O Animal Cordial | Crítica

O nacional O Animal Cordial consegue contar um filme que mescla terror e suspense na medida certa e que talvez seja um dos filmes mais grotescos e pesados do ano. E isso claramente é elogio ao longa de Gabriela Amaral Almeida.

O Animal Cordial : Foto
Foto: California Filmes

O filme que tem um jeitão bem teatral com seu ar de produção de terror de baixo orçamento acaba sendo bem simples, afinal se passa exclusivamente dentro de um restaurante de São Paulo e tem praticamente dois ambientes: o salão e a cozinha. Mas a simplicidade para por aí, pois no meio disso tudo, o filme consegue contar uma história que é fatiada em pedaços que mostram o pior do brasileiro, onde as relações humanas que parecem ficar cada vez mais animalescas e o sentimento de intolerância para o próximo poderia ser visto em qualquer telejornal das 8h da noite.

O personagem principal de O Animal Cordial é aquela plena definição do que se espera de um chamado “cidadão de bem” aquele que luta para manter as coisas do jeito que são apenas por comodidade para si mesmo mas que no final é preconceituoso até o último fio de cabelo que apenas tolera a presença de mulheres, homossexuais e nordestinos no mesmo ambiente que ele. E é que assim, que o logo no começo, o filme já parte para nos mostrar as dinâmicas sociais (tanto pessoais quando profissionais) que envolvem o restaurante, com suas tramas que parecem, num primeiro momento serem isoladas mas que a cada cena, a cada frase dita, mostra que elas são muito interligadas entre si e que ultrapassam a relação entre empregado-e-patrão.

No longa, um acaso que poderia acontecer com qualquer um que vive numa cidade grande, realmente acontece com Inácio (o excelente Murilo Benicio), o citado bom cidadão e assim, o dono do estabelecimento se vê junto com seus funcionários, Djair um ótimo e esforçado cozinheiro trans (Irandhir Santos que rouba todas as cenas) e a garçonete pau-mandado Sara (a talentosa por demais Luciana Paes) quando eles e três clientes são rendidos por bandidos ao final do expediente.

Camila Morgado faz uma socialite no seu melhor estilo e sua pequena sub-trama com a garçonete Sara é uma troca de poderes gigante e mostra bem como funciona a balança entre a sociedade feminina sem a bandeira da sororidade envolvida: cada uma por si. Humberto Carrão até que convence como um assaltante mas sua participação, sem revelar detalhes da trama, é bem reduzida.

Assim, o que parecia ser uma noite de vitória fácil para os bandidos é transformada pelo sentimento de primordial de defesa desses personagens, onde vemos as pessoas de bem se transfigurarem em pessoas do mal que eles tanto lutam contra. É como ver um homem se transformar em lobisomem usando o folclore brasileiro de exemplo.

Foto: California Filmes

Assim, a cada cena de O Animal Cordial temos uma história que impacta, choca e que te deixa vidrado em tela para saber o que irá acontecer com aquele grupo heterogêneo da sociedade. No final, essas pessoas quando presas dentro do restaurante, sem mais nenhuma amarra daquelas que a sociedade os impõe, viram apenas humanos, pessoas com coração, osso e sangue que pulsa pelo corpo. E isso, o filme trabalha muito bem, o sangue.

O Animal Cordial é um daqueles banhos de sangue que não faz feio para cima de nenhum filme no estilo slasher americano. A fotografia é propositalmente e cordialmente quente onde vemos o sentimento do impulso animalesco de seus personagens à medida que eles aparecem em tela e onde as relações entre eles ficam cada vez menos humanas e mais selvagens. É o sentido primitivo de matar ou morrer. Tudo por sobreviver, inclusive mentir, enganar e trapacear.

A câmera que sempre varia entre um close no rosto de alguém e outro consegue captar as engrenagens por trás dos olhos frios e expressivos de Sarah, Inácio e dos outros onde cada um precisa trabalhar por conta própria num jogo para ver quem vai ser sair melhor nessa história. E assim, Amaral Almeida mantêm as tomadas quase sempre fechadas em seus personagens como ela convidasse e desse a chance de quem assiste o filme de participar daquela noite inesquecível.

Claro, O Animal Cordial até sofre uma falta de ritmo em diversos momentos, o filme tenta jogar a trama para um lado e para o outro como se estivéssemos em um uni-duni-duni só que com uma faca. O excesso de personagens que estão ali para serem desenvolvidos fazem com que a trama fique um pouco arrastada, afinal, se você for matar alguém logo de cara para que tentar envolver o espectador em sua origem ou até mesmo desenvolver uma simpatia com ele. Mas é a máxima que o suspense pede, alguém tem que morrer não é mesmo?

O Animal Cordial não chega efetivamente a ser um filme do gênero mas sim uma produção que acaba por pincelar diversas traços de outras produções, outros diretores e mesmo que o roteiro falhe por deixar suas diversas reviravoltas jogadas ao longo do filme, talvez essas passagens, acabem por ser vistas como um certo ar de respiro para quem assiste.

O filme pulsa e grita excentricidade mesmo que acabe por ser mais artístico do que abraçar seu lado de terror b mas para a gente essa é realmente foi a intenção dos produtores. O Animal Cordial acaba por ser nossa Hannibal (a série protagonizada por Mads Mikkelsen e Hugh Dancy) brasileira onde o explicito choca mais por conta de todo um trabalho psicológico envolvido entre os personagens em tela do que efetivamente ver a faca ferir alguém e o sangue jorrar em tela.

Nota do Crítico:

 

O Animal Cordial chega aos cinemas no dia 9 de agosto.

Miguel Morales

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