O Beijo no Asfalto | Crítica

Exibido na 41ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, O Beijo no Asfalto (2017) é um filme sincero em todos os aspectos, seja em sua edição, seja em sua linguagem mais ousada. Dirigido por Murilo Benício, o filme é um projeto que o também ator vem trabalhando há mais de 10 anos e chegando nas telonas notamos o carinho e o empenho que ele coloca em seu primeiro longa-metragem.

O Beijo no Asfalto é uma adaptação da peça homônima de Nelson Rodrigues e conta a história de um homem em seu ato de misericórdia quando dá um beijo na boca de um homem desconhecido que estava morrendo após ser atropelado por uma lotação. A partir de então vemos um jornalista disposto a dar a notícia, seja qual for, e como o ato de Arandir acaba envolvendo toda a sua família em um redemoinho de tragédias. A peça foi escrita por Rodrigues em 1961.

Com um elenco de peso encabeçado por Lázaro Ramos e Debora Falabella nos papéis principais, o filme ainda conta com Augusto Madeira, Otavio Muller, Luiza Tiso, e as participações mais do que especiais de Amir Haddad, Stênio Garcia e Fernanda Montenegro. A sensibilidade e a conexão entre os atores na mesa de leitura da peça é de uma comoção completa, ainda mais com Haddad e Montenegro, dois grandes veteranos dos palcos entregando tanto em cena.

E falando na leitura de mesa, a escolha de Benício em não adaptar o texto de Rodrigues para as telonas de forma convencional, mas sim nos entregar todo o trabalho de adaptação de uma peça deu um tom incrível a produção. Ver a leitura de mesa com aprofundamento nos sentimentos de cada personagem e a passagem por tudo aquilo, a preparação dos artistas, principalmente os métodos de Garcia, a leitura entre Falabella e Tiso com corte entre os camarins e a cena já na sala. Apostar no clima noir e na construção dos personagens foi a melhor escolha de Benício.

Só que essas escolhas não atrapalham em nada a imersão na história de Arandir e sua família, ou as atitudes de todos os personagens. O filme expõem com frieza até onde o jornalista Ribeiro está disposto a ir para ter sua matéria, ou como a capa do jornal pode elevar um desconhecido a um posto de culpa por toda a sociedade, e ainda mais, como esconder os sentimentos podem ser tão duros. Se parar para refletir o texto de 1961 de Rodrigues é mais atual do que nunca, em uma época em que as redes sociais podem expor as feridas humanas.

A trilha sonora por si já é deliciosa, mas então temos Ney Matogrosso interpretando a canção “A Vida é Ruim“, cedida por Caetano Veloso e entregando uma interpretação única, que nos envolve em cada situação em que aparece na película.

O Beijo no Asfalto é cheio de nuances e com uma fotografia belíssima, além de atuações brilhantes, mas é o amor de Benício que sentimos em cada cena, cada transição e em cada camada que o projeto apresenta. Trazer Fernanda Montenegro para a mesa de leitura foi uma escolha deliciosa, já que ela participou da primeira encenação da peça, trazendo consigo muito da história envolvida, como o verdadeiro Amado Ribeiro gritava da plateia que ele era pior do que estava sendo apresentado.

Nota do Crítico:

O Beijo no Asfalto tem previsão de estreia para o primeiro semestre de 2018.

Dan Artimos

Sou formado em Sistemas de Informações, e amante de televisão. Trabalho, leio bastante, estudo, vou a cinemas, parques e corro (ultrapassada a meta pessoal dos 21km), e ainda assim vejo séries e escrevo sobre elas. Sim, nem eu sei como consigo fazer a organização de minha agenda no meio de tantas nerdices.