzir a cada minuto um novo pedaço de informação sobre a vida do jovem marcada por tragédias, solidão e tristeza.

O longa consegue mostrar o quanto as pessoas na vida de Decker conseguiram moldar sua figura e seu caráter desde dos tempos que era criança até ele se tornar um adulto problemático viciado em mentiras, drogas, e completamente de dependente do passado.

A jornada que o personagem enfrenta é gigante, e o filme abusa de momentos para deixar isso claro, seja nas passagens que o jovem vai viver com a abastada família Barbour, após a morte da mãe, sob a tutela do Sr. Barbour (Boyd Gaines) e da Sra Barbour (Nicole Kidman, sempre excelente), passando pelas mãos do pai trambiqueiro Larry (Luke Wilson, caricato) e sua esposa Xandra (Sarah Paulson, bem e fora da sua zona de conforto), até mesmo em desenvolver a relação com o amigo, e logo depois, parceiro de trabalho que serve como uma espécie de mentor (Jeffrey Wright, ótimo). 

O Pintassilgo se apoia então, no grande elenco para contar os momentos chaves da vida do jovem Theo, criar paralelos sobre oportunidades perdidas, onde muitos deles acabam por ser apenas recortes fragmentados que parecem ter algum tipo de necessidade obrigatória de estarem na adaptação a todo custo, e apenas travam a fluidez da trama somente pelo fato que estão presentes na narrativa do filme apenas pelo motivo de terem aparecido no livro.

Assim, o longa sofre com uma falta de edição, e de alguém na ilha de produção com uma tesoura para cortar certas passagens, principalmente lá no meio, enquanto o roteirista esquece todos os personagens que vimos nos primeiros momentos para introduzir novos elementos para a história, seja sobre o paradeiro do quadro do pássaro que dá o título ao filme, ou sobre o amigo ucraniano (Finn Wolfhard numa vibe meio Edward Mãos de Tesoura com Klaus da série The Umbrella Academy) que Theo faz durante sua estadia com seu pai, e que parece aparecer na história apenas para justificar certas coisas que irão acontecer lá para frente na trama.

O Pintassilgo | Crítica – Foto: Warner Bros Pictures

E aqui, talvez, seja o momento que O Pintassilgo leve seu maior golpe, com as reviravoltas que trama oferece, onde o longa abusa do sentimento de “O que mais virá pela frente?”, onde isso tudo é envolto numa fotografia escura, que parece abusar de algum filtro no instagram, de uma trilha melancólica para nos fazer tentar se importar com os personagens, e criar algum tipo envolvimento e conexão com as decisões que eles tomam, sabendo que as consequências virão à qualquer momento.  

O Pintassilgo parece cantar sua melodia para tentar ser um filme para Oscar, mas apenas deve passar batido na temporada de premiações. A produção chega a se esforçar ao extremo para fazer isso acontecer, mas aqui isso, não chega a ser o caso.

Com alguns momentos quase surreais e às vezes um pouco fantasiosos, O Pintassilgo tenta ser um filme que trabalha as questões do poder de nossas escolhas, e como tudo aquilo que fazemos gera um mar de consequências que às vezes acabam por não ser bem aquilo que esperamos.

No final, O Pintassilgo é como uma pintura vista pelos personagens do filme seja na sala da personagem de Kidman ou numa galeria, num primeiro olhar, de longe, até parece ser muito bela, mas ao chegarmos perto vemos os detalhes das imperfeições se destacarem na luz. Uma pena, uma obra premiada com Prêmio Pulitzer, e um elenco estrelar merecia uma adaptação à altura.

Nota do Crítico:

O Pintassilgo chega em 10 de outubro nos cinemas.

Miguel Morales

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